JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A dialéctica de significados

nms

“Social semiotics is basically a theory of how people make meaning. It asks how we make sense of and to one another and how we make sense of the world. It concerns itself with everything people do that is socially meaningful in a community: talking, writing, drawing pictures and diagrams, gesturing, dancing, dressing, sculpting and building – in effect, everything.”

Talking Science: Language, Learning, and Values

Joy L. Lemke

A dialéctica entre pluralidade e monoteísmo tem por pano de fundo a teoria dinâmica e a arquitectura, e para além de ser uma prática social é um processo cultural, ou seja, uma expressão que concretiza o significado social do que o comum das pessoas entende que deve ser um edifício, uma casa, um bairro ou uma cidade. A introdução progressiva de conceitos ecológicos no discurso da sociedade é um facto cada vez mais intenso.

Os factores que conduzem a esta interiorização são diversos, contando-se entre outros, os meios de comunicação, a “internet”, a manifestação externa das mudanças climáticas globais resultantes da crise ecológica, a educação ambiental e os intercâmbios sociais relacionados com estes temas. Estes factores estão a moldar novos significados sociais acerca do que é desejável no futuro, e que se traduzem numa linguagem nova que pugna por um “verde” mais ou menos intenso.

As novas definições, interpretações e conceitos estão a reorientar a actividade dos arquitectos, mas igualmente dos políticos e de outros profissionais, ao introduzir na sua linguagem arquitectónico elementos de conservação e respeito pelo meio ambiente. As linguagens interpretativas em muitas disciplinas estão a incorporar os factores materiais, associáveis ao contexto ecológico, como sendo material. Assim, toda a actuação que se desenvolve na sociedade está ligada a dois tipos de relações, umas de natureza semiótica e outras de natureza material.

As primeiras, mais bem conhecidas, derivam do significado da actividade num âmbito social determinado, quando entram em contacto ou são testadas com outras práticas sociais. Assim, um projecto pode ou não ser aceite em função da sua própria coerência, ou se é social e politicamente admissível ou desejável, num contexto social e momento histórico determinado. O segundo tipo de relações tem a ver com as consequências materiais da actividade, ou melhor, com os intercâmbios de energia, matéria e informação com outros eventos e contextos, em definitivo, em relações de ordem física, química e ecológica.

A sintonia dos tipos de relações é óbvia na obra arquitectónica e no planeamento urbanístico e ordenamento do território. O estilo arquitectónico, no projecto de uma nova construção, vem regulado nuns casos ou determinado em outros, por um sistema de práticas sociais que apresentam uma linguagem histórica e cultural, incluindo o que o comum das pessoas entende que deve ser um local agradável para viver, ou seja, pela relação de comunicação de sinais transmitido e interpretado pela arquitectura. As decisões que se tomam em relação à execução física do projecto e às tecnologias que lhe estão associadas, são apoiadas por princípios físicos e químicos, mas a sua possível implantação e criação vem filtrada pela linguagem social.

Assim, entende-se a razão porque grande quantidade de apelidados “arquitectos ecológicos” respondem com frequência a objectivos de natureza comercial, pois, de facto, estão a introduzir nos seus desenhos, como um elemento expressivo isolado, a imagem social da linguagem do que deve ser uma “arquitectura ecológica”, através da implantação de medidas técnicas, como por exemplo, de natureza bioclimática (arquitectura bioclimática), ou pela inclusão de sistemas de captação de energia renovável, como por exemplo, a solar na cobertura dos edifícios ou habitações.

As melhorias consideradas terão apenas significado retórico, se não forem ponderados de forma sistemática os envolvimentos da construção de forma mais alargada, em termos ecológicos e sociais. A natureza material do projecto arquitectónico concretiza-se nos fluxos de energia, de matéria e de informação. As importações de materiais de construção e de energia necessária na construção e manutenção da habitação, ao longo da vida útil do edifício e as importações de informação, (através da forma ou estrutura da habitação, que é conteúdo não apenas significativo, enquanto a forma e a estrutura alteram o meio por força dos seus dos impactos ou da sua impressão ecológica), podem ser considerados como manifestações dos ditos fluxos.

