JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Ecologia semiótica

A utilidade das formações semióticas é dupla, havendo por um lado, um nível de análise que se situa num plano intermédio entre os fenómenos micro-sociais (actuações, textos, declarações) e macro-sociais (dialectos, instituições, classes e ideologias), permitindo a sua interligação conceitual, por outro lado, porque o seu carácter dinâmico permite descrever as relações entre o micro e o macro-social como um conjunto de acções determinadas ou de factos (ou processos), independente dos indivíduos ou das instituições que os executam e que são solicitações variáveis e substituíveis.

Existem semelhanças nos sistemas ecológicos, relativamente ao duplo carácter intermediário das suas entidades, entre os níveis microscópico e macroscópico. A ecologia afirma que um conjunto de espécies pertence ao mesmo tipo ecológico se apresentar funções ecológicas parecidas, ou que ocupem indistintamente o mesmo nicho ecológico. É de realçar que esta definição faz referência a uma estrutura funcional, o nicho ecológico, que se define para cada uma das populações do ecossistema, sem importar se está ocupado por uma ou outra população.

Tal, não quer dizer que a ecologia não se interesse por saber que espécies concretas ocupam os nichos, aspecto estudado por uma das suas áreas, a “Autoecologia”, mas que a um nível geral ou holístico, a teoria ecológica prescinde desses detalhes a não ser que sejam necessários ou para ilustrar um determinado fenómeno de carácter geral. Assim sucede, quando se citam os níveis tróficos de um ecossistema (produtores primários, herbívoros, carnívoros e decompositores), faz-se referência a níveis ou entidades que exercem uma função ecológica, como a de fazer circular e consumir a energia e de circulação de matéria no ecossistema, independente de se tratar de um lago, onde os produtores primários são algas, ou de uma floresta, onde esta função é realizada basicamente, pelos vegetais superiores.

Os sistemas sociais não são homogéneos, pois convivem diferentes grupos sociais, complementares e em conflito, apresentam distintas ideologias e valores que evidenciam uma heterogeneidade organizada, e cada grupo tem formações semióticas características, com discursos e recursos linguísticos diversos, cujo o fenómeno é designado por “heteroglossia”. Assim, esta diversidade manifesta-se em diferentes actuações ou práticas sociais características, cujo fenómeno é designado por “heteropraxia”.

O aparecimento de movimentos opostos aos efeitos negativos da globalização da economia, ou o movimento de ocupação de habitações, edifícios e superfícies desabitadas ou abandonadas das cidades dos mais diversos países e em todos os continentes, sem autorização com vista a criar centros de vivência anarquista e cultural, sem intenção lucrativa e que ficou conhecido por “Okupa”, oposto à propriedade privada e à restrição do direito à habitação digna, reúnem-se em grupos sociais que mostram formas de expressão e práticas diferentes das realizadas por outros grupos sociais.

O conjunto de grupos sociais e as suas formações semióticas configuram o sistema cultural que apresenta uma natureza dinâmica. Este sistema faz parte do sistema eco-social como um nível mais amplo que inclui outros processos materiais. Os diversos fenómenos que têm vindo a ser falados e descritos relacionados aos sistemas em geral são claros no sistema eco-social. Uma das tendências é a distinção, segundo a qual, um sistema aumenta em complexidade porque as suas partes se diferenciam no tempo ou no espaço.

Os fenómenos de autonomia que se observam nas últimas fases de sucessão nos ecossistemas terrestres, têm como resultado, que umas partes do sistema se diferenciem das outras, dando lugar a uma miscelânea de tipos que apresentam diferentes estados de maturidade. Este fenómeno é patente também no sistema eco-social, onde determinados grupos sociais fazem progredir uma diferença semântica de forma progressiva utilizando novos recursos linguísticos, palavras ou palavras existentes com significados alternativos, práticas e estilos de acções e, novas formações semióticas alternativas às existentes no sistema.

Esta diferença do sistema eco-social implica uma rotura da sua simetria, tal como ocorre em outros sistemas, produzindo maior complexidade e dá lugar a um aumento do conteúdo de informação do sistema. Os sistemas eco-sociais estão organizados hierarquicamente, não no sentido da hierarquia derivada da autoridade das organizações sociais, mas por referência à tendência dos subsistemas a integrarem-se num super sistema ou meta sistema que exerce um controlo, e que muda mais lentamente. Os sistemas eco-sociais são de natureza material e apresentam intercâmbios de matéria, energia e informação, tanto a nível dos processos materiais destinados à produção de bens como nas práticas sociais que se produzem no contexto de uma formação semiótica.

Estas formações condicionam o tipo de relações que o sistema eco-social estabelece com o mundo e o seu comportamento ecológico. A forte vinculação entre estes aspectos materiais e sociais permite definir um sistema único que, em definitivo, está submerso num meio material ou meta sistema mais geral que controla o sistema eco-social.

O entendimento por parte do sistema eco-social da forte dependência relativamente ao nível hierárquico superior do meta sistema é fundamental para que as formações semióticas, que se traduzem em práticas sociais determinadas, incorporem novos significados relativos à dependência do sistema eco-social em relação com o seu meio. Estas mudanças dariam lugar a uma nova cultura de relações de significados, como resultado da mutação das formações semióticas apoiadas num novo estilo de práticas sociais (e materiais) no conjunto dos diferentes grupos sociais, objectivo que parece ser fundamental num momento de mudança ambiental global.

O meta sistema, antes ou depois, exercerá o controlo sobre o subsistema eco-social, estabelecendo novas relações, o que dará lugar a novos meta estados, seja na direcção de regressão ou na de reorganização. Estas propostas referidas às mudanças da cultura com respeito ao tipo de relações que estabelece com o sistema, parecem indicar um controlo do subsistema eco-social de dentro para fora. Este controlo de dentro não é possível, porque os sistemas hierarquicamente organizados apresentam grandes diferenças de escala entre os diferentes níveis. No entanto, a comunicação entre os subsistemas subjacentes e a sua reorganização, pode modificar as respostas possíveis do meta sistema e o tipo de controlo que se exercerá. .

O estabelecimento de novas relações entre os subsistemas ou as partes do sistema eco-social é possível de dentro do sistema, onde se produzem novas relações entre processos que não existiam, desfazendo outras relações antes existentes; em definitivo, estabelecendo novas características que reconfiguram o sistema eco-social. Esta proposta não pressupõe que a tendência deva ser a da indiferenciação ou homogeneidade das partes do sistema eco-social, uma vez que a existência de partes diferenciadas significa uma reserva de diversidade que é fundamental para a evolução do sistema ao exercer uma função reguladora e, prevenir a rigidez para poder assim, adaptar-se às eventuais mudanças ambientais que ocorram.

As palavras de Jay Lemke, nunca foram tão oportunas no presente, quando afirmou que “a grande tarefa intelectual deste século, ainda está por chegar, que é desfazer as culturas que negam a unidade dos sistemas eco-sociais e refazer as culturas que a defendem”.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 21.09.2012
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