JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Arquitectura ao serviço da biologia

Nesses princípios formam-se e desenvolvem-se os valores que suportam o designado “projecto da modernidade”, que é um propósito de vida suportado nos mais elementares direitos do ser humano, imbuído pelos consequentes deveres de respeito para com os seus semelhantes e os da solidariedade que estabelecem a fixação do apelidado “Sistema Democrático”, como pretensão máxima e quase exclusiva de organização social. No decorrer do passado século, tais valores não ficaram suficientemente consolidados de forma a reagir às exigências e desafios do acelerado desenvolvimento tecnológico, mas ao contrário de forma frequente entram em conflito.

Assim, o comprova o continuado e desenfreado crescimento armamentista e a destruição sistemática da natureza, entre outros sintomas perversos. Os motivos que alimentam este incómodo cenário regressivo são complexos e diversos, tornando-se na vigília de filósofos, sociólogos e políticos e de novo como anti-corpos, nasceram numerosas organizações que temos de reconhecer como centros afastados de resistência a tal situação.

É fácil observar que os conteúdos humanistas e sociais são substituídos ou melhor invadidos pelos valores da economia, transformando esta actividade humana suplementar no ser fundamental que desfaz o impedimento, conforme as conveniências, justificando desse modo a alteração de valores. Um espectador atendo da realidade social, como diria Raymond Arron, dar-se-ia conta de que o desenvolvimento e o avanço das ciências, criaria a faculdade de atenuar o labor humano nos aspectos mais conflituosos e aviltantes que o processo produtivo encerra.

Ideia que sempre teria como suporte, uma descrição com maior poder de visão de um futuro feliz, prevendo a substituição da indústria por centros do conhecimento. Todavia, os compromissos fundamentais do modelo economicista não parecem acompanhar em termos de resultados esta possível visão optimista. No que se refere ao trabalho humano, as possibilidades de produção mecanizada ou computorizada tem produzido, não uma maior disponibilidade de tempo livre, mas o martírio do desemprego, e por fim, a marginalidade e o aumento da pobreza.

Os centros de conhecimento vivem na frustração de não terem encontrado o rumo para se consolidarem como a substituição da indústria, sendo certo que esta, como acolhimento da actividade humana, verdadeiramente desaparecem. Parece ser evidente que os enormes progressos nas capacidades de produção, não têm sido acompanhados por um desenvolvimento equivalente do projecto educativo que absorva tais possibilidades, criando uma cultura fragmentária, caracterizada como disléxica ou de difícil leitura.

Tal é o caso da construção. O quase desaparecimento da mão-de-obra qualificada (pedreiros, carpinteiros, etc.) tão conflituosa para os operadores do sector, não é acidental, mas consequência da progressiva desvalorização das denominadas artes e ofícios. É urgente um trabalho de incentivo do conhecimento que actue na procura do equilíbrio dessa cultura, e dessa forma é possível e lógico deduzir, que o domínio desse conhecimento é da competência da arquitectura, como actividade que liga de forma rígida desenho e construção.

A formação de profissionais idóneos para actuar num sistema em crise de mudança é de uma importância estratégica transcendental, sendo as universidades e equivalentes instituições de ensino, o centro de conhecimentos que detém a competência e responsabilidade dessa formação. Tais centros do conhecimento devem urgentemente criar além dos cursos e respectivos programas curriculares, equipes de docentes que executem um programa que desenvolva diversas actividades de investigação, formação e transferência, assente na análise crítica dirigida por conteúdos éticos, tratando entre outros de enfatizar um profundo respeito pelas condições do “habitat” humano, passando entre outras, pela adopção de medidas relativas à protecção ambiental.

Necessidade que é premente em todos os cursos ministrados nas universidades. Não se vislumbra bem como é possível, em muitas universidades e instituições de ensino equivalentes fazer-se investigação, quando muitos docentes não têm preparação pedagógica e científica, nem de simples “aggiornamento”. Faz tempo, que algumas universidades no mundo institucionalizaram projectos de desenvolvimento da arquitectura como utensílio biológico, destinado a trabalhar com o desenho e a investigação aplicada na arquitectura, desenvolvendo acções de investigação, ensino, informação e cooperação técnica com actividades fins.

Atribui relevância à concepção da arquitectura como um meio biológico, criado para facilitar a habitabilidade humana, considerando desse modo, que as características tecnológicas ou estéticas sempre estarão debaixo do controlo dessa prioridade, que é a “raison d'être” da arquitectura, e por conseguinte da profissão de arquitecto. Aspira a desenvolver uma adequada síntese entre as condições de uso, os recursos técnicos e a decorrente espacial e morfológica que culmina na criatividade arquitectónica.

A consideração atenta do lugar, a sua população, cultura e clima, exigem uma análise dos aspectos universais à luz do conceito de território ou região ou seja, interpretar o conceito territorial ou regional através do seu profundo conteúdo humanista e ético. A maioria dos países desenvolvidos e alguns em desenvolvimento têm grupos de especialistas do “habitat”, que tentam redescobrir as directrizes culturais e ambientais locais na sua actividade arquitectónica quotidiana, mas também, se deparam com uma cultura generalizada, que se expressa através de modelos expostos com critério de universalidade.

A sua enorme difusão, considerando-os como produtos da denominada vanguarda profissional, origina o paradigma aos arquitectos marcando directrizes apetecíveis para o desenvolvimento da sua actividade. Estes modelos são criados como resposta às condições próprias de países com largos recursos económicos, e são possíveis pela disponibilidade de um avançado desenvolvimento tecnológico, que ao mesmo tempo, implica orientações de consumo sustentável para a sua produção. As capacidades mais positivas e distintivas da profissão de arquitecto, são a criatividade e a vocação estética, que encontram uma rota aberta para responder à contínua procura de novidades da actual sociedade de consumo.

Mas, sucede com demasiada frequência, que a arquitectura criada segundo tais critérios de procura, entra em conflito com a sua “raison d'être” para a habitabilidade, e mais ainda, com a delegação social que implica a actividade do arquitecto como realizador responsável da habitação. Esta perda de valores da sua “raison d'être”, que transforma a produção arquitectónica num mero objecto de mercado, além de ser particularmente nefasto, onde a maioria da sociedade requer respostas de acordo com as suas carências básicas, predomina a ausência de condições dignas de habitabilidade que é característica por vezes dominante. A tudo isto se soma a inexistência em muitos países de um verdadeiro direito da arquitectura que urge criar.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau, 25.11.2011”
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