JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A cidade como sistema aberto

A recuperação do ecossistema, após a ocorrência de um incêndio é possível, e inicia-se uma sucessão ecológica secundária, que conduz a uma fase muito semelhante à existente antes do distúrbio. As alterações provocadas pela actividade humana, apresentam múltiplas manifestações e algumas provêm de actos sobre outros ecossistemas, com o qual os primeiros mantêm ligação como por exemplo, sobre exploração dos aquíferos, que cria mudanças na regularidade do volume das águas dos rios, do ecossistema fluvial e da vegetação ribeirinha dos rios pela descida do nível freático.

A plantação de variedade de espécies vegetais estranhas destinadas a uma maior produção florestal, constitui uma alteração do ecossistema primitivo, tendo efeitos de diferente natureza. A actividade humana de exploração dos recursos, de criação de poluição e de outras alterações de carácter diverso no meio ambiente, tem como resultado a regressão dos ecossistemas.

A regressão manifesta-se por meio de um conjunto de mudanças de sentido oposto, às que se produzem na sucessão ecológica na sua concepção holística. Algumas dessas modificações nos ecossistemas, manifestam-se por aumentos exteriorizados na produtividade, no incremento da taxa de renovação substancial de espécies (e a diminuição do tempo de renovação), no aumento do número de relações de competição entre as populações que partilham algum recurso, e pela diminuição da diversidade de espécies, bem como pela dinâmica das populações e da evolução das estratégias no aumento da proporção de estrategas do “r” (adultos de ciclo de vida curta), face aos estrategas “K” (adultos grandes de ciclo de vida larga), e redução da complexidade e da estrutura do sistema.

Os resultados da regressão manifestam-se com o rejuvenescimento do ecossistema. Este fenómeno têm-se observado igualmente, nos ecossistemas que não estiveram sujeitos à intervenção humana. Em determinados ecossistemas, os níveis tróficos superiores, por exemplo, os herbívoros da savana africana, exploram continuamente o nível trófico dos produtores primários, pelo que se mantém num fase prematura, e dessa forma obtêm-se o máximo alimento, dado que, a simplificação conduz a um aumento da produtividade e a uma diminuição do tempo de renovação da sua biomassa, que é benéfico para os herbívoros.

Num segundo modelo, em que o ser humano faz parte do ecossistema, figura como um nível trófico superior, que explora os níveis inferiores, produzindo a sua simplificação. Esta perspectiva não pode conduzir a propostas erróneas, segundo as quais, a regulação mútua entre os diferentes níveis tróficos, actuaria no final por regular as relações do homem sobre o ecossistema.

Numa óptica ecológica o comportamento humano é insólito na natureza, uma vez que as suas inovações apresentam características estranhas aos ecossistemas. A existência de mecanismos de auto-regulação entre os níveis tróficos, não significa a impossibilidade de se dar o colapso do sistema. A realidade do estado da biosfera demonstra-nos com incontáveis exemplos. No sentido termodinâmico, a acção humana sobre os ecossistemas, traduz-se numa aceleração dos fluxos de matéria e energia, que produzem uma maior desordem (entropia) e incerteza no meio ambiente.

O efeito é a simplificação dos ecossistemas, quer dos explorados, quer dos receptores dos resíduos da actividade humana. A ecologia, assente na teoria ecológica, tem evidenciado verdadeiros paralelismos, entre os processos e leis dos ecossistemas naturais e os sistemas urbanos. Esta constatação, é o resultado da natureza da ecologia como ciência de síntese, que pode reunir um conjunto de factos e conceitos característicos da teoria ecológica, que são aplicáveis nos outros contextos, como são as cidades ou em outros sistemas humanos de diferentes momentos da história ecológica.

É necessário reconhecer, no entanto, que o objectivo é incompleto e aberto, e que não pode abarcar toda a complexidade da realidade urbana. Diversas disciplinas têm a função de entender o fenómeno urbano como um sistema de relações. Esta visão concebe a cidade como um sistema aberto, que apresenta intercâmbios e uma dependência do exterior, no que toca à matéria e energia, com uma estrutura complexa, uma comunidade biológica conformada pelas populações de animais e vegetais, incluindo a humana, e que se exterioriza com astúcia construindo edifícios, vias, infra-estruturas de abastecimento e de saneamento, e um metabolismo interno que renova as estruturas e dinamiza o sistema no seu conjunto.

Numa forma muito simplificada podem-se enunciar alguns princípios sobre o sistema urbano, em concreto, tais como, a cidade apresentar um meio fisiográfico definido (que se refere à fisiografia ou geografia física, entendida como a explicação da natureza, do planeta e dos fenómenos naturais), que condiciona a sua extensão e estrutura (clima, solos, orografia e hidrologia); mostrar uma biocenose ou comunidade de organismos, entre os quais, o homem que se situa como controlador das diversas espécies, através das suas actividades; ser na sua estrutura (ou forma) complexa e mutante dependendo das condições físicas e biológicas e das decisões humanas, o que condiciona em parte a sua forma e extensão, bem como a vida dos seus habitantes; deter um metabolismo similar ao de um organismo vivo, pois importa matéria e energia, em forma de alimentos, materiais de construção, energia de diferentes tipos, água e informação, e exporta resíduos sólidos, águas residuais, produtos e informação.  

A cidade é um sistema aberto e muito heterotrófico, pois depende para sobreviver, dos recursos exteriores ao seu território, como são os derivados da agricultura, pecuária, pesca, recursos minerais, produtos de outras cidades, informação científica, tecnológica, cultural, financeira, situados em locais mais afastados; serem produzidos no seu interior fluxos heterogéneos de matéria e energia, variáveis segundo as zonas, devido a condicionantes físicas, decisões políticas e actividades humanas (industrial, comercial, serviços). Naturalmente, o sistema urbano não é homogéneo na sua extensão como resultado deste fluxo heterogéneo.

A heterogeneidade da cidade reconhece-se pela distinção de diferentes zonas ecológicas, que se manifestam pela mudança de estrutura e de factores ambientais e sociais, e que pode ser plasmada num mapa ecológico e pela existência no sistema urbano de circulação de informação que regula os fluxos internos, o desenho e função das estruturas e os intercâmbios com o território próximo ou remoto. É necessário acrescentar que os factores de tipo ambiental condicionam a qualidade ambiental da população urbana. Sem cair num determinismo, é evidente que, além de outros factores de tipo psicológico, social, cultural e económico, as características ecológicas do meio urbano, condicionam a qualidade de vida dos seus habitantes.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 01.06.2012
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