JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Arquitectura e sociedade sustentável

Talvez, a forma como se constrói e se usa o edifício habitacional cria impacto no estado do meio ambiente global, em situações como a destruição da flora (desde arvoredos a florestas), deterioração da paisagem para a obtenção de materiais, degradação dos rios, poluição do ar ou a alteração climática derivada das combustões de processos industriais relacionados com a produção dos materiais da construção.

Os impactos ambientais manifestam-se também, à escala local, em situações como o consumo de espaço ou as doenças ou incómodos resultantes do processo construtivo e, na fase de uso, em aspectos como a qualidade de vida, a saúde e a segurança dos seus habitantes. Este tipo de situações concretiza-se, entre outros, pela formação de atmosferas interiores não saudáveis, alheamento dos seus ocupantes pela constância do seu comportamento, resultantes de um desenho inadequado, ou na exposição a ruídos intensos e continuados.

As novas técnicas de desenho e construção sustentáveis têm vindo a ser experimentadas e implantadas com sucesso em diversas cidades do mundo. É de incentivar uma maior pesquisa, estudo, ensaio e implementação no futuro próximo no contexto de uma sociedade que tenha optado pela sustentabilidade. A experiência obtida com a implantação de sistemas de gestão ambiental em outros sectores, como o da indústria, permite que se avance nessa direcção com sucesso.

As experiências colhidas no sector industrial, por exemplo, permitem concluir que os efeitos da produção, manifestam-se de uma forma evidente e imediata na poluição do ambiente, o que obrigou os seus gestores e a administração a implantar medidas correctivas. Ao longo dos últimos decénios, revelaram-se três tendências sucessivas, que actualmente ainda continuam vigentes. A primeira, marcada pela irresponsabilidade, caracteriza-se pela redução de emissões poluentes, escondendo-as de alguma forma, mas reveladas em certas práticas habituais, como a dissolução dos poluentes em grandes volumes de água ou ar para reduzir a sua concentração, e assim não superar os limites estabelecidos.

Quanto aos resíduos sólidos tóxicos e perigosos ou eram depositados em áreas incontroladas ou em terrenos arrendados ou comprados. Todas essas práticas tiveram importantes custos sociais, como resultado do necessário saneamento posterior dos solos e das águas. A segunda fase, dominante nas décadas de 1970 e 1980, caracterizou-se pela correcção no final do processo produtivo, mais conhecido pelo conceito inglês de “end-of-pipe”, ou seja, pelo recurso a tecnologias usadas para o tratamento e controlo dos resíduos no final do processo produtivo e conhecidas como tecnologias de “fim-de-tubo”

Os impactos ambientais eram mitigados por estações de tratamento de águas residuais, equipamentos de tratamento de gases e partículas ou com a inertização, incineração ou despejo de resíduos controlados. Esta solução implicava grandes investimentos em instalações, com tecnologias sofisticadas em contínua evolução, e gastos, de manutenção e afectação de pessoal especializado que, em determinadas indústrias, condicionavam a sua viabilidade económica.

A terceira tendência, iniciada no final da década de 1980, durante a década de 1990 e prolongando-se até ao presente, caracteriza-se pela prevenção da poluição desde a fonte e na internalização dos custos ambientais. Trata-se de rever completamente o sistema produtivo para reduzir os impactos sobre o meio ambiente. Essa revisão e a implementação de medidas correctivas reduz ao mínimo as emissões em qualquer situação e momento, optimiza o uso de energia e dá lugar a um processo produtivo limpo, eficaz e competitivo.

No processo produtivo são recuperados os materiais e é incentivada a cogeração para evitar perdas energéticas. Os materiais não reutilizáveis pela indústria, são comercializáveis como subprodutos ou matérias-primas para outros processos industriais que os possam aproveitar. Os resíduos não utilizáveis são convenientemente tratados e dão lugar a resíduos inertes. As perdas de água e de materiais minimizam-se, uma vez que se estabelece um ciclo mais ou menos fechado no processo produtivo. Assim, o conhecimento e o controlo detalhado das diferentes fases do processo, têm em vista uma maior segurança do trabalhador e da população ao redor.

