JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

O Dia Mundial da Terra

“Many people call Earth the “water planet” because about 70 percent of Earth’s surface is covered by water. But, only a small portion is available for human use. Of the world’s total water supply, 97 percent is located in the oceans and is salt water. Only about three percent is freshwater. More than three-quarters of Earth’s freshwater is frozen in glaciers. Of the less than one percent of Earth’s total water supply that is available for human use, much of it lies beneath Earth’s surface.”

Glencoe Science: The Water Planet

Ralph M. Feather Jr.

O “Dia Mundial da Terra” é comemorado pela 42.ª vez, no próximo dia 22, e dedicado ao tema da “Água”. O mundo foi alterado profundamente, pela ciência, desde o início da Revolução Industrial. Podemos lamentar o acontecido, mas não temos qualquer possibilidade prática de invertermos o sentido dos ponteiros do relógio e regrarmos a 1800. Se tal capacidade houvesse, não seriam muitas as pessoas que desejariam voltar a esse passado, que desconhecem. Ainda que, não possamos retroceder no tempo, e tendo apenas o futuro pela frente, todos os componentes da sociedade global, enquanto membros da espécie humana, tem de pensar seriamente na forma como iremos caminhar daqui em diante.

Estamos perante graves problemas que não se restringem ao domínio económico-financeiro, mas que vão mais além, e que contendem com a explosão demográfica e aquecimento do planeta, que teremos de minimizar, na impossibilidade de encontrar uma fórmula mágica que os solucione. São demasiado preocupantes os avanços da ciência que ameaçam cada vez mais a sobrevivência da espécie humana. Anteriormente tal ameaça, provinha da possibilidade de uma guerra nuclear generalizada. A hipótese de deflagração de uma guerra com essas características diminuiu, senão mesmo foi eliminada, desde o colapso da União Soviética.

Todavia, grande parte das armas da “Guerra-fria” ainda se encontram activas. É importante que essas armas americanas, russas, ucranianas, dos restantes Estados da ex- União Soviética, inglesas, francesas, e de outros países, seja desmantelada e o seu material degradável desactivado. Não existem actualmente situações de eminente conflito seja ideológico, político, económico ou de outra natureza, que justifique a manutenção de um grande arsenal nuclear. Mesmo que conseguíssemos evitar a morte da espécie humana numa guerra nuclear ou o envenenamento por meio da poluição, continuarão a existir grandes perigos para a sobrevivência da espécie humana e das demais espécies animais e vegetais e do planeta.

A evolução da engenharia genética traz grande benefícios, mas também abre as portas a hipóteses aterradoras, basta supor o aparecimento de um vírus demasiado letal como o da “Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA)”, que se propague através da atmosfera como as correntes de ar frio, poderá aniquilar a maior parte da humanidade. A investigação no âmbito da engenharia genética, pese o facto de possíveis considerações desastrosas, não deve ser banida. Se o fosse, haveria sempre cientistas que a levariam a cabo, como sempre aconteceu no passado por ser rentável. Os cientistas tem o dever de informar a comunidade científica e a sociedade civil global, acerca das oportunidades e dos perigos que a ciência pode criar.

A espécie humana não pode voltar as costas à ciência, mas necessita urgentemente de ser ensinada a usá-la com sentido de responsabilidade. Existem muitas lições a retirar deste nosso microcosmos. O planeta não é apenas habitado por animais e plantas. As plantas são virtualmente idênticas aos animais na perspectiva da microbiologia. A vida começou, há 3,5 mil milhões de anos, enquanto que os animais surgiram há cerca de 700 milhões de anos. A evolução não envolveu maioritariamente animais, e no entanto quase todos os nossos estudos sobre a evolução versam sobre animais.

As cerca de 25 mil espécies de protistas são mudas e impotentes, mas inventaram quase tudo o que interessa aos evolucionistas. A evolução dos sexos, a fusão das células e a motilidade intracelular são fenómenos protistas. Os protistas constituem um quinto reino a par das plantas, dos animais, dos fungos e das bactérias. Os protistas consistem em células nucleadas (eucariotas) que vivem no exterior dos fungos, das plantas e dos animais. A simbiogénese está envolvida na especiação de todos os protistas e de muitos organismos eucarióticos.

O nosso mundo cultural divide-se em plantas, animais e germes, todos pressupondo a impotência continuada dos protistas. Estamos no segundo decénio, do primeiro centénio, do segundo milénio e ainda não foi concluída a tarefa que Lineu se propôs levar a cabo no século XVIII, e que consiste em descrever as espécies de vida existentes na Terra. Esta deficiência é particularmente evidente nos três reinos que abrangem microrganismos. Os microrganismos que vivem na areia elucidam-nos acerca das características de outros seres. Crescem, produzem resíduos gasosos e alteram o seu ambiente.

