JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

O planeta frágil

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"Climatologists are all agreed that we'd be lucky to see the end of this century without the world being a totally different place, and being 8 or 9 degrees hotter on average."

James Lovelock

 

O famoso farmacologista alemão Hans Horst Meyer, afirmava que sempre que alguém se referia à cultura dava-lhe vontade de soltar a mola do gatilho da sua espingarda. Nunca explicou o que tanto o enraivecia na cultura em particular, mas é de desconfiar que a palavra prefigura uma certa hipocrisia. Setenta anos após o seu falecimento, muitos somos os que se exasperam quando cientistas e políticos usam o lugar comum que é o “nosso frágil planeta”.

Abrimos a televisão e começamos a ver e ouvir uma torrente de palavras, pronunciadas por um político de ar grave e sério, ou a ver um documentário sobre animais simpáticos e uma vegetação luxuriante, onde são usadas expressões pouco condicentes com a realidade. As palavras podem ser proferidas por uma personagem conotada de “verde”, mas só são verdes porque foram atacadas pelo míldio da falsidade. Se andarmos para trás na história, damo-nos conta que na época vitoriana, a palavra “frágil” era usada com um sentido idêntico, para descrever as mulheres e para justificar o domínio que sobre elas era exercido.

Eram apelidadas de frágeis, porque implicava uma debilidade e uma fraqueza que tornavam necessária a protecção masculina. As mulheres da época vitoriana não eram frágeis, eram fortes e tinham de o ser, para poderem sobreviver. O planeta, de igual forma, é muito forte, felizmente para todos os seres que nele habitam, incluindo a nossa espécie humana que tudo tem feito para o destruir. A sua existência tem cerca de quatro mil milhões de anos como planeta vivo, e sobreviveu no mínimo a trinta impactos de grande dimensão, cada um dos quais destruiu mais de metade da vida existente.

As emissões solares aumentaram 25 por cento e surgiram perturbações, como o facto de o oxigénio se ter transformado na espécie química dominante. O que a espécie humana faz actualmente no domínio da poluição e da destruição de ecossistemas naturais é, comparativamente, um mal, ainda que menor. Os que chamam ao planeta de frágil, ou que afirmam que um acto humano destruirá toda a vida do planeta, ou desconhecem o que é, ou utilizam o termo metaforicamente, como sinónimo de seres humanos.

Seja como for, usa-se o termo “frágil”, tal como os homens vitorianos quando se referiam às suas mulheres, atribuindo ao nosso planeta um estatuto de dependência, quase como se nos pertencesse. Falamos na “Terra” como se o planeta, na nossa mente, fosse uma esfera política multicolor, onde estivessem assinalados os territórios correspondentes às nações e povos. Seria diferente tudo, se fosse cuidado como afirma com outra conotação, a estrofe de António Gedeão de que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como “bola colorida nas mão de uma criança”.

O verdadeiro planeta, esse espantoso globo azul e branco visto do espaço, transformou-se num simples lugar comum visual, que não é inspirador, nem de um banal anúncio televisivo de sabonetes transmitido via satélite. Qualquer modelo de moda é melhor musa para nossa infelicidade. O ser humano, o único dotado de inteligência organizada e de infinita estupidez como afirmou Albert Einstein, tem de descobrir, que tem o dever e o direito de tomar o planeta a seu cargo, e de o governar de uma forma responsável dada a incapacidade de as crianças o poderem fazer.

Talvez tenha de ser assim, mas antes devemos questionar o que é o planeta “Terra”? Parece uma pergunta trivial dado que todos sabemos o que é a “Terra”, mas infelizmente parece não existir uma opinião consensual. Quase como se o nosso planeta, fosse uma herança em evolução e que nós seres humanos, como moscas na bossa de um camelo, aceitássemos sem nele reparar. Mesmo os cientistas, divergem acerca do que é a “Terra”. Os manuais mais avançados das ciências naturais, apresentam várias concepções científicas do nosso planeta.

