JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Arquitectura como sistema

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“Instead of being driven by the dictates of architectural style and ideology, form is determined by the process of managing the environment and harnessing its benefits.”

Eco-Tower extraordinaire

Calvin Low

FuturArc – New Architecture – 3rd quarter, 2008 I Volume 10

A evolução da arquitectura pode ser interpretada a partir do conceito do desenho arquitectónico como sistema cultural complexo e auto-regulado. O estilo arquitectónico parece não ser mais do que uma propriedade emergente desse sistema. Trata-se de uma construção derivada de um processo de comunicação, intercâmbio e selecção de uma larga e complexa rede de conhecimentos e experiências que se produz entre os arquitectos, com o ambiente ao redor como pano de fundo.

Assim, as arquitecturas do passado, o movimento moderno ou o post-modernismo, são o resultado não tanto da actividade individual de génios da arquitectura, mas do ambiente cultural de cada época, dos factores sociológicos, tecnológicos e ideológicos dominantes em cada momento histórico. A formação física dessa construção mental é demonstrada através dos tipos arquitectónicos dominantes, que se manifestam em edifícios semelhantes no que concerne à sua concepção e estilo arquitectónico.

O estilo é o resultado da combinação e selecção de uma carga acumulada de estilos preexistentes e, portanto, tem um carácter evolutivo, que permite ao arquitecto não começar sempre do nada; daí que a sua utilização permite economizar energia no processo de desenho. O estilo é a combinação de uma ampla série de características não necessariamente ligadas com geometrias, volumes, texturas, decoração, uniões de elementos, localização no contexto espacial, articulação de elementos, cor e características que se encontram convenientemente equilibradas num edifício, algoritmo ou padrão.

O resultado, o desenho concreto, no entanto, é particular uma vez que cada projecto apresenta um contorno ambiental característico e único. Este resultado encontra-se emoldurado, num paradigma estilístico ou num grande estilo dominante, modelo que se gera colectivamente e que condiciona o que é adequado ou não fazer em arquitectura. Em cada momento, produz-se um predomínio de determinadas características do estilo. Assim, a inovação é possível a partir de novas combinações não ensaiadas anteriormente, e que se impõem porque têm sucesso entre os arquitectos e utilizadores.

As inovações constituem um novo património que faz parte da construção mental colectiva, que permanecerá ou não no futuro, em função do contexto e do discurso dominante. Logo, a evolução da arquitectura não deve ser entendida como uma evolução num “continuum” sem sobressaltos. O sucesso de determinadas inovações pode dar lugar a mudanças mais ou menos radicais, que se reconhecem na história da arquitectura. Neste processo construtivo de combinação e selecção, a comunicação profissional é de carácter transcendente, onde sobressai a influência de uns arquitectos sobre outros. No quadro da teoria de sistemas produz-se uma duplicação de estilos e de tipos porque se encontram bem adaptados ao meio sociocultural.

É argumentado por vezes que a teoria mimética permite ser uma explicação ao fenómeno de combinação, selecção e comunicação da informação nos sistemas sociais. Outros sistemas, como os ecossistemas, apresentam fenómenos idênticos. Uma população é composta por indivíduos quase semelhantes, com diferenças genéticas que permitem a selecção e o estabelecimento de novas estratégias de sobrevivência, se as circunstâncias ambientais se alterarem. A informação genética constitui uma biblioteca com determinados conteúdos, que se manifestam ou não, em função das circunstâncias.

Todas estas considerações confirmam o argumento de que o estilo arquitectónico e, portanto, o desenho, são uma concretização de um arquitecto colectivo e acumulativo, condicionado por um contexto histórico e cultural. Assim, a diversidade de tipos arquitectónicos que podem observar-se nas cidades europeias por exemplo, é uma representação da evolução dos estilos dominantes em cada época. Dentro de cada estilo podem-se reconhecer diversidades derivadas das amplas possibilidades de articulação das características, que conformam o estilo arquitectónico, em coerência com a tipologia dominante de cada época.

