JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Diálogo social e interpretação ambiental

Assim, o arquitecto deve gerir ponderadamente esse conjunto de aspectos. Argumentam muitos, que a arquitectura dos últimos decénios perdeu pelo caminho, alguns desses aspectos sociais, ambientais, históricos e formais para dar primazia a desenhos baseados em aspectos puramente estético-formais, que apresentam grandes lacunas no que concerne à solidez conceitual e à utilidade da obra arquitectónica.

A concretização do desenho arquitectónico e do planeamento urbanístico, a determinação do que é a obra e dela deriva, na integração ponderada e equilibrada de diferentes aspectos de origem disciplinar diverso, que limitam o que é ou não possível fazer, a partir de um quadro conceitual geral aplicado a um contexto espacial temporário concreto, que mobiliza, entre outros, aspectos sociológicos, históricos, psicológicos, antropológicos, demográficos, urbanísticos, históricos, legislativos, formais, políticos, económicos ou estéticos, que se conjugam nas decisões tomadas no projecto.

A adequada harmonização destas considerações permitiria então atingir a utilidade, a beleza e a solidez, que a obra arquitectónica pretende atingir. A grande especialização dos diferentes campos do saber, dificulta este trabalho de integração do conhecimento por parte do arquitecto. É urgente considerar um quadro conceitual baseado na teoria de sistemas, que permita a integração dos conhecimentos desejáveis na definição da obra arquitectónica, que é defendido por muitos e posto em prática em alguns países com grande sucesso.

A actual aproximação das ciências e das humanidades à teoria de sistemas, serviria para criar referências conceituais integradoras, adentro dessa corrente de pensamento. A presença de propriedades emergentes comuns em sistemas de diferente natureza, desde os organismos vivos até aos sistemas sociais, permite fazer uma análise da natureza e apreender o significado dessas propriedades aplicadas ao campo da arquitectura. Propriedades como a complexidade, entropia, informação e evolução dos sistemas são algumas das mais relevantes.

Os sistemas naturais e sociais existentes subsistem, porque são operativos e funcionam. Esta virtualidade funcional, permite pensar que as obras humanas que consideram esta perspectiva sistémica com uma análise suficiente, deveriam ser mais idóneas do que outras assentes em perspectivas mais reduzidas. Há que considerar a obra arquitectónica como um sistema que permite pensar estes aspectos, como indicadores das suas propriedades intrínsecas de acordo com a ordem natural de sistemas de diverso nível de organização e de complexidade.

Algumas contribuições recentes no campo da arquitectura, têm vindo a ser realizadas nos últimos decénios e tudo parece indicar que se continuarão a produzir no futuro. Esta perspectiva sistémica revela-se actualmente como uma necessidade que nos permite aproximar do conhecimento da realidade, mas não ainda no seu todo. A maioria dos pensadores de desenho arquitectónico e urbanismo concorda com estas ideias. A filosofia do conhecimento afirmou e estabeleceu a impossibilidade de se atingir o conhecimento absoluto da realidade.

O conhecimento é sempre relativo, uma vez que depende da perspectiva que utiliza cada observador. Existe quem pense que detém o conhecimento absoluto de tudo, tipo semi-deus, mas está fatalmente errado e prejudica-se mais a si que aos outros, não passando de um simples demiurgo de uma certa e ínfima realidade social. O tempo ensinará acerca do erro e tarde se dará conta que perdeu vida, que é feita para ser ganha. Diferentes perspectivas permitem observar distintos aspectos de uma realidade. Esta não depende das representações que faça o observador, uma vez que a realidade é verdadeira em si, dado que a razão e a lógica são instrumentos que não a podem alterar.  

Alguns arquitectos parecem tentar mostrar o contrário ao criar espaços afastados, que a maioria das pessoas entendem que devem ser áreas para viver ou residir, segundo a sua própria perspectiva. A partir deste ponto de vista relativista, cada ideia ou descrição da realidade é válida no contexto em que é formulada, o que não significa que todas as ideias tenham a mesma validade. Uma ideia ou a descrição de uma realidade é menos incompleta se é válida para um amplo espectro de contextos ou observadores.

Nunca conseguirá ser completa porque a verdade absoluta não pode ser obtida. Tal, não significa, que não possamos aproximar-nos o máximo possível dessa realidade objectiva que existe por si, de forma independente dos observadores. Esta formulação relativista, que distingue a realidade absoluta da relativa, tem vindo a ser defendida desde há muito tempo no domínio da estética e da ética. Impregnou igualmente, o conhecimento determinista da ciência, relativizando as ilusões cegas da ciência empírica e da tecnologia.

Esta reflexão permite postular, que em qualquer campo de conhecimento ou actividade, é necessária a convergência de perspectivas. Assim, entende-se que a preocupação do arquitecto e do urbanista, deva ser estabelecer um quadro, no qual as diversas interpretações e aspectos da realidade tenham um lugar, e sejam consideradas para resolver o projecto.

É de considerar, pois, que determinados conhecimentos das ciências naturais e sociais, podem apoiar e enriquecer este necessário quadro conceitual. Muitas e determinadas ideias intuitivas do arquitecto, podem ter uma base formal na ciência, porque os aspectos a resolver resultam ser um caso particular de fenómenos gerais que se dão em outros níveis. Quando um arquitecto procura, por exemplo, a melhor solução para optimizar a utilização de um espaço comunitário e evitar as interacções não desejáveis entre os diversos tipos de utilizadores, está a aplicar seguramente a sua intuição e o senso comum. Sem subvalorizar essa intuição prática, as decisões podem também ser aplicáveis em alguns fenómenos parecidos que se produzem no mundo físico e natural.

A observação pelos ecologistas, de algumas certas e determinadas regularidades, quando descobrem as relações de rivalidade entre espécies por um mesmo recurso, pelo alimento ou pelo espaço, por exemplo, podem conduzir o arquitecto, porque o fenómeno da concorrência apresenta uma base ecológica que se produz também nos sistemas sociais. O maior desenvolvimento do conhecimento dos sistemas naturais, derivados da teoria ecológica, é uma grande referência a ser utilizada, para explicar a natureza dos sistemas devido a um incipiente desenvolvimento da teoria de sistemas aplicada aos sistemas sociais e à ausência de um acordo generalizado nestas áreas do conhecimento.

As ciências do meio ambiente em geral, a ecologia, a física ou as matemáticas permitem, ao arquitecto, enriquecer este quadro conceitual referido. As tabelas que nos oferecem os sistemas, o caos determinista ou os conceitos de entropia e complexidade, são formalizações científicas que estão a ter e terão uma projecção ou utilidade na arquitectura do futuro, quer do ponto de vista técnico, quer do estético, não significando que se está a defender uma posição positivista e determinista, de fé cega na ciência que tem de tudo resolver, senão, que se propõe uma maior abertura conceitual, de forma a que o arquitecto observe o mundo com uma perspectiva diferente daquela que vem do interior da sua gruta profissional, como talvez quiçá, dissesse o professor Agostinho da Silva a este respeito. Todavia, deve realçar-se que a aplicação unívoca de conceitos deterministas dá lugar aos monstros da razão e pense-se quantos não existem sem razão.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 11.04.2012
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