As experiências levadas a cabo até ao presente, demonstram que os investimentos necessários para optimizar o processo produtivo são amortizados num período curto, dado serem consumidos menos recursos materiais e energéticos. A realização deste modelo, está ligada ao estabelecimento de um sistema de gestão ambiental, integrado no sistema de gestão geral da indústria, no qual são estabelecidos objectivos, procedimentos e avaliação contínua do próprio sistema.

Tendo em consideração a relação com esta tendência, tem de se considerar que a sustentabilidade de um processo produtivo não está apenas vinculada à qualidade do processo, mas também ao produto. Mediante a análise do ciclo de vida do produto, podem conhecer-se os impactos directos e indirectos produzidos. Este método de análise considera os custos energéticos e de recursos naturais, bem como os impactos resultantes da obtenção de matérias-primas necessárias ao processo produtivo. Considera igualmente, os custos referentes ao uso posterior do produto por parte do consumidor, bem como os derivados do tratamento, reciclagem ou reutilização dos resíduos criados, ou em outros termos, é uma análise que percorre todo o ciclo de vida do produto (do berço à tumba).

Quanto ao sector imobiliário foram realizadas experiências similares. Assim, em 1987 foi terminada a construção da nova sede do “Banco Internacional da Holanda”, em Amesterdão. Tratou-se de um desenho “orgânico”, realizado pelo arquitecto Ton Alberts, que levou três anos a ser completado e nele foram considerados os aspectos de poupança energética e de outros recursos, como os de integração de formas naturais no seu interior. O desenho incorporou diversas características para que a nova sede do banco viesse a consumir a décima parte da energia, que consumia o antigo edifício.

Os custos adicionais derivados do desenho e da construção, investidos nesta poupança energética e de materiais, foram amortizados em apenas quatro meses. Ainda que, esta experiência seja indicativa das enormes possibilidades que futuro representa, é importante frisar que se tratou de uma experiência totalmente programada, exibindo as tendências dominantes do momento, pois, continuam a predominar os critérios de rentabilidade imediata a curto prazo, derivados da resistência à mudança por parte dos diversos actores do negócio imobiliário.

Esta construção única foi efectuada num local seleccionado pelos empregados do banco e tendo em consideração a proximidade das suas residências. É um complexo que ocupa uma superfície de cerca de dezassete mil metros quadrados, constituído por dez torres ligadas entre si por uma rua interna ondulada. O sol, no interior, reflecte-se no metal colorido, que é um dos muitos elementos artísticos que decoram a sua estrutura, para invadir os pavimentos inferiores de matizes constantemente cambiantes. Os jardins internos e externos são irrigados com água da chuva recolhida na cobertura. Todos os escritórios recebem ar e luz naturais. O aquecimento e a ventilação estão a maior parte do tempo desligados, não sendo usado nenhum sistema convencional de ar condicionado.

A água como motivo decorativo escorre das esculturas dos corrimões de bronze das escadas. Neste tipo de construção, o absentismo é inferior em 15 por cento e a produtividade aumentou. Os funcionários participam de numerosas actividades culturais e sociais nocturnas ou de fim-de-semana. O produto final que pode ser apreciado por quem visitar a cidade foi muito além do esperado quanto às características, particularidades, propriedades e ao processo de “design” executado.

O “design” do edifício “orgânico”, integra arte, materiais naturais e locais, luz natural, verde das plantas, conservação de energia e água, e o silêncio é um dado adquirido. Em termos de custos não foi superior em metro quadrado à média do mercado. O capital gasto nos sistemas de economia de energia foi recuperado nos primeiros três meses, tendo consumido menos 92 por cento de energia que um outro banco contíguo, construído na mesma época, representando uma economia de cerca de três milhões de euros por ano, fazendo dele um dos edifícios mais eficientes em energia da Europa.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 17.08.2012
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