JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Objectivo e subjectivo

Na expressão científica romântica do idealismo clássico alemão, a “Naturphilosophie”, era a introspecção do agente pensante que transformava os objectos do pensamento em verdades acerca da natureza. Ao longo do século XIX, a influência crescente da filosofia positivista, pôs em circulação mais significados familiares dos termos, em que subjectivo passou a significar aquilo que existia apenas na mente do sujeito, e depois o que se baseava em impressões e não em factos e era influenciado por sentimentos pessoais.

O objectivo passou a significar, aquilo que era retirado de um objecto exterior, e depois o que era factual, neutro, imparcial e fiável. A ciência hodierna herdou, quer o sentido idealista, quer o sentido positivista da objectividade. Os pensamentos e as afirmações sobre a natureza que se pressupõem neutrais e imparciais, são ao mesmo tempo considerados verdades universais da natureza. O materialista, ao contrário do idealista filosófico, assume a existência de uma realidade independente da mente.

Segundo o materialista, o modo como conhecemos o que é independente da mente, ou seja o que existe objectivamente, depende do modo como interagimos com o mundo. Algumas versões do materialismo adoptaram, por tradição, uma epistemologia um pouco ingénua, que, de facto, se aproxima muito da epistemologia idealista, ao defender que as nossas observações cuidadosas da natureza nos põe em contacto directo com as suas características, com as verdades acerca da natureza.

Este tipo de epistemologia, associado ao positivismo, tem sido muito vulgar na ciência dos dois últimos séculos, continuando a prevalecer no presente. Também durante o século XIX, os cientistas tentaram reduzir cada vez mais, a influência subjectiva do observador individual na actividade científica, introduzindo progressivamente mais instrumentos de registo para eliminar a subjectividade da percepção, foram aferidos instrumentos de medição para reduzir a variabilidade de análises feitas por diversos observadores e foram criadas tabelas de dados para garantir uma interpretação imparcial.

É claro que a concepção dos instrumentos de medida, dos meios de aferição e dos dados de interpretação estava, e está, imbuída de teoria, e nesse sentido não é neutra nem imparcial, mas esses estratagemas tiveram o mérito de dar uma aparência fiável aos métodos de que a ciência se socorria para produzir verdades sobre a forma de factos neutrais do ponto de vista do observador e supostamente objectivos.

A ciência não se limita a produzir factos, quer seja por observação directa da natureza ou através de experiências, Também interpreta e organiza os factos, à luz ou sob a forma de teorias. Os conceitos e teorias não são simples descrições do que existe, mas sim construídos em consequência das suas interacções com o mundo e das suas interpretações dos resultados daquelas. O modo como as pessoas interagem com o mundo depende das oportunidades sociais criadas, não só em termos de cultura, de ambientes institucionais, de equipamento e assistência técnica, mas em termos de estabelecimento de objectivos para programas de investigação.

Após um conceito ou uma teoria serem formulados, verificados em diferentes cenários e aceites, a dimensão que em geral é retrospectivamente ignorada, é o processo social que interveio na construção da teoria. As teorias tornam-se então objectivadas e são usadas como instrumentos potencialmente universais, independentemente dos processos sociais específicos, que contribuíram para a sua formação. As representações da realidade assim produzidas pela ciência, parecem ser transcendentes em termos sociais e culturais, objectivas e fiáveis.

As representações da realidade produzidas pela ciência moderna são, em regra, criadas por meio da experimentação, da intervenção e da manipulação de alguma montagem laboratorial, ou da análise de algum conjunto pré-seleccionado de variáveis em estudos de campo. Essas montagens ou conjuntos de variáveis não são fornecidas pela natureza, são seleccionadas, criadas e construídas por seres humanos, com determinados objectivos. Novos instrumentos e novos métodos experimentais permitem criar novas perspectivas da realidade, que têm, em primeiro lugar, de fazer sentido para serem válidas.

A observação de dados experimentais, implica uma grande dose de interpretação à luz dos conhecimentos existentes, e o processo de interpretação envolve em geral, uma adaptação a novos factos, que integram o conjunto de conhecimentos existentes, para que se mantenha a coerência do todo. Em segundo lugar, a atribuição de significado ao conhecimento científico produzido em laboratório não e feita apenas pelo cientista individual, nem pela comunidade científica, mas por grupos sociais mais numerosos e diferentes.

As linhas específicas da investigação científica são seguidas, não só porque os indivíduos que as seguem, as consideram significativas e interessantes do ponto de vista científico, mas também porque o são, não necessariamente da mesma forma, para as instituições de financiamento, para os técnicos, para as entidades responsáveis pelo planeamento e para os legisladores. Importa reconhecer que as intenções dos cientistas e daqueles que promovem a sua actividade não tem de ser as mesmas.

Por exemplo, é provável que o cientista que tentam identificar um marcador genético de uma determinada doença, desenvolva a sua actividade com o objectivo último de aliviar o sofrimento humano. Os cientistas tal como as outras pessoas têm sempre múltiplos objectivos, para além dos de subsistência, entusiasmo intelectual, vontade de impressionar os seus pares, publicação de artigos para assegurar financiamento, entre outros.

As sociedades que se dedicam aos seguros de saúde podem realçar a importância dessa mesma investigação e até financiá-la, porque a hipótese de detectar essa doença permitir-lhes-á aumentar os prémios dos portadores da sequência de genes em questão. ou mesmo recusar-se a segurar os portadores, se for mais lucrativo em termos económicos. Neste caso, os interesses do cientista e os da seguradora coincidem ao nível dos meios, que é a identificação de um sinal genético, mas os fins são bastante diferentes.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 04.11.2011
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