JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

O planeta um complexo molecular

 Flurije

“There is an inescapable continuity between the past and the future. With science we have acquired the wonderful ability to reconstruct the past, often with great detail: our own past as a biological species, the past history of life on Earth, that of Earth itself, and even that of the Universe as a whole. We can now unravel with sufficient reliability the way this adventure has run from the very first instant when the Universe was only a singularity that generated time and space. Furthermore, this same scientific knowledge also provides a way of revealing the future.”

Humans on Earth - From Origins to Possible Futures

Filipe Duarte Santos

Os sistemas autopoéticos foram formulados pelos neurobiólogos chilenos Francisco Varela e Humberto Maturana, em 1974, como resultado da análise formal e rigorosa dos fundamentos da vida, do funcionamento dos sistemas vivos como são as células, ou nos mecanismos circulares estabilizadores do metabolismo celular. Estes sistemas, caracterizam-se pela particularidade dos seus componentes, se auto-criarem continuamente e serem autoproduzidos. Os mecanismos que produzem os componentes, permitindo funcionar o sistema, originam assim, os componentes que os produziram. Em outras palavras, são sistemas autoprodutivos e auto-organizados, mantendo a sua organização.

Um sistema autopoético funciona por meio de uma rede de processos de produção (transformação e destruição) de componentes, que ao mesmo tempo, produz os seus próprios componentes. O estudo da sua estrutura “per se”, num determinado momento, não permite compreendê-los, porque estes sistemas apresentam uma rede de relações causais, que não podem ser conhecidas num lugar do sistema, nem em qualquer momento. Os elementos do sistema renovam-se continuamente, seguindo um processo ininterrupto de transformação e destruição, como resultado da actuação dessa rede de processos.

Os componentes do sistema autopoético, relacionam-se num domínio topológico, no qual a proximidade dos componentes é relevante para o funcionamento do sistema, pelo que são sistemas que tendem a fechar-se em si. Estes sistemas, conquanto apresentam um alto nível de encerramento, não se encontram completamente fechados, dado que interagem com o ambiente. As alterações ambientais que poderiam comprometer a sobrevivência do sistema, são observados pelo mesmo, de forma que internamente se produz uma selecção de processos homeostáticos (necessário à sobrevivência dos seres vivos), que terão como resultado a adequação a esta nova situação.

Estes sistemas apresentam, uma grande quantidade de informação acumulada, que permite a selecção de mecanismos adequados e adaptados a situações mutantes. O modelo de sistema autopoético, tem diversas aplicações em diferentes ramos da ciência e tecnologia, como a da engenharia de software (ES), ou a da inteligência artificial, e em diferentes ciências humanas, como o direito, devido às teorias de Niklas Luhmann em relação aos sistemas sociais, tendo aplicação ainda, na psicoterapia e na psicologia cognitiva, entre outros ramos da ciência. Os autores da autopoiese propuseram que o modelo de sistema autopoético, é aplicável também ao campo da cognição. Tal como no caso dos sistemas vivos, a cognição não pode ser descrita apenas através da sua estrutura, como se propõe no paradigma cognitivo de natureza computacional, segundo o qual o pensamento e as acções, são o resultado de um processamento lógico assente em algoritmos.

A cognição não é a manipulação interna de informação ou sinais externos, como se tratasse de um computador. A partir da perspectiva da autopoiese, entende-se a cognição como um sistema localizado no corpo humano, capaz de discriminar os fenómenos e o seu contexto semântico como unidades globais e não como resultado de uma série de operações lógicas sucessivas. A linguagem como forma de comunicação, deve ser entendida nesta teoria como um todo, conformado não só pelas palavras e seus significados, mas também, como um domínio semiótico com significados globais e amplos no qual se integram factores como a comunicação não verbal, as atitudes e outros aspectos de natureza ambiental, que envolvem o processo de comunicação.

O sistema cognitivo autopoético permite assim, seleccionar por indução a melhor solução, para cada situação, com o objectivo de permitir a sobrevivência do próprio sistema cognitivo. Uma rede interna de processos, dá lugar à construção e desconstrução contínua de conceitos, que são relativizados em função da percepção interessada do observador da realidade. O conhecimento, é pois, o resultado de uma interpretação interna, que emerge das nossas capacidades para o compreender, encontrando-se enraizado nas estruturas do nosso corpo (biológico), e que é vivido e instruído pela experiência, dentro do domínio do consenso, num contexto cultural de natureza histórica.

