JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

O ciclo do Natal

1202

Deus certamente não teria criado um ser como o homem para existir somente por um dia! Não, ... o homem foi feito para a imortalidade”.

Abraham Lincoln

O dia 25 de Dezembro que começou por ser um dia festivo pagão em comemoração ao nascimento anual do Deus Sol, e cuja palavra derivada do latim tem o significado de “nascer”, foi incorporada pela Igreja de Roma no terceiro século após o nascimento de Jesus, num momento de conversão dos pagãos ao cristianismo. No século IV, a Igreja de Roma oficializa-o, como a celebração do nascimento de Jesus, e ao longo dos séculos tem sido um motivo de lazer e alegria geral.

Apesar desta data ter sido institucionalizada, no presente parece existir um consenso generalizado, dentro das diversas visões da relação do homem com Deus e fortemente arreigadas no costume dos povos ocidentais, de aceitar a mesma como um símbolo do nascimento de Jesus. Tendo sido motivo de discórdia entre a Igreja de Roma e de Antioquia que o adoptou um século depois e as igrejas protestantes, a divergência e as tradições a ele ligados na maioria pagãs tem-se esbatido.

Todavia, num mundo que avança aos solavancos, empurrado por diversas crises começando pela dos valores e terminando na económico-financeira, parece que cada vez menos importa a data do nascimento de Jesus e a comemoração do homenageado, que foi há muito substituído por um outro “deus menor”, denominado de “consumo”, condenado também, pelo Papa Bento XVI a 13 de Dezembro de 2005, quando alertou que na sociedade actual de consumo, nesta época do ano, infelizmente o mundo está a sofrer uma poluição comercial, que ameaça alterar o real espírito do Natal. Sucessivamente tem vindo a reiterar tal condenação, tendo na homília de dia 25 na Basílica de São Pedro, afirmado: “Hoje, em vez de adorar o Menino Jesus, esperamos um rapaz de barba branca, que promete a felicidade dividida em 10 prestações sobre o cartão de crédito”.    

No rigor dos factos e dos documentos chegados até ao presente, não existe a menor certeza que o dia comemorativo do nascimento do Sol, seja o mesmo do nascimento de Jesus. A história não apresenta qualquer prova concludente. A Bíblia que constitui a única fonte certa de resolução deste enigma não menciona igualmente, data alguma. Para um cristão que acredita pela fé que Jesus é o filho de Deus, encontra-se num dédalo de ignorância quanto à data da celebração do seu nascimento, de quem pela grandiosa e única obra dos seus três últimos anos de vida, mudou por completo a história do mundo e a forma de pensar e reagir das pessoas que têm seguido em espírito e verdade, os seus ensinamentos e a sua vida, plasmasdos no “Novo Testamento”.

Se tal data fosse importante para a “salvação” do homem no caminhar da sua vida terrena para a eternidade junto de Deus, constaria das “Escrituras”. Os profetas falariam e os apóstolos que viveram com o filho unigénito de Deus descreveriam, como o fizeram de tantas outras situações, actos e regras essenciais ao homem neste seu perambular transitório pela Terra, que serve de aprendizagem e treino para a nossa vida após a morte, na eternidade com o homenageado.

O silêncio das “Escrituras” a respeito da data exacta desse nascimento, transmite a ideia que foi feito intencionalmente para cumprir um sábio propósito de evitar qualquer tipo de idolatria. Assim, de igual modo, Deus ao longo das “Escrituras” deixou situações ocultas, porque as mesmas não eram importantes ao homem para entrar no seu “Reino”. Entre muitas das situações desconhece-se como era o aspecto físico, e nomeadamente os pormenores da face de Jesus, que o mundo tem em pura imaginação e trabalho de especulação criado. Deus usa essa estratégia para fortalecer a fé, tal como o fez ao povo de Israel de nunca ter revelado onde foi sepultado Moisés, que foi ressuscitado e levado para a eternidade.

O ciclo e data que se comemora certa ou errada e que está institucionalizada como a do nascimento de Jesus, tem o mundo vindo a usar em benefício de um consumismo fatal, aumentando a ruína das nações e das famílias. O tempo de maior consumo anual dá-se exactamente neste período de doze dias conhecido por “ciclo do Natal”, ao qual têm aderido os pertencentes a outras religiões, filosofias existênciais, sem desmerecer os ateus que acreditam na sua verdade, que não está dissociada da colectividade onde se encontram inseridos e da sua vivência, talvez apenas, num plano puramente intelectual.

