JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Engenharia e ambiente

cartoontree 

“Human development consists in an accelerating movement from situations of resource scarcity, to technological innovation, to resource increase, to increased consumption, to population growth, and back to resource scarcity.”

Principles of Environmental Sciences

Jan J. Boersema and Lucas Reijnders

 

Fazer uma experiência e depois desenvolver um modelo que permita previsões úteis, um cientista tem de tentar criar um ambiente que seja inteiramente controlado e medido. No entanto, até os construtores de grandes infra-estruturas como pontes, túneis, aeroportos e portos, com o seu mundo de contornos mais ou menos rígidos, definidos pelo betão e pelo aço, reconhecem as limitações do seu mester quando são confrontados com o imprevisível mundo real.

O que podem os engenheiros saber acerca do futuro? As infra-estruturas existem há muito tempo. Os engenheiros no mundo actual que vivemos, têm de conhecer o desconhecido e prever o imprevisível. Parece um paradoxo, mas num mundo de incerteza crescente quase têm de justificar os actos de Deus. É certo que as infra-estruturas existem há muito tempo, algumas antecedem mesmo as origens de alguns “habitats” de vida selvagem.

Mas embora o objectivo comum dos construtores e dos responsáveis pela manutenção seja conservar a estrutura, por exemplo de uma ponte ou de um “habitat”, prolongando-a ao máximo num futuro previsível, o construtor de uma ponte sabe sempre que, pode ser construída outra ponte para substituir a estrutura existente. Na maioria dos “habitats” de vida selvagem, essa reconstrução não é possível, e as tentativas que se fizerem para recriar ou recuperar certos “habitats”, têm ainda de demonstrar um considerável nível de sucesso.

Presentemente, não correspondem senão aos primeiros passos dos engenheiros do ambiente, que em muitos países não são considerados engenheiros, dada a ignorância não entender que a engenharia, o direito, a economia e outras ciências, com a rápida evolução da história se especializam obrigando à criação de carreiras específicas no que ao domínio da Administração Pública concerne. Muitos dos passos dos engenheiros do ambiente são dados em territórios vastos e não cartografados na sua maior parte.

O excesso de confiança numa fase tão precoce da exploração deste domínio relativamente novo, encaminhou grupos de espécies para becos sem saída, ao contrário do projecto de uma infra-estrutura, o luxo de dar duas dentadas numa cereja não é uma característica de extinção. Projectos em que o construtor se move em territórios não cartografados, deve reconhecer-se que o projectista, corre o risco de ter ignorado qualquer coisa, portanto, sempre que fizer uma extrapolação no domínio da tecnologia, tem de estar atento e cuidadoso, para se certificar de que vê o que aos demais não é possível ver.

Estes pensamentos cautelares devem provir de engenheiros que lidam quase sempre com factores concretos. Na sua maior parte, os projectos de infra-estruturas são totalmente previsíveis. O que mais preocupa o projectista é que o mundo real introduza nesse exercício ordenado, medido e rigorosamente definido um elemento perturbador imprevisto. Para um projectista, a maioria dos factos é sólida e é de esperar que só alguns elementos imprevisíveis interfiram no processo final.

Uma das hipóteses circunstanciais mais importantes, quando um engenheiro tira um projecto ou um modelo do laboratório e o introduz no mundo real, é que o projecto fique sujeito ao ambiente muito mais complexo do mundo real, o que pode causar algumas surpresas. Pode existir um factor comum que possa provocar o colapso de infra-estruturas, que não têm qualquer relação com a engenharia em si, e que podem ser o resultado de um conjunto de fenómenos atmosféricos inesperados que, até então, eram totalmente desconhecidos do engenheiro ou arquitecto ou ambos, e que só se revelaram quando o projecto foi sujeito à imprevisibilidade do mundo real.

Situações que amiúde vemos em qualquer parte do mundo oferecidas pela televisão. Importa compreender que a imprevisibilidade não significa qualquer concepção inatingível de um mundo que se situe para além da possibilidade de medida, e cujo comportamento futuro esteja apenas sujeito à “Mão de Deus”, para citar a célebre frase do futebolista Diego Maradona. Referimos de forma deliberada para estabelecer a separação entre o mundo exterior e as condições controladas de um ambiente de laboratório.

A ideia de que as experiências se realizam em condições controladas indica, logicamente, que tudo o que não se encontre nessas condições deve ser incontrolado, imprevisível ou, pelo menos, não medido. A fúria em relação à fusão a frio concentra-se, em parte, em acusações de que os físicos Martin Fleischmann e Stanley Pons, não conseguiram exercer um controlo suficientemente rigoroso das suas condições experimentais, e talvez certos produtos que observaram derivassem de processos externos, totalmente desconexos e desconhecidos.

Esta acusação pode ou não ser verdadeira, mas ilustra a aplicação muito rigorosa do conceito de condições controladas pela comunidade científica em geral. Também realça o problema comum, com que os cientistas se defrontam quando fazem uma experiência, nomeadamente a facilidade com que certos factores imprevisíveis se introduzem naquilo que se julga ser um ambiente controlado. Um dos maiores problemas para manter este conjunto de condições, consiste em assegurar que o mundo real não seja inadvertidamente autorizado a intrometer-se na experiência.

Todos os cientistas conhecem o problema, mesmo no universo fechado do laboratório, tais como entre outros, as leituras incorrectas provocadas por um eléctrodo sujo, uma falha de abastecimento de água desionizada, um fungo “Penicillium” numa lamela de ágar. Num projecto de engenharia, o projecto e a construção assentam largamente na utilização de materiais e de técnicas, que tenham sido submetidos a experiências e a testes exaustivos em condições laboratoriais.

Testes laboratoriais que mostram o comportamento dos metais quando submetidos a condições diferentes. A maioria dos progressos registados ao nível dos projectos são técnicas bastante comprovadas, algumas das quais remontam ao tempo dos “Romanos” ou mesmo antes. Um processo de construção é quase totalmente calculável e previsível e, de facto, representa apenas uma versão escalonada das condições laboratoriais controladas. Confrontado com este relativo substrato de certezas e com um arsenal de medições rigorosas, o ambientalista embarca num “Estudo de Impacto Ambiental (EIA)”, e depara com uma torrente de incerteza, em que a maioria dos elementos é incerta ou desconhecida e flutua constantemente.

Muitas vezes, os únicos factos concretos são os que se relacionam com o verdadeiro conteúdo da proposta; os pormenores da ponte, da fábrica, do túnel, da estrada, da pedreira, da turbina eólica ou seja lá do que for. Virtualmente, todos os outros factores que tem de ser medidos ou modelados, substituem qualquer coisa que existe fora do mundo previsível do ambiente controlado.

Poucos foram os elementos ambientais que revelaram os seus segredos à análise laboratorial definitiva. Contudo, a tarefa do ambientalista não consiste apenas em perceber como é que o ecossistema funciona a princípio, mas também em determinar o impacto de uma alteração potencialmente profunda nesse ambiente real e imprevisível. Por outras palavras, o consultor do EIA encontra-se no extremo oposto do espectro de certeza do projectista de infra-estruturas.

 

Jorge Rodrigues Simão, 07.10.2011
Share

Pesquisar

Traduzir

ar bg ca zh-chs zh-cht cs da nl en et fi fr de el ht he hi hu id it ja ko lv lt no pl pt ro ru sk sl es sv th

Azulejos de Coimbra

paineliii.jpg