A predação também se verifica no seio das bactérias. A simbiogénese conduz a novas formas. Existe uma grande e generalizada sensibilidade às alterações ambientais. As bactérias e os protistas não são primitivos nem necessariamente unicelulares ou simples. As bactérias precisam levar a cabo qualquer processo biológico conhecido na biosfera, excepto falar. Sentimos que somos independentes dos microrganismos e que deviam ser erradicados, mas esta ideia faz parte da nossa arrogância enquanto seres humanos. O poeta americano, Ralph Waldo Emerson, resumiu a noção de que a maioria das pessoas ainda conserva do processo evolutivo, da seguinte forma: “Esforçando-se por ser homem, o verme escala todas as espirais da forma”.

Quase todos acreditamos que a nossa cultura ensina que a evolução atingiu claramente o seu fim, nomeadamente com a espécie humana. A procura de água doce aumentou entre 1940 e 1980 e duplicou de novo no ano 2000. Existem cada vez mais pessoas que precisam de mais água. Muitos países conheceram os efeitos de escassez e da seca. A luta pela água foi uma das principais fontes de conflitos no passado, e sê-lo-á no futuro. Os problemas levantados pela satisfação desta procura são agravados pela constante poluição, incluindo dificuldades decorrentes do escoamento e dos esgotos, florescências algáceas resultantes da poluição dos nitratos, a salinização e a toxicidade do alumínio.

Existe uma dependência perigosa da rega. A pressão exercida nas reservas alimentares por uma população em crescimento começou a verificar-se, vinda de muitos quadrantes, como as mudanças de zonas climáticas, alteração dos métodos de cultivo da terra, de criação de gado e de criação piscícola, menos água para rega e menos solo arável devido à desertificação ou à subida do nível do mar. As regiões semiáridas são particularmente vulneráveis a secas ou a inundações. As cidades são especialmente vulneráveis às alterações climáticas, porque possuem um clima artificial. Menos zonas verdes equivalem a menos chuva e a menos transpiração das plantas, a uma maior absorção das radiações e a temperaturas mais elevadas.

Os edifícios absorvem o calor e não conservam a humidade, portanto a evaporação é menor. Tudo rapidamente faz aumentar as doenças vectoriais, conduzindo ao que se designou de “ilhas urbanas de calor”, com temperaturas mais altas, menos vento e humidade, mais nebulosidade, nevoeiros e misturas de nevoeiro e de fumo. É óbvio que a saúde humana está em risco. A subida na temperatura e as alterações na precipitação, aumentam a capacidade de multiplicação e de propagação de vírus, bactérias e insectos. A proliferação de organismos que se adaptam rapidamente faz aumentar as doenças vectoriais.

Um aumento subsequente dos pesticidas poderia ser nocivo para a saúde, e a deterioração da qualidade da água beneficia patógenos com origem na água como a cólera. As cidades contribuirão para uma multiplicidade de factores, e serão afectadas por eles, que vão da instabilidade política e económica à competição mundial pelos recursos. As cidades são capazes de reagir a crises de curta duração, mas não se adaptam com facilidade a mudanças duradouras. A água doce pode ser trazida de longe, mas os custos desta operação poderão vir-se a tornar incomportáveis. A subida do nível do mar constitui um perigo mais directo. Uma pequena subida provocaria a ruptura dos sistemas de esgotos e de drenagem, a corrosão das estruturas, uma susceptibilidade acrescida às tempestades e a outros fenómenos naturais, a alteração do “habitat”, a elevação dos lençóis freáticos, a salinização da água e a poluição de reservas de água doce.

Não estamos a lidar com um factor, o clima, mas com uma vasta combinação de factores, como o aumento da população, degradação ambiental, poluição e perda da biodiversidade. A ciência como a vida, está cheia de surpresas, umas boas, outras más. O problema não é a mudança, mas o ritmo dessa mudança. A sociedade humana é frágil, tanto dentro como fora das cidades. Todas as civilizações anteriores soçobraram. Estamos sujeitos a condicionalismos biológicos como qualquer outra espécie animal. Mas ao contrário delas, podemos modelar conscientemente o nosso futuro. Se não conseguirmos fazê-lo, só poderemos atribuir as culpas a nós mesmos.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 20.04.2012
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