Se este ciclo e dia que se comemora não consta das “Escrituras”, qual a razão porque a Igreja de Roma o oficializou? Não seria para criar um tempo de festas com trocas de presentes e que actualmente serve para jovens e adultos vasculharem atentamente as ofertas postas à disposição pelas lojas físicas e electrónicas de comércio, para comprar e oferecer algo aos familiares e amigos, como sinal de uma recordação amigável. Sempre é motivo de alegria receber presentes das pessoas que nos amam e amamos por mais insignificantes que sejam, ainda que, a tendência seja a de oferecer um diferente, que pelas suas características se distinga dos demais oferecidos em outras épocas do ano, pautando-se pela originalidade e pelo montante generoso dispendido na sua aquisição.

Presentes constituem sempre independente do tempo festivo, uma demonstração de que os “outros” não nos esqueceram e aproveitam esta oportunidade para estreitar mais os laços de amizade e de família. Presentearmos uns aos outros são manifestações de apreço e amor, e sendo Deus amor, certamente não será contra a troca de obséquios, desde que não se caia no exagero de com tal consumo desenfreado, se fazer aumentar o mundo de desigualdades existente, onde uns atiram o que sobra aos cães e que constituiria o melhor dos manjares a outros que nada têm.

Oferecer presentes de forma equilibrada e dentro dos limites do bom-senso num mundo que vive um futuro de incerteza, não parece constituir motivo de maior censura, ainda que, não afaste a apreensão, desde que não esqueçamos do anfitrião Jesus, que deve estar em primeiro plano neste período e que na maioria dos casos, mesmo entre os que se dizem cristãos é relegado para o último lugar da plateia da suas vidas, quando não esquecido. O Natal é um tempo para honrar Jesus, o Deus feito homem, uno e trino que nos trouxe a “salvação”, que pertence ao livre-arbitrio do homem aceitar ou não de forma gratuíta, e que constitui o maior dos presentes que poderíamos receber.

O Natal não é um tempo para os cristãos ou os que à sua maneira (que não é a das “Escrituras”) acreditam em Jesus, se dedicarem às festas mais frívolas, ao consumo “sem rei nem roque”, à glutonaria e à ostentação. Nesta época de esbanjamento desatinado, desperdiçam-se milhões de euros, dólares e de todo o tipo de moedas nacionais em benefício de prazeres inúteis.

É tempo de reflexão, de família e essencialmente de revisitar os acontecimentos em que fomos actores dos principais papeis e autores dos não menos importantes guiões que constituiram a nossa história neste ano prestes a terminar.

É tempo de se retirar conclusões, de se remediar males, de corrigir rotas, de reconhecer erros e encontrar soluções para assuntos que por incapacidade, ou conformismo vamos deixando desarrumados e esquecidos no baú da nossa memória existencial.

É tempo de nos confrontarmos com a verdade objectiva, deixando a mentira e o engano, e não sermos o que imaginamos que deveriamos ser, mas aceitarmo-nos tal qual somos, como espécie e seres únicos no universo criados à imagem e semelhança de Deus.

É tempo de criar filtros e despoluir as emoções e a mente. Talvez muitos de nós estejamos megulhados em muitas situações adversas e a nossa mente sobrecarregada de pensamentos negativos, não encontra uma solução razoável.

Muitas pessoas confiam única e exclusivamente nas suas capacidades para ultrapassar os problemas da vida; outros confiam erradamente que o dinheiro que possuem não lhes permitirá passar por problemas; outros confiam unicamente e exclusivamente no poder do homem de tudo conseguir e tudo resolver, sem pensarem que tem levado à destruição do planeta em que habita e da sua própria espécie, pelo que não existe motivo de preocupação. Mas, além do terrenal existe um outro domínio, que não é possivel observar com a nossa visão humana. É o domínio da fé, que depende de alguém verdadeiro, que é o único caminho, verdade e vida e se chama Jesus.

Felicitamos Jesus pelo seu nascimento simbólico ou real nesta data, e a colectividade de Macau pela quadra festiva que vivemos.

 

Jorge Rodrigues Simão, 30.12.2011

 

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