A existência de uma pressão pode ser reconhecida, entre a validade de conceitos gerais aplicáveis a diferentes sistemas, que se desenvolvem desde a teoria geral de sistemas, e a tradição própria de progresso disciplinar das ciências e das profissões. Segundo esta perspectiva, a ciência, as disciplinas e as profissões evoluem num contexto histórico que as condiciona. Assim mesmo, muitas das vezes pretende-se entender como se altera o conhecimento, apenas a partir de postulados de natureza empírica, que realizam uma tarefa estéril.

As ideias reconhecidas na ciência e nas profissões são um resultado da autoridade de pessoas valorizadas num quadro institucional, científico ou profissional. A teoria geral da dominação introduzida por Max Weber na sociologia governa a adequação das ideias das comunidades científicas ou profissionais em cada momento histórico, de forma que estes grupos de referência constituem os representantes reconhecidos dentro da profissão. Em definitivo, a política académica dirige o desenvolvimento das disciplinas e das profissões, e estabiliza o conhecimento nos limites do colectivamente aceitável.

No entanto, e felizmente, dentro de uma disciplina ou profissão, coexistem diferentes instituições ou grupos diferenciados, entre os quais se estabelece uma concorrência em relação com os conceitos, teorias e práticas que são válidos na disciplina ou na profissão, ideias defendidas por figuras autorizadas em cada grupo e que, por sua vez, acolhem cientistas e profissionais afins às suas propostas. Esta diversidade e concorrência permitem o progresso intelectual evitando o “monismo” imobilizador.

Entre os diferentes recantos ecológicos dos colégios reconhecidos e dos invisíveis, estabelece-se uma relação de concorrência que, com o tempo, produzirá uma mudança histórica, que seguirá num sentido ou outro. A partir desta perspectiva, tem interesse observar como a teoria geral de sistemas e os conhecimentos e aplicações dos mesmos na esfera social e profissional, têm de ocupar lugar, neste campo do saber prático que é a arquitectura. A utilização de uma perspectiva sistémica não é em absoluto contraditória com a arquitectura dos grandes arquitectos do passado.

Ao invés, aplicavam, umas vezes de forma intuitiva e outras de forma sistemática, uma grande série de conhecimentos, que ia desde a política às matemáticas, passando por um profundo conhecimento da sociedade, economia, ciência, direito, ética e, em geral, dos conceitos e crenças de cada momento histórico. O que se pretende com a defesa de uma perspectiva holística na profissão é a de contribuir para o entendimento da arquitectura. A teoria de sistemas é uma tentativa de ajuda da mente humana a conviver com um mundo demasiado complexo como refere Gerald Weinberg, no seu livro “An Introduction to General Systems Thinking”. A boa obra arquitectónica só é possível, através de uma análise suficiente das forças naturais e sociais do contexto histórico e ecológico, e a sistematicidade da teoria de sistemas que permite tal análise.

As posições que o evitam e fundamentam as suas decisões em tendências estético-formais estabelecidas, deram lugar a resultados arquitectónicos muito questionáveis, e a uma reflexão ética de consequências políticas, sobre quem e para que serve a obra arquitectónica. Esta debilidade é a que expõe para crítica às instituições dominantes que ao longo do século XX desenvolveram a arquitectura moderna e, ademais, constitui em si o mecanismo que permitirá a evolução para outras fases. No fundo a esta discussão cabe acrescentar, que as instituições científicas e profissionais exemplificam os princípios e ideais mais profundos, sobre o qual repousa o poder político.

Felizmente, o poder político e as instituições podem então reconhecer a existência de uma pluralidade, para evitar o monoteísmo, não só como uma forma aberta de entender o progresso do conhecimento senão também, para negá-lo, como um mecanismo que permite a permanência no poder, prevenindo situações mutantes ou de relevos drásticos no campo disciplinar ou profissional.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 31.08.2012
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