JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A nova biologia

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“Imagine a world: where there is abundant, healthful food for everyone; where the environment is resilient and flourishing; where there is sustainable, clean energy; where good health is the norm. Each of these goals is a daunting challenge. Furthermore, none can be attained independently of the others.”

A New Biology for the 21st Century

National Academy of Sciences

 

A pesquisa biológica encontra-se no centro de uma mudança revolucionária devido à integração de poderosas tecnologias, conjuntamente com a introdução de novos conceitos e métodos derivados da inclusão das ciências físicas, computacionais, matemática, e engenharia. Nunca como antes, os avanços nas ciências biológicas trouxeram tamanha promessa de superar muitos dos grandes desafios enfrentados pelo mundo.

Historicamente, grandes avanços na ciência têm proporcionado soluções para os desafios económicos e sociais ao longo dos tempos. Ao mesmo tempo, tais desafios tem induzido a ciência a concentrar a sua atenção nas necessidades mais críticas da humanidade. Esforços científicos com base na satisfação das necessidades sociais têm lançado os alicerces para novos e incontáveis produtos, indústrias, e mesmo sectores inteiros da economia inimagináveis quando esse trabalho de pesquisa se iniciou.

As lições da história levaram em 2008, que o “Conselho de Ciências da Vida” dos Estados Unidos, criasse uma comissão designada por “Nova Biologia para o Século 21”, afiançando que o mesmo lidera a revolução da “nova biologia”, que tem por objectivo pôr em prática uma “iniciativa” baseada na mesma, e encarregue de encontrar as soluções para as principais carências da sociedade americana como sejam a produção sustentável de alimentos, a protecção ambiental, as energias renováveis, a melhoria na saúde e qualidade de vida.

Esses desafios representam o mecanismo de aceleramento no aparecimento de uma “nova biologia” e dos seus primeiros resultados. Perante o seu objectivo, a dita comissão teria de encontrar resposta para a questão essencial, de como é possível que um direito fundamental e o entendimento generalizado dos sistemas vivos possa diminuir a incerteza sobre a vida futura na Terra, melhorar a saúde e o bem-estar da população e conduzir uma gestão sensata do nosso planeta?

Foi denominada de “iniciativa nacional” tendo em vista aplicar o potencial da “nova biologia” para fazer face às mudanças sociais. A comissão veio a elaborar um relatório, em Agosto de 2009, denominado “A Nova Biologia para o século 21”. Nele, dá a entender que a essência da “nova biologia” é a integração e reintegração de muitas subdisciplinas da biologia e da incorporação na investigação de físicos, químicos, cientistas da computação, engenheiros e matemáticos, de forma a criar um grupo de pesquisa com a capacidade de abordar uma ampla gama de problemas científicos e sociais.

A comissão escolheu abordagens biológicas para resolver problemas nas áreas dos alimentos, ambiente, energia e saúde como as mais motivadoras metas para estimular o desenvolvimento da “nova biologia”. Todavia, não são esses os únicos problemas que se espera, que esta nova visão da biologia seja capaz de responder, mas igualmente às questões fundamentais postas em todas as áreas da biologia, desde o entendimento do funcionamento do cérebro até ao ciclo do carbono no oceano, sendo melhor tratadas com esta nova roupagem que cresce numa vigorosa realidade e que dada a sua fundamental unidade como ciência, se possa esperar dela grandes contributos para a evolução das ciências da vida.

Ao longo do relatório, tudo parece demonstrar a ideia de que esta nova visão da biologia é um instrumento adicional e complementar à tradicional e clássica investigação das ciências da vida, e não uma substituição nobremente revista, independente da iniciativa investigadora do cientista no qual igualmente se baseia e que continuará a seguir. Todavia, muitas áreas importantes e promissoras da pesquisa biológica não são consideradas no relatório.

Quer se queira ou não, é indubitável que a capacidade de investigação das ciências da vida é liderada pelos Estados Unidos, e ainda que o relatório seja omisso em muitos aspectos fecundos, é de realçar que a comissão que o elaborou, apoia firmemente os esforços de investigação que decorrem, quer no sector público, quer no privado. Adentro da biologia, trata-se de um excelente trabalho que deve continuar.

