JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A natureza da ciência

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“Naturam expellas furca, tamen usque recurret (Mesmo que expulsemos a natureza com uma forquilha, ela saberá regressar).

Horácio, Epístolas, I.x.24

A década de 1950 foi considerada como um período de optimismo considerável. Nos países mais desenvolvidos da Europa, actualmente Estados-membros da União Europeia, fizeram-se esforços para resolver os problemas nos bairros de latas, da insegurança, da falta de acesso ao campo para actividades de lazer e das injustiças criadas pelos privilégios existentes no domínio educativo.

Nos estabelecimentos de ensino secundário, as oportunidades de estudar “Ciências” foram acolhidas com entusiasmo. Abria-se um mundo totalmente novo na física, na química e na biologia. Havia uma noção do átomo, existiam novos conceitos do material genético, o ADN, e conseguia-se abordar as complexas propriedades dos elementos de uma forma sistemática que começava a fazer sentido.

Passados sessenta, quando a nossa apreciação dos fenómenos da natureza, dos “quarks” às estrelas e do gene à biosfera, é espantosa, muitos são os alunos que se afastam das disciplinas de ciências físicas ensinadas nos estabelecimentos de ensino secundário dos mesmos países, e de outros que lhes copiaram o exemplo.

Existe sempre a tendência instintiva de copiar o mau em detrimento do bom, dado que o excelente passou a ser um mero idealismo. Entre o mau e o bom conseguiu-se um entendimento tácito das sociedades de atingir a mediocridade. Só se tem valor sendo o mais medíocre possível. Tudo isto, reflecte-se no número cada vez menor de candidaturas aos cursos de Engenharia e de Física na maioria das universidades.

Quer os governos, quer as universidades consideram que esta tendência é indesejável, os primeiros porque sabem que não favorecem o desenvolvimento da indústria e a produção de riqueza, e as segundas porque sentem que corresponde a um desperdício de oportunidades de passar aos muitos interessantes progressos proporcionados pela actividade de investigação.

Os motivos são vários e um deles de extrema relevância, reside na falta de professores bem qualificados e cientificamente motivados, imputável ao facto de vários investigadores de física serem atraídos por empregos melhor remunerados na indústria ou no mercado financeiro. A tendência não tem paralelo na biologia e nas ciências do ambiente. As tentativas feitas para inverter esta tendência através do ensino da tecnologia nas escolas primárias de alguns desses países como o Reino Unido, revelaram impactos pouco significativos.

Eram medidas que tinham certamente por objectivo tratar os sintomas sem averiguar as causas, como muitas das vezes acontece até na clínica médica mais avançada e prestigiada. O que nunca se admitiu, é que a forte deslocação para a “Biologia” e para as “Ciências do Ambiente” pode ter razões mais profundas, que o montante de uma transferência bancária de pagamento de remuneração.

Procurá-las exige que se recorra ao raciocínio dos que alguma coisa pensam para além das trivialidades mundanas, com base naquilo que os estudantes dizem quando chegam à universidade, e que se avalia a situação actual do nosso planeta. Esta análise revela-nos que o que é rejeitado não é a ciência em si, mas a manipulação de que tem sido alvo. O modo como a ciência é aplicada, no domínio da tecnologia material e social, favorece uma organização da sociedade que beneficia uma minoria em detrimento da maioria. Apesar do cinismo ser cada vez maior, muitos jovens e alguns adultos reagem contra esta situação, apresentando argumentos de ordem moral.

Muitos jovens consideram que a ciência é a forma através da qual os recursos do planeta têm sido explorados, mais do que um meio de entendê-los e utilizá-los com bom senso. Acreditam que a subordinação da ciência, criou problemas ambientais cuja solução é cinicamente evitada por aqueles que os criaram. Consideram que muitos dos povos do mundo, são vítimas de uma grande injustiça e reagem contra essa situação, porque sentem que começam também a ser prejudicados.

Essa é a consciência de que o princípio da sustentabilidade não é uma mera utopia, mas para ser implementado e executado, enquadrando legislações desde a área económica, passando pela área educacional e terminando na área ambiental de forma séria. Verifica-se cada vez mais que o actual mundo tecnológico não consegue apoiar os valores que gostaria de defender.

Por isso votam com os pés, quando escolhem os cursos ou pior ainda, quando os cursos os escolhem, porque se chegou a esta paranóia “deseducativa” ou “desinstrutiva” (educação é diferente de instrução) e muitas vezes, voltam-se para o misticismo ou para a fantasia, para superarem o tremendo abismo que existe entre a realidade à sua volta, e o tipo de mundo em que gostariam de viver e que cada vez parece mais distante. Assim, existem duas questões a analisar. A primeira, é de como alargar a ciência num contexto mais amplo e a segunda, quais as formas mais adequadas de organizar a sociedade do futuro.

A ciência não é verdadeiramente o conjunto das áreas compartimentadas da física, química, biologia, geologia e o resto, que representam as exigências territoriais de determinados grupos de pessoas. Nenhuma dessas áreas, designadas no século XIX e no início do século XX, tem fronteiras que sejam relevantes para o nosso século. Nem existe qualquer linha divisória que as separe inevitavelmente de outras áreas, também com designações artificiais, como a psicologia, a sociologia, a história, a filosofia ou a ética.

No passado, existiam hierarquias de percepções de valor que ordenaram determinadas áreas. Na realidade, continuam a existir muitos preconceitos. O que aparentemente pode ser estabelecido com imparcialidade, é sobrevalorizado em relação ao que implica um forte envolvimento humano. Estas classificações, e o conceito de que a ciência é isenta de valor, têm impedido que haja um entendimento mais completo. Também tem favorecido a exploração da física e da biologia, na medida em que fortalecem as hierarquias que valorizam mais uma determinada disciplina pela sua capacidade de criar riqueza, o que revela igualmente, o nível de exploração do ambiente que foi atingido.

No entanto, o que existe é uma perspectiva científica diferente, que valoriza, na formação da opinião, uma rigorosa verificação cruzada de informação, sempre que é possível confirmar as previsões através de experiências ponderadas e afastar certas convicções, quando se provam que estavam erradas. Esta perspectiva é usada por todos os tipos de pessoas, que investigam fenómenos naturais e humanos e que podem ter a designação convencional de historiadores, antropólogos ou químicos.

Richard Feynman, classificado por alguns como um simples físico, que recebeu o prémio Nobel da Física em 1965, captou talvez melhor que ninguém a natureza do processo verdadeiramente científico, quando afirmou que a ciência é uma forma de ensinar como se conhece qualquer coisa, até que ponto as coisas se conhecem (porque nada é conhecido em termos absolutos), como se lida com a dúvida e com a incerteza, quais são as regras da evidência, como se pensa nas coisas para se fazerem juízos, como distinguir a verdade da fraude e da aparência.

Se considerarmos que a ciência é tudo o que pode ser examinado segundo essa perspectiva, então não nos afastaremos dela. Na realidade, dadas as interrogações que são levantadas pelos jovens, pode até haver uma aproximação. Os jovens, como sempre, desejam ardentemente descobrir a verdade das coisas e fazem-no numa gama de áreas disciplinares convencionais. Em última análise, como todos nós, pretendem compreender-se a si próprios, e à sua relação com o mundo que os rodeia.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 16.09.2011
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