JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A ciência e pasta de dentes

 Cisne

FELIZ FIM-DE-SEMANA

BE HAPPY!!!

 

“Everything in the Universe follows strict scientific laws and conforms to delicate equilibria leaving no room for chance or haphazardness. That is the very essence of modern science.”

 

Why Islam? Proofs of Modern Science

Nabil Abdel-Salam Haroum

 

O “Canal de Suez” é uma das principais rotas marítimas do mundo, sendo um eixo de 163 km de extensão e 70 metros de largura que une o Ocidente e o Oriente. Num dos lados situa-se o continente asiático e do outro lado o continente africano, cujo inicio da construção se deu em 1859 e durou dez anos, tornando possível a ligação entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho.

Os nascidos deste lado do “Canal de Suez”, ou seja os asiáticos, estão mergulhados no seio de várias culturas imbuídas de vários matizes, entre elas, a de uma cultura que continua a exercer no comportamento uma influência e um poder maiores do que a ciência moderna exerce ou virá exercer. Se fosse devidamente compreendido, não nos parecia escandaloso ou vil. Todas as culturas impõem aos seus membros o respeito por certas entidades.

A ciência moderna não encontra um lugar no panteão do continente asiático. Longe disso. Neste lado do “Canal de Suez”, de facto, a ciência moderna parece assemelhar-se a uma marca importada de pasta de dentes. Contêm promessas sofisticadas e é muito doce e atraente. Pode ser usada, e é muitas das vezes de forma inútil, mas pode ser dispensada a qualquer momento, precisamente porque é bastante irrelevante para a vida.

A pasta de dentes foi inventada no Egipto, ponto central por onde passa o “Canal de Suez”, há cerca de 4000 anos, para satisfazer a limpeza dos dentes do Faraó Tutankamon, sendo a invenção moderna de 1873. A pasta de dentes transformou-se numa importante mercadoria universal, tendo-se tornado para alguns numa categoria mental. Há várias décadas, tal como a escova de dentes, é um acessório fundamental da civilização moderna, disponível desde Manágua a Manila e de Pequim ao Porto.

Aqueles que engraçaram com a modernidade, têm tendência a encontrar na falta da pasta de dentes uma fonte de profunda ansiedade Todavia, em algumas sociedades existem outros substitutos, como por exemplo na indiana, quando falta a pasta de dentes, podem recorrer aos “paus de neem”, ou às folhas de caju ou de manga, ou às misturas de gengibre, carvão e sal. Todos são excelentes materiais, disponíveis na Índia e outros países asiáticos e seguros para manter a boca fresca e desinfectada e os dentes limpos.

A ciência moderna é também uma mercadoria, reconhecível de Manágua a Manila e de Pequim ao Porto, igualmente aprovada por muitos, cuja devoção aos seus princípios e à sua propagação, está quase sempre associada à sua capacidade de criar uma remuneração mensal bastante elevada, muitas vezes aliado ao poder, ao prestígio e a um automóvel com motorista, que deverá causar uma frustração indigna dos poucos ocidentais que ainda nesta bela terra de Macau, cadinho de culturas e civilizações, tem esse privilégio e que no regresso ao doce lar, quiçá, retomem o antigo hábito do varão do autocarro ou do metro.

Tal como a escova de dentes matinal, a ciência é considerada como condição prévia, para que tenhamos uma concepção do mundo fresca e não contaminada por percepções incultas ou não emancipadas. Pela sua parte, oferece-se para afastar as muitas superstições castrantes, que provêem de todas aquelas fendas ocultas existentes na alma de uma sociedade, e para eliminar todas as bactérias intrusivas, de modo a produzir um mundo limpo e ordenado, quais prostitutas destruidoras dos tecidos familiares, introduzidas na sociedade sem interrogações até ao cair do pano, e que se passeiam como senhoras finas e honestas de ar angelical.

Saindo da ficção realista e voltando à ciência moderna, acima de tudo, promete um paraíso materialista àqueles que não têm privilégios no mundo, graças aos seus poderes mágicos e respeitáveis. Mas, compreensivelmente, continua a exigir um orçamento publicitário tão grande como a da pasta de dentes. Existe uma tal suavidade no produto de prestígio, que é a modernidade a exigir a necessidade de a tornar espectacular, graças a reproduções sensacionalistas e a uma imaginação fértil.

Uma concepção tão irreverente da ciência moderna não é confortável para aqueles que optaram por ficar amarrados às percepções dominantes da actualidade. Para os deste lado oriental do “Canal de Suez”, foi sempre o produto de uma outra cultura, uma entidade reconhecivelmente alheia, considerado um projecto da época, étnico ou seja ocidental e característico de uma determinada cultura, que não culturalmente enterrada como muitos pretendem, uma corrente de consciência politicamente dirigida e artificialmente induzida, invasora e distorcedora, que muitas vezes tenta apoderar-se da experiência e das percepções humanas mais amplas e estáveis.

Num mundo constituído por sociedades dominantes e dominadas, certas culturas estão condenadas a ser consideradas mais iguais que outras. Esta herança de desigualdade, inaugurada e cimentada pelo designado “colonialismo” que apresenta actualmente nova roupagem e representa em cenários diferentes, ainda por vezes se mantém inalterada, desde o passado e em larga escala.

Neste lado do “Canal de Suez”, os produtos culturais do Ocidente, incluindo a ciência, conseguem alcançar a primazia e a validade só pela sua relação congénita com o trono político do poder global, atenuado no mundo multipolar e em crise sistémica global e que no entendimento que partilhamos do Prémio Nobel da Economia de 2008, Paul Krugman, que recentemente afirmou ter a economia mundial, possibilidades superiores a 50 por cento de entrar em nova recessão.

Sabemos que o “colonialismo” independente da face que apresente submete, mina, corrompe, subordina e depois substitui muitas das vezes o que elimina pelo seu próprio modelo. É natural que um asiático espere da ciência ocidental, uma aliada do poder colonial, que funcione de um modo igualmente impudico e eficaz, estendendo a sua hegemonia através de uma classe de elite, a que os comentadores sociais designam por modernizadora, inovadora ou investidora, e cuja característica distintiva, consiste numa alienação constante da vida e da cultura de um povo.

E fiel às suas origens, é de esperar igualmente, que esta ciência que sempre se manteve ao serviço da cultura ocidental, tem sido uma componente crucial da hegemonia histericamente activa do Ocidente. No entanto, devido a forças internas extraordinárias e desconhecidas, as culturas às quais a ciência moderna procurou impor-se, conseguiram furtar-se à absorção total. A sua incapacidade de cumprir as promessas feitas e a sua incompetência generalizada para lidar com problemas específicos conduziram também ao seu declínio.

Actualmente, uma panorâmica global da sua verdadeira hegemonia seria bastante desconcertante para aqueles que a defendem. Em muitas regiões do mundo não ocidental, foi reduzida ao estatuto de mercadoria como a pasta de dentes ou de simples bugiganga sem grande valor. A sua promessa de transformar o mundo num paraíso materialista e, deste modo, pôr termo à pobreza e opressão perdeu toda a credibilidade. Há provas de que produziu exactamente o contrário.

Quanto à sua proposta de uma visão metafísica do mundo que nortearia os seus princípios éticos, também foi largamente rejeitada. Os “dharma”, enquanto caminho para a verdade, a troca de impressões, a comunidade, a interacção com entidades sagradas e com os símbolos que lhe estão associados continuam a ser os motores principais destas sociedades. Constatamos até deserções significativas do império da ciência nas cidadelas da cultura ocidental.

 

Jorge Rodrigues Simão, 21.10.2011, in “HojeMacau”
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