Não resulta dos trabalhos da comissão, nem das conclusões do relatório que tenha havido alguma intenção no sentido de uma completa revisão da investigação das ciências da vida, ao invés parece ter-se concentrado nas situações que não podem ser resolvidas, por qualquer das subdisciplinas ou disciplinas da biologia, mas que exigem a integração entre a biologia e outras ciências, incluindo a engenharia, e que são difíceis de capitalizar dentro das institucionais e tradicionais estruturas, passando também pela do financiamento.

Não se trata apenas de ciências que precisam de ser integradas. A nova visão da biologia deverá assentar na capacidade de pesquisa e desenvolvimento de universidades, instituições governamentais e da indústria. As agências federais americanas devem continuar a liderar importantes esforços independentes de pesquisa. A “nova biologia” só pode florescer, se as inter-agências e co-lideres dos projectos nos Estados Unidos tiverem um âmbito de actuação mais alargado que no presente. Esta iniciativa não se reduz a uma simples questão de financiamento como é usual nos Estados Unidos.

A capacidade e experiência conjunta de numerosas organizações são necessárias para fazer face aos maiores desafios da sociedade. É de realçar as palavras proferidas pelo presidente Barack Obama na “Reunião Anual da Academia Nacional de Ciências”, em 2009, nas quais se sobressaem aplicadas no presente contexto, de que “Sabem que a descoberta científica é mais demorada que a luz relâmpago de brilho ocasional, tão importante quanto possa ser. Normalmente, leva tempo, duro trabalho e paciência, exige treino e o apoio da nação. Mas detém uma promessa como nenhuma outra área do esforço humano”.

Muitas outras reflexões nesta nova visão da biologia devem ser consideradas pela referida comissão, e terem as principais questões biológicas preparadas para a compreensão dos maiores avanços das ciências da vida e poder responder ao resultado prático das mesmas. Essas respostas devem ter um efeito de alto impacto a curto prazo e as consequências ambientais, as resultantes de processos estocásticos ou alterações genéticas, devem ser entendidas em termos de propriedades relacionadas com a solidez e fragilidade inerentes a todos os sistemas biológicos.

As agências federais americanas terão de apresentar uma melhor e mais eficaz gestão, de forma a disciplinar os seus investimentos em pesquisa biológica e educação, para abordar problemas complexos através de escalas de análise do básico ao aplicado. Terá a comissão de saber em que áreas da “nova biologia” pode o investimento a longo prazo ser mais susceptível de conduzir a benefícios, igualmente a longo prazo e a uma substancial e forte vantagem competitiva para os Estados Unidos.

Todavia, podem existir áreas de alto risco em termos de financiamento que merecem um séria ponderação. Talvez seja necessário considerar novos mecanismos de financiamento para incentivar e apoiar a investigação transversal, interdisciplinar ou aplicada na biologia. Torna-se necessário quantificar os principais obstáculos para a realização de um “nova” e integrada biologia. Existe a indispensabilidade de um profundo estudo acerca das implicações de uma biologia recém integrada, face às carências de infra-estruturas que devem ser previstas e identificadas em termos de prioridades.

Terá de se ter em conta as implicações para a cultura de investigação nas ciências da vida de uma abordagem integrada da biologia e como podem físicos, químicos, matemáticos e engenheiros ser encorajados a ajudar a construir um comportamento e actividade mais biológico, com o alcance e conhecimentos técnicos para lidar com um vasto conjunto de problemas científico-sociais. É possível que sejam inevitáveis mudanças no ensino da biologia, para garantir que está equipada a trabalhar nas suas tradicionais fronteiras disciplinares, a oferecer cursos e carreiras que equipem os cientistas físicos e engenheiros a tirar vantagem dos avanços nas ciências biológicas, e a fornecer aos não-cientistas, um nível de compreensão biológica que os mantenha informados sobre as mais relevantes propostas políticas.

Existe ainda, a urgência de considerar a existência de graus alternativos ou a possibilidade das faculdades de biologia organizarem programas que atraiam e formem alunos capazes de trabalhar confortavelmente através das fronteiras disciplinares da biologia. Esta iniciativa só merece a total consideração se for partilhada e investigada no âmbito internacional, de forma a poder ser ajustada a todos os países a nível mundial independente do seu nível de desenvolvimento, pois estão em causa bens universais como a vida futura na Terra, a melhoria da saúde e do bem-estar do ser humano e as gestão prudente dos recursos naturais e dos ecossistemas que constituem a base de manutenção e conservação do ambiente, de vital importância para a preservação da vida no nosso planeta.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 02.12.2011
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