JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Arquitectura e a cidade

 side

“ …dos técnicos aos poetas, dos habitantes aos pintores, defensores ou detractores, a cidade aparece mais amoldada de ideias que de pedra e multidão”.

 

Michel-Jean Bertrand

 

O clima ideológico político e intelectual dominante no último decénio do século passado, foi marcado pelo que poderia caracterizar-se como a última contra-revolução triunfante. Em 1989, a queda do “Muro de Berlim”, encerra de forma dramática o que o historiador Eric Hobsbawn denominou como o “curto século XX”, que teve o seu início tardiamente em 1914, de forma ainda mais dramática, com o advento da I Guerra Mundial.

O decénio que nos trouxe até ao virar do nosso século, foi exacerbado ao máximo, no plano ideológico e concretamente no económico-social, pelas consequências do predomínio alcançado pelo capitalismo a nível mundial, com a quedas das falsas esperanças, criadas a partir de 1917, com a revolução de Outubro, de encontrarem caminho alternativo para a construção social de uma ordem alicerçada na livre associação de grupos e pessoas, suportados por interesses comuns democraticamente estabelecidos (no plano disciplinar a mobilizadora experiência do “Construtivismo”, impregnada com os ares revolucionários dos primeiros anos do socialismo, intentava e inventava uma arquitectura nova para os novos conteúdos sociais então no auge).

A hegemonia do pensamento, e sobretudo da propaganda, neoliberal, abriram uma profunda ruptura no poder constituído e nas necessidades reais da maioria da população (desde os sectores populares às classes médias urbanas) que sofrem as consequências de ajuste sobre ajuste, numa espiral de deterioração cujo fim não parece vislumbrar-se. As disciplinas do “habitat” não são alheias a estas crises, e, tal como ao conjunto social, debatem-se entre as urgências laborais, os condicionamentos impostos pela concentração de capitais e poderes decisórios e a dinâmica especulativa sobre o solo urbano e territorial, dominadas por leis de oferta dirigidas a uma procura solvente, que impõe as modalidades de consumo, de utilização do tempo e espaço, ou seja o desenvolvimento de um tipo de “habitats” à sua imagem e semelhança (como centros comerciais e condomínios fechados).

Ao mesmo tempo avança a exclusão e a degradação da vida citadina, e das suas áreas tradicionalmente mais populares e integradoras como o passeio e o espaço público nos locais centrais. Assim é que aparece em Macau, a inapagável Avenida Almeida Ribeiro, o Largo do Senado, as Ruínas de S.Paulo e tantos outros espaços públicos que nos convidam a caminhar, a escutar e a cheirar a cidade, e a arquitectura e paredes enchem-se de vozes, de cheiros, de histórias e de vida. Às elementares três dimensões, comprimento, largura e altura, ou às quatro adicionado o tempo, chegamos às infinitas dimensões de espaços e lugares com que podemos actualmente vibrar no indescritível que é a arquitectura, que deverá ser para todos com justiça e diversidade.

O conhecimento da nossa realidade, implica o reconhecimento de um determinado contexto e de concretas condições que prevalecem em certo momento histórico, e continuem de diversos modos a seguir o que foi produzido por uma comunidade de forma cultural e material. A produção de arquitectura não é de modo algum a excepção a essa regra, mas pelo contrário, as suas qualidades físicas concretas converteram-na numa das suas expressões mais acabadas, perceptíveis e vivenciadas quotidianamente.

As realizações urbanas/arquitectónicas, são expressão concreta da vida de uma comunidade, das relações que unem os seus membros e dos valores sociais, culturais e ambientais predominantes na sua materialização. O contexto e condições são alterações, sempre no movimento, que nunca é anárquico nem totalmente espontâneo, mas que é impulsionado pela actividade humana, que desenvolvendo-se permanentemente, vai criando as condições necessárias para que as mudanças aconteçam, em um sentindo ou em outro, segundo a correlação de forças sociais que actuam em cada momento, sobre o contexto e as condições preexistentes.  

Em termos gerais pode afirmar-se que, historicamente, existem forças que orientam a forma de accionar a reprodução e consolidação da ordem preexistente, e na luta com outras forças que tentam uma reformulação e transformação da dita ordem de coisas, procurando superar qualitativamente os modelos de desenvolvimento vigentes até então, que se considerem como tendo sido convertidos em um freio ao desenvolvimento, adequado de novas alternativas que, por sua vez, surjam como mais coerentes com o estado de desenvolvimento alcançado e como as necessidades a satisfazer, e que por outro lado são sempre crescentes e complexas.

A arquitectura e todas as disciplinas que intervêm na organização do espaço e situados como Macau, parte integrante da República Popular da China, por exemplo, no contexto dos países em desenvolvimento ou de economias emergentes, não significa um qualquer eufemismo, utilizado para poder designar a condição dada aos países periféricos, como muitos erradamente defendem, surgindo no seu caminho um quadro referencial, cuja situação é caracterizada fundamentalmente pelos condicionamentos da cultura universal, e quiçá pelas malformações de um processo de urbanização, dependente de um desenvolvimento desigual e combinado, que cria simultaneamente situações centrais, periféricas e marginais, que moldaram com a sua marca, a cidade, o bairro, a rua e a casa que habitamos.

Sem qualquer dúvida, a luta de ideias, compreendido o domínio da arquitectura, mantém-se com armas bastante fortes. Este factor obriga os arquitectos a uma contínua análise das situações sociais, que encontra a sua expressão na arquitectura do nosso tempo. Quanto mais claramente reconhecermos os processos sociais, tanto mais obrigados estamos a julgar a forma de todas as manifestações no campo arquitectónico, fundamentalmente à luz da actividade recíproca, que se interpõe entre a forma e o seu conteúdo social.

O arquitecto vende o produto do seu trabalho intelectual e depende, portanto, do seu cliente, mais do que possa depender o açougueiro da sua clientela. Na sua qualidade de trabalhador intelectual, o arquitecto está submetido ao domínio da classe governante, muito mais do que pode um peão ao semáforo. Antonio Gramsci afirmou, que conhecermo-nos é o mesmo que dizer quem somos (há quem não saiba quem é, porque diz aos outros quem não é, e por conseguinte não existe), quer dizer sermos donos de nós, distinguirmo-nos, sair do caos, ser parte de uma ordem adequada e da conveniente disciplina por um ideal.

E tal, não se pode obter senão conhecemos também os outros, a sua história, a sequência dos esforços que realizaram para ser o que são, para criar a civilização que formaram e que queremos substituir pela nossa. Hannes Meyer completa ao dizer que toda a paisagem organizada pelo homem, é o resultado da estrutura económico-social imperante. A grande permeabilidade característica do nosso meio, sobretudo em muitos níveis intelectuais que aderiram, ainda que de forma subjacente, a uma suposta universalidade absoluta da cultura, cujos centros de emanação estão sempre distantes, fez com relativa facilidade cair em simplificações, muitas vezes interessadas, que culminam na importância acrítica de modelos criados em países desenvolvidos.

Modelos que são resposta às próprias crises e necessidades de mercado desses países, que na sua dinâmica de consumo, fortemente refreada no presente, obrigam a periódicos ciclos de renovação do gosto. Ciclos cada vez mais curtos que incentivam o consumo da arquitectura e do espaço urbano como se tratasse de mais uma mercadoria. Neste consumo indiscriminado, o que prevalece como não podia ser de outra maneira, é o consumo da forma. Formas que mudam com as modas, se tornam transitórias, banais, dando a impressão de uma constante evolução e ocultam por detrás a imobilidade, quando não o vazio dos seus conteúdos.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 18.11.2011
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