São fundamentais três de todas as existentes, sendo desde logo a defendida por uma minoria, constituída pelos auto denominados geofisiologistas, que vêem a “Terra” como um sistema quase vivo ou, se preferirem, um ecossistema de dimensões planetárias, a que chamam de “Geia”. Admitem que esse sistema regula automaticamente características tão importantes como o clima e a composição da atmosfera, de modo a tornarem a vida sempre mais ou menos confortável.

Uma minoria mais expressiva, prefere o que o climatologista americano Stephen Schneider, designou de co-evolução. Consideram que a vida e o ambiente caminham a par e passo. Tal como os geofisiologistas, reconhecem que a composição do ar, os oceanos e as rochas são afectados pela presença de vida, mas rejeitam a ideia de que a “Terra” se auto-regule de modo a manter um ambiente cómodo.

A co-evolução nasceu das ideias do cientista russo Vladimir Vernadsky, que primeiro usou a noção de biosfera, (cujo livro com o mesmo nome escreveu em 1926) da mesma forma vaga como é ainda utilizada. Os co-evolucionistas reconhecem a necessidade da investigação científica interdisciplinar, e são a força que está por trás da mudança global, e dos programas internacionais da geosfera biosfera.

Terá de se esperar mais algum tempo para saber qual das teorias, a da co-evolução ou a de “Geia” está mais próxima da verdade. Existem alguns cientistas, sobretudo geógrafos, que vêem a “Terra” como um todo, mas a maioria dos cientistas, ainda que falem em “Geia” ou na co-evolução, continuam a agir como se o nosso planeta fosse uma bola de pedra branca e quente, parcialmente fundida, com uma crosta fria humedecida pelos oceanos. À superfície vêem uma espuma verde de vida, cujos seres se adaptaram pura e simplesmente às condições materiais do planeta.

Outras metáforas antigas como a “nave espacial Terra” estão relacionadas com esta concepção. Como se os seres vivos fossem tripulantes e passageiros de uma nave rochosa, que viajasse para sempre no interior de um círculo à volta do Sol. Como se os quatro mil milhões de anos durante os quais existe vida na “Terra” servissem apenas como sistema de apoio à nossa vida, quando nos dignamos entrar na nave. Vista desta maneira, a “Terra” poderia parecer frágil, como as estufas americanas enormes do Arizona, chamadas de “biosferas”. Os que a encaram dessa forma, não devem perceber como é que sobrevive há tanto tempo.

Esta é a noção convencional acerca do nosso planeta que continua a ser ensinada na maior parte das escolas e universidades. É quase certo que está errada e que foi uma consequência acidental da fragmentação da ciência; uma fragmentação que deu origem a um grupo crescente de especialidades científicas independentes. Os cientistas estão conscientes das limitações desta noção convencional e difusa da “Terra”, mas mesmo que sejam especialistas nalgum ramo das ciências da “Terra” ou da vida, continuam a agir como se fosse verdadeira.

O crescente número de reuniões internacionais, permite presentemente, que os cientistas assistam em dias consecutivos a conferências acerca das três ciências da “Terra” intimamente relacionadas. Num dia poderão assistir a uma reunião sobre a química do ozono estratósferico; noutro dia, a uma conferência sobre a geofísica do movimento dos fluidos nos oceanos; e no terceiro dia, a um debate sobre a geoquímica do desgaste das rochas por acção dos agentes atmosféricos. Todos são temas da ciência da “Terra”, mas pouco partilharão os intervenientes entre si.

O que é mais grave é que uma proporção considerável de cientistas de cada um dos debates não tem consciência das descobertas dos outros. É claro que nenhuma teoria científica pode, só por si, proporcionar um entendimento total do nosso planeta; todas são necessárias. Precisamos do modelo reducionista da “Terra”, para compreender certos pormenores ao nível molecular. Um exemplo fundamental, é a química da estratosfera.

Só através da química e da física atmosférica clássica foi possível o conhecimento que os clorofluorocarbonetos (CFC`s) representam para o ozono. Pela biogeoquímica, veio, o reconhecimento do papel dos microrganismos no solo e nos oceanos como fonte de metano e de óxido nitroso. Pela geofisiologia, veio o reconhecimento de que gases atmosféricos como o dióxido de carbono, o metano e o sulfito de dimetilo, podem intervir na regulação fisiológica do clima.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 09.03.2012
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