JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A cosmogonia chinesa

Além de permitirem interpretações mais profundas, esses achados arqueológicos possibilitam a resolução de alguns problemas persistentes em matéria linguística. Sem dúvida, o mais substancial acréscimo, são as catorze réguas de bambu, traduzidas para a língua inglesa com a epígrafe de “The Great One Gives Birth to the Waters” que aparecem como um elemento integral dentro de uma das versões textuais de Guodian. Além da consistência física perfeita das réguas com o restante do exemplar, contém uma discussão sobre a cosmologia taoísta, que não só usa o familiar vocabulário “Daodejing”, mas permite compreender outros capítulos do documento de uma forma que não tinha sido possível até então. O “Daodejing” é um conjunto de textos profundamente "filosóficos", não tendo sido estudado nessa perspectiva no Ocidente como merece.

Os textos foram ao longo do tempo traduzidos e interpretados inicialmente por missionários, e mais recentemente por sinólogos. Tal afirmação não serve para negar as boas intenções dos missionários, nem a de dissimular um qualquer substituto sofisticado de carácter filológico, histórico, literário e cultural ou ferir sensibilidades associadas à boa sinologia. Se existe acusação a ser feita é contra a filosofia praticada nos meios académicos ocidentais de ensino e pesquisa que em auto-consciência, continua a insistir na visão tacanha de que a filosofia é exclusivamente uma empresa europeia.

É inintendível a marginalização de outras tradições filosóficas, dado que a filosofia como disciplina tem responsabilidades académicas e culturais a serem cumpridas. A ocupação essencial dos filósofos é identificar e descrever as características genéricas da experiência humana, a fim de situar os problemas dentro do mais amplo contexto possível.

Essas características definidoras genéricas são diferenças importantes à medida que se muda de local cultural e de época histórica. Os filósofos têm a responsabilidade de procurar compreender os pressupostos do incomum que distinguem as culturas, como um meio preventivo contra o cultural reducionismo e o etnocentrismo que tais equívocos acarretam. Assim, a ausência de interpretação da filosofia chinesa, por parte dos filósofos ocidentais tem apresentado um elevado custo.

Tornou-se lugar comum, reconhecer que no processo de se tentar dar um sentido à clássica literatura filosófica chinesa por parte dos humanistas ocidentais, muitas suposições têm sido inadvertidamente insinuadas no sentido da compreensão de tais textos e apresentado um vocabulário colorido através do qual, esse entendimento tem sido articulado. O “velho mestre” na transliteração do seu nome, foi contemporâneo de outro grande filósofo chinês Confúcio que criou uma filosofia ético-social, retratando de forma única o povo chinês. Lao-Tsé que viveu, cerca de 50 anos em solidão, teve a oportunidade de perscrutar e ouvir a voz do “Infinito”, que é o espírito do “Universo”, exprimindo os seus conceitos mentais, por meio de ricas palavras verbais, demonstrando a sua enorme sabedoria cosmológica.

A filosofia chinesa tem familiarizado o Ocidente desde a primeira cristianização e mais recente, adentro de uma visão do mundo poética, mística e oculta. O sinólogo francês Marcel Granet observou que a sabedoria chinesa não tem necessidade da ideia de Deus e por analogia, neste mundo chinês em que nada foi criado, incluindo o “Universo”, o “Daodejing” também apareceu sem o benefício da causa eficiente. A sua natureza e função não é a de ensinar doutrinas filosóficas, mas contém palavras que se dividem em dois grupos que são os provérbios polémicos, que procuram corrigir algumas hipóteses usuais e os provérbios que recomendam um certo esforço de auto-conhecimento e prática.

O facto assinalável da semelhança existente entre as réguas de bambu e as versões manuscritas de seda do “Daodejing” terem sido encontradas em períodos e locais arqueológicos significativamente distintos, testemunha a enorme probabilidade de se tratar de textos canónicos ou senão de clássicos extremamente populares, pelo que nos leva a acreditar que as tradições da literatura de conhecimento que revelam a sabedoria dos mestres do pensamento chinês, desempenharam um papel importante no estabelecimento de um quadro comum de referência. Assim, enquanto poderíamos estar acostumados a pensar acerca de tais tradições da literatura de sabedoria, como sendo transmitida através da palavra escrita, além do uso difundido da rima, existem outros meios em vez de indicações claras de que a memorização e transmissão oral, provavelmente desempenharam um papel importante no estabelecimento de um marco para as correntes académicas da China ao longo dos tempos.

A acumulação de textos escritos, também parece ter tido um papel na construção de bibliotecas em academias de Estado que tentavam atrair os melhores e mais brilhantes estudiosos da sua época, trazendo prestígio aos seus patronos. O “Daodejing” pode ser razoavelmente descrito como uma espécie de literatura de sabedoria "proverbial". Não é de admirar que os textos possam inicialmente dar aos seus leitores ocidentais a aparência de serem fragmentados, desordenados e incoerentes. Tal impressão, é desfeita quando analisada a arquitectura dos mesmos, que emergem de diferentes orientações. Se reflectirmos acerca da sabedoria como as palavras foram seleccionadas, podemos supor que tal como o repertório das músicas, apresenta um tipo de veracidade inquestionável, por ser pertença do povo e das suas tradições.

Os textos apresentam duas omissões importantes, dado não conterem detalhes históricos de qualquer natureza, e não apresentarem doutrinas no sentido de preceitos gerais ou leis universais. Tudo parece indicar, que o objectivo dos compiladores do “Daodejing” é o de prescrever um regulamento de auto-realização, através do cultivo das imensas riquezas da mente no sentido de optimizar a experiência de cada praticante no mundo. Tais passagens textuais de sabedoria e conhecimento são um integral elemento neste processo que é autenticado na conduta e carácter dos praticantes e que tem como resultado a sua transformação pessoal.

É importante salientar que essa meta de auto-transformação nada tem a ver com a morte, juízo, e vida após a morte, nem com "Salvação da alma" que são preocupações tradicionais da escatologia ocidental. Em vez disso, tal crescimento e realização pessoal é uma melhoria no sentido da criação ou transformação em termos de qualidade de carácter da pessoa, que produzirá subsequentemente uma sociedade e um mundo melhor.

O propósito do “Daodejing e de trazer para o centro da nossa existência esses provérbios e manter uma posição produtiva, que permita o pleno gozo de realidades e acontecimentos específicos que constituem uma área de experiência. A ideia é de cada um dar o melhor de si; um “quantum” de experiência vivencial única, em articulação com os subjacentes pressupostos chineses da cosmologia natural.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 03.02.2012

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