JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Relações assimétricas das cidades

Em tais casos, é evidente uma grande capacidade de mobilidade horizontal dirigida à obtenção dos recursos. Este comportamento, é ecologicamente equivalente ao praticado actualmente pelo ser humano, que explora os recursos a nível local e global. O comportamento ecológico do ser humano, seguiu a mesma tendência, que apresentam os super depredadores. Desde do homem caçador-recolector, até ao estabelecimento dos primeiros assentamentos humanos, nos quais, se praticava a agricultura e a transumância, manteve-se uma regra comum, que conduzia a um equilíbrio entre o desenvolvimento demográfico e a conservação dos recursos locais.

A diferença essencial, é que o ser humano não necessita presentemente, do movimento da sua biomassa para atingir os recursos. Os sistemas de transporte permitem, a exploração dos recursos a grandes distâncias e em quantidades muito consideráveis. A evolução demográfica da população humana nos últimos séculos, deu lugar a um progressivo aumento da sua área de influência, até confluir na fase actual, na qual a interacção do ser humano compreende toda a biosfera, uma vez que, a estratégia das fronteiras foi desaparecendo com a globalização da economia.

Os impactos ambientais deste comportamento, apresentam três causas externas gerais, que são a exploração dos recursos, a poluição e as perturbações dos sistemas naturais. A utilização de recursos renováveis e não renováveis destinados aos processos de produção e consumo, incidem na biosfera tendo como consequência a sua redução. Estes processos derivam da acumulação de resíduos sólidos, líquidos e gasosos que geram poluição. O limnólogo (estudo dos lagos e pântanos), oceanógrafo e ecologista espanhol Ramon Margalef Lopez, resumiu a relação existente entre os recursos e a poluição, como aquela, em que a poluição é o preço que temos de pagar, pela inexistência do retorno dos resíduos aos locais, de onde foram extraídos os recursos.

Os centros de transformação e consumo, utilizam os mesmos recursos para os abandonar nos locais que não causem prejuízo imediato à saúde. A exportação desses resíduos aos locais de deposição, incide negativamente sobre os ecossistemas receptores, criando impactos ambientais de diferente natureza, tendo como efeito, a regressão dos ecossistemas e a sua redução, derivada da destruição estrutural e funcional.

O âmbito territorial da exploração humana atinge na actualidade, praticamente toda a biosfera, pela grande capacidade de transporte horizontal que tem o ser humano. Na maior parte dos ecossistemas, o transporte da matéria segue um eixo dominante vertical, derivado da fotossíntese e da gravidade, de forma que a produção das zonas superiores fotossintetizadoras é explorada pelas zonas inferiores, que recebem a matéria e energia, cuja evidência se nota numa floresta, onde o estrato arbóreo alimenta a enorme quantidade de pequenos organismos que formam a rede trófica do solo, mas também nas águas, onde o plâncton das zonas iluminadas permite a subsistência final dos organismos que vivem no fundo (bentos), que recebem a alimentação por sedimentação da biomassa produzida pelos estratos superiores.

O transporte horizontal de matéria e energia nos ecossistemas, pressupõe uma parte muito pequena do total, e é realizada por um número reduzido de populações animais. O usual, é que este transporte, seja mais ou menos aleatório e muito limitado, de forma que não é habitual produzirem-se acumulações em pontos determinados. Só certas espécies, como por exemplo, determinados insectos com comportamento social, fazem transportes assimétricos, que significam uma acumulação. No entanto, no conjunto do sistema, estas rotas estão mais ou menos equilibradas.

Outra situação, é a derivada da exploração de territórios amplos, realizada por populações com capacidade migratória. A exploração de recursos de diferentes ecossistemas, permite-lhes escapar dos circuitos de regulação local, que limitariam o seu desenvolvimento. A história ecológica da população humana em relação ao transporte, demonstra como o ser humano teve uma conduta idêntica à das espécies com capacidade migratória, mas em grandeza superior, quer no que se refere à forma de o realizar, quer em relação à quantidade e diversidade dos recursos movimentados.

O nomadismo itinerante foi, e ainda é no presente, uma expressão deste tipo de comportamento. Actualmente, o ser humano transporta os recursos não de forma aleatória, mas aos seus centros de transformação e consumo, o que significa a acumulação de resíduos sólidos, líquidos ou gasosos, isto é, a poluição. A invenção da agricultura supôs a produção de excedentes, que permitiram que uma parte da população se dedicasse a outras funções concentradas em assentamentos humanos. No sentido ecológico, esses assentamentos actuam como sistemas heterotróficos muito complexos e bem organizados, que se foram expandindo para áreas mais amplas, até atingir na actualidade, praticamente toda a biosfera.

A exploração, não se circunscreve aos ecossistemas naturais e agrários, mas inclui outros sistemas humanos. Expressões concretas deste fenómeno de exploração são as relações assimétricas existentes no sistema de cidades, como uma consequência da actual ordem económica internacional. Em uma forma idêntica aos ecossistemas naturais, realiza-se uma exploração dos níveis tróficos superiores sobre os inferiores, (induzindo a uma maior taxa de renovação destes), podendo-se reconhecer relações similares, entre os diferentes grupos de poder existentes nos sistemas urbanos.

O sistema de cidades à escala global comporta-se, em termos ecológicos, como uma grande unidade que explora a biosfera no seu conjunto. Nos últimos decénios tem-se observado uma tendência geral à urbanização da população humana, derivada quer do surpreendente crescimento demográfico, como da aplicação de tecnologias agrícolas e de gado de carácter intensivo, que necessitam de uma menor afectação de recursos humanos, e que provocam o abandono do mundo rural.

A população mundial tende a concentrar-se actualmente em grandes núcleos urbanos, que marcam uma área de influência sobre o território de uma forma difusa. Os padrões dominantes no planeamento e desenvolvimento urbano nas diferentes regiões do mundo, está a produzir fortes impactos ambientais sobre o ordenamento dos territórios e deficits na qualidade de vida dos seus habitantes. Esses padrões surgem como deficientes e expressam-se, no fundo, de forma muito semelhante em todo o mundo.

Os deficits de serviços e de qualidade de vida urbana das cidades de países em desenvolvimento são uma manifestação a meio da rota do modelo dominante de planeamento urbano dos países desenvolvidos, reproduzindo o comportamento insustentável do círculo vicioso de exploração, poluição e perturbações ambientais.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 18.05.2012
Share

Pesquisar

Traduzir

ar bg ca zh-chs zh-cht cs da nl en et fi fr de el ht he hi hu id it ja ko lv lt no pl pt ro ru sk sl es sv th

Azulejos de Coimbra

painesiv.jpg