A mais reconhecida, entre as diversas teorias existentes quanto à origem da vida no nosso planeta, é a científica, que descreve como resultado de uma evolução bioquímica da matéria orgânica (aminoácidos, ADN, entre outros), originada a partir da matéria inorgânica (metano, amoníaco, água, hidrogénio), que num processo longo e complexo, e em determinadas condições ambientais (águas estagnadas, em fontes hidrotermais submarinas), deu lugar à formação de uma célula primitiva, a qual, como mostram os registos fósseis, é muito semelhante às bactérias actuais. A partir desta primeira célula, no decorrer da evolução, originaram-se todas as formas de vida que proliferaram na “Terra” no passado, e as que chegaram até ao presente.

Foi defendida a teoria da possibilidade de uma origem extraterrestre da vida, que nada mais apresenta que levar além, no espaço e no tempo, as hipóteses sobre os mecanismos implicados na mesma origem da vida, mas em outro contexto desconhecido. A partir da visão da entropia lógica, quer o processo que conduziu à origem da vida, quer a evolução são processos neguentrópicos (negação da entropia) ou de entropia negativa, dado que, ao começar por uma desordem se cria ordem. As formas simples, dão lugar a formas mais complexas. Esta tendência para a ordem, não é exclusiva da vida, uma vez que se deduz da evolução da matéria, a partir da energia produzida na “Grande Explosão (Big Bang)”, há 14000 milhões de anos.

A combinação das partículas elementares formadas imediatamente, após a “Grande Explosão”, deram origem às partículas subatómicas (protões, electrões e neutrões), ao hidrogénio e aos diferentes átomos, por combinações diferentes destas subpartículas nas estrelas, e também a uma grande diversidade de moléculas, mais ou menos complexas, formadas pelas uniões possíveis dos diferentes átomos. Este grande complexo molecular, que é a “Terra”, começou a arrefecer há 3900 milhões de anos, formando-se as rochas mais antigas e conhecidas. Tal arrefecimento, foi bastante rápido, se considerarmos que a “Terra” se formou há aproximadamente 4600 milhões anos.

Encontraram-se fósseis de células primitivas com uma idade de 3500 milhões anos. A produção da totalidade de oxigénio por parte de um subtipo de organismos muito idênticos às bactérias com capacidade fotossintética, os cianófitos, deu-se há cerca de 2000 milhões de anos, produzindo a extinção em grande escala de organismos anaeróbios, que ficaram limitados a ambientes isentos de oxigénio, e abriu a porta à ocupação biológica dos continentes, obrigando à formação da ozonosfera, camada gasosa capaz de filtrar as radiações solares ionizantes, que antes impossibilitava a colonização da crosta terrestre.

Os registos fósseis, reflectem que a diversidade de formas biológicas aumentou incessantemente, apesar das diversas extinções em massa, ocorridas ao longo da era secundária, por força das alterações climáticas, do impacto de asteróides, das mudanças na polaridade do magnetismo terrestre ou na incidência excessiva de radiações solares ionizantes. Assim, o número de famílias de animais marinhos contabilizadas nos fósseis, ao longo do “Éon Fanerozóico” (desde há 600 milhões de anos) aumentou de algumas dezenas, até às actuais 1900 famílias existentes, e que se puderam catalogar.

Ao longo deste percurso histórico, deduz-se um aumento da complexidade da biosfera, o aumento progressivo de formas de vida e a diversidade de organismos vivos, que a ocupam. Tudo parece ordenar-se, de forma que a energia e o caos material inicial, se transformassem em ordem e estabilidade, em contradição aparente, com o segundo princípio da termodinâmica. A corrente de pensamento neodarwinista, defende que a vida é progresso e que a evolução inclinou-se sempre do simples ao complexo, de uma maior dependência a uma relativa independência dos organismos em relação ao seu meio, a uma maior autonomia dos indivíduos, ao desenvolvimento de um sistema nervoso e de órgãos sensoriais mais complexos, que permitem uma melhor sobrevivência e finalmente uma maior consciência.

No fundo, esta problemática reside, num debate sobre o sentido da evolução da vida, como uma forma de progresso. As correntes que diferem da neodarwinista, defendem que não existe tal progresso na evolução, uma vez que o organismo actual simples, como um protozoário, seguiu um processo evolutivo longo e complexo baseado em mecanismos idênticos, que não o torna inferior em termos evolutivos de outros animais que se afirma, serem altamente evoluídos, como seriam os vertebrados ou o próprio homem. Os resultados são diferentes, num caso e outro, devido às restrições do meio, relacionadas com a função ecológica de cada espécie no grupo que ocupa no seu ecossistema.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 25.05.2012
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