Os processos de remodelação urbana de zonas degradadas, típica dos centros urbanos históricos das cidades, apresentam também esta dupla dimensão dialéctica e material. O planeador urbanístico, propõe frequentemente, em função de atitudes e valores implantados no social, na política ou, em situações pouco populares. Tais propostas, devem ser coerentes com a interpretação de outras práticas sociais, pelo uso de distintos procedimentos de decisão, e que sempre são submetidas a análise de enquadramento e conformidade.

Quanto à natureza material da proposta urbanística e no período até tomada da decisão, produzem-se alterações de natureza físico-química e ecológica que pressupõem um intercâmbio de matéria, energia e informação com o meio ambiente, quer seja na mesma cidade, quer seja nas cidades satélites ou nas mais afastadas, na consideração do presente momento de globalização da economia e da informação.

A materialização de uma permuta de informação, por exemplo, resulta da implantação de novas tecnologias derivadas da domótica (que é uma tecnologia nova que possibilita a gestão da totalidade dos recursos residenciais) ou da incorporação de materiais de construção que produziram impactos ambientais no local de implantação. Estes dois sistemas de relações, que aparecem inicialmente como independentes, são fortemente dependentes. A obra arquitectónica é uma concretização no mundo físico da dialéctica de significados. As mudanças no meio físico, as alterações materiais no meio ambiente ou a concretização física da obra, conduzem à construção de novos conceitos, em função da adequação ou não do projecto às expectativas. A vinculação de ambos os tipos de relações, as de ordem semiótica e as de ordem material, conduzem ao aparecimento de um sistema mais amplo, ao sistema eco-social.

Este sistema está organizado hierarquicamente em diferentes níveis que compreendem dimensões variáveis espaço-temporais, dado que em cada nível existem fortes nexos entre ambos os modelos de relações, as de qualidade física e as de semiótica. Assim, acontecem interacções entre os níveis imediatos. A cada nível e entre ambos, as alterações num dos níveis pode produzir efeitos inesperados e fortes no outro e vice-versa. As propriedades e a dinâmica dos dois níveis são idênticas e por isso, são integráveis no mesmo sistema. É possível descobrir propriedades emergentes do sistema, em cada nível, como por exemplo, a capacidade de auto-organização.

Os dois tipos de relações e a comunicação entre si é revelada por determinados sinais e pelos sistemas complexos de natureza física e biológica, devido a um desenvolvimento histórico independente, sendo analisados e descritos de forma autónoma por estudos académicos. A progressiva unificação derivada do conhecimento que se vai adquirindo sobre a sua dinâmica conjunta permitirá dar sentido, interpretar de forma adequada e prever os resultados de uma grande diversidade de actividades humanas, entre elas, a arquitectura e o urbanismo.

Os conteúdos deste novo modelo que une o mundo físico e o social excedem o plano ético. O pensamento ocidental tradicional, de raiz judaico-cristã ostenta bases ideológicas da classe dominante centralizadas num homem espiritual e superior, senhor da Terra, criado à imagem de Deus todo-poderoso, alheio ao mundo físico e que o utiliza em seu proveito; esta relação de preponderância é expressa não apenas na exploração de uma natureza infinita, mas também do homem pelo homem, dos animais e das coisas.

A aceitação de um modelo assim aplicado a este contexto, depende da convicção que se tenha relativamente ao conceito de obra arquitectónica como sistema. As máquinas e outras obras de engenharia podem ser desenhadas e criadas de forma determinista, por meio de equações que descrevem as relações existentes entre os elementos. Os sistemas naturais, situando-se em outro extremo, desde as células aos ecossistemas, apresentam também uma organização sistemática, mais complexa, na qual se estabelecem parâmetros de interpretação ao seu funcionamento e evolução. No âmbito destes sistemas usam-se conceitos, como os de entropia, informação, fluxo de energia, auto-organização, entre muitos outros, que têm a tendência a ser definidos de forma qualitativa e quantitativa. A obra arquitectónica, como um sistema deve ser entendida como um facto particular do sistema relacionado intimamente com o social.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 07.09.2012
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