JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Humanizar a medicina

Fala-se na necessidade de re-humanizar a medicina. Ressoa o velho ditado “medicus ipse farmacum” que põe ênfase sobre a relação de cuidar em contraposição com curar (caring not curing). A cultura médica tem recebido o contributo da psicologia clínica. Presentemente, o sector dos cuidados de saúde exige a aplicação da psicologia clínica, mas é permeado por uma mentalidade estranha ao seu entendimento e cuja estrutura profunda, afectivo-emocional e colectiva, é de todo oposto à receptividade indispensável para o desenvolvimento de uma cultura psicológica, a ser aplicável com sucesso nas instalações de saúde públicas actuais.

A quase inexistência da sua aplicação cria falsas expectativas nas instalações de saúde públicas, e muitas incompreensões, com repercussões sobre a organização dos serviços. Até mesmo o conceito do que se entende pelo adjectivo "clínica", assumiu significados diferentes em medicina, discrepantes do seu original sentido, mas que se manteve na psicologia.

Re-humanizar a medicina por regresso às antigas ideias, é uma tarefa ingénua e absurda. No passado bastava uma sensibilidade geral unida ao empenho no espaço e tempo para a aplicar, mas actualmente todo um conjunto de disciplinas, não apenas a psicologia, mas a sociologia, antropologia e pedagogia o têm estudado, investigado e experimentado, com o que no passado poderia simplesmente ser denominado por “relacionamento humano”.

Toda uma nova cultura está actualmente preparada para fazer face de forma científica à questão desesperante, que parece um ideal inatingível, que é a humanização da medicina. Essa nova cultura tem crescido com algum furor no seio da comunidade científica médica em alguns países desenvolvidos, não sendo mais sua pertença, nem havendo capacidade para a controlar.

A resistência tem-se transformado numa mistificação reducionista na aplicação desta nova cultura e nas normas que a devem impor. A Itália, país dos que mais tem estudado e explorado o novo conceito criando uma nova cultura médica, introduziu a disciplina por acto legislativo no remoto ano de 1986.

Todavia na extravagância das reformas do ensino superior da medicina, da falta de recursos financeiros e na evolutiva crise das instituições de saúde públicas, não tem sido possível fazer uma eficaz aplicação da lei, não apenas na Itália, mas em outros países, que lhe têm seguido o exemplo dentro da União Europeia.

A reforma do ensino da medicina por força do processo de Bolonha veio dar uma maior ênfase à questão deontológica, ficando por impor com carácter obrigatório no plano curricular a disciplina de humanização da medicina, a qual deve ensinar ao futuro clínico não apenas a ter em mente, que o objectivo a alcançar é de uma “melhor saúde”, mas também de “promover a saúde”, não devendo tal função ficar na área da saúde pública, mas a ser atingida por todos os clínicos.

Qualquer reforma na política de saúde, tem de passar pela implementação desta nova cultura médica e pela introdução deste conceito antigo renovado, que se tem mostrado eficaz em países que o começaram a aplicar nas instalações de saúde públicas, e que faz que as instalações de saúde privadas que o usam, alcancem o êxito que se conhece em termos de procura, apesar da grave crise económico-financeira com tendência a agravar que o mundo vive.

Esta nova cultura e conceito referido, onde se produza o completo desenvolvimento psicofísico do paciente, é o que consta da noção de “saúde” definida pela Organização Mundial de Saúde. Pelo que não existe uma “terza via” para a solução dos diversos problemas que vivem os sistemas de saúde a nível mundial. A alinhar com esta nova cultura médica, está a questão da gestão hospitalar. Uma boa ou má gestão hospitalar, são determinantes da qualidade dos cuidados de saúde prestados.

Não é possível solucionar harmoniosamente tão complexo e sensível problema sem a adesão e compreensão da sociedade, que não pode ser de constante crítica destrutiva aos serviços prestados nas instalações de saúde públicas, mas de incentivo e apreço pelo pessoal clínico, de enfermagem e auxiliar, que todos os dias tentam dar o seu melhor, muitas vezes em condições adversas.

Aos dirigentes públicos compete ensaiar as melhores técnicas de gestão possíveis, que conciliem recursos humanos detentores de conhecimentos técnicos com instalações e equipamento, tendo como desiderato a criação de uma nova mentalidade de curar e não tratar, com base numa relação humana única entre médicos, enfermeiros e pacientes, que faça que a cura não tenha apenas a componente física mas também a emocional.

Aos dirigentes públicos cabe ainda, o reconhecimento e a dignificação do pessoal médico, de enfermagem e auxiliar na base de estatutos remuneratórios, de carreira, de formação e de louvor adequados, como incentivo tão necessário, que sempre terá de ter a adesão da sociedade. Não existem sistemas de saúde ideais ou perfeitos que possam garantir a cura física de todos os pacientes, dado ser impossível eternizar a vida e cada situação clínica reveste características únicas, e do resultado de cada uma não se pode inferir da boa ou má qualidade da prestação dos cuidados de saúde.

Os serviços de prestação de saúde na instalação de saúde pública, Hospital Conde S. Januário têm sido de excelente qualidade nas diversas experiências vividas com situações críticas de saúde da minha mãe, que depois de duas cirurgias para excisão de dois cancros há seis anos e num espaço de catorze meses, lhe foi diagnosticado um tumor na espinal medula que a deixou quase tetraplégica, tendo sido intervencionada para excisão do dito tumor no dia 30 de Maio, encontrando-se internada, em fase de reabilitação com extraordinárias melhoras nas funções neuro-motoras, que permitiram sair da situação de paralisia quase tetraplégica.

A forma como o pessoal médico, de enfermagem e auxiliar dos serviços de neurocirurgia, em particular a equipa constituída pelos médicos cirurgiões, Dr. Guo Huan Huan e Dr. Chan Ka Ming, pela anestesista Dra. Yan Mei e pelo pessoal de enfermagem entre outros, de salientar o carinho, incentivo e disponibilidade da Senhora Enfermeira Amélia, merecem um particular louvor e as estas breves palavras de apreço, dado praticarem esta nova cultura médica de humanização da medicina.

Num período superior a três meses e numa vivência diária, as intervenções neurocirúrgicas realizadas têm sido de extremo sucesso pelo que constatamos. Macau pode orgulhar-se dos médicos, enfermeiros e auxiliares que nestas instalações de serviços de saúde laboram pela experiência vivida em diversas situações.

É de louvar as palavras de estímulo e o carinho demonstrado pela Senhora Secretária para a Administração e Justiça, Dra. Florinda Chan no passado Domingo. Os dirigentes públicos adentro da política de saúde, com base na humanização da medicina, na melhoria das instalações, na dignificação e formação do pessoal clínico e nos ensaios das melhores técnicas de gestão hospitalar, saberão certamente encontrar o modelo mais correcto e eficaz e que melhor sirva os interesses da sociedade.

É esse voto de confiança que todos devemos transmitir aos dirigentes públicos, colaborando com sugestões na base das diversas experiências vividas. As críticas destrutivas e mordazes nunca fizeram avançar coisa alguma, muito menos em áreas tão sensíveis como são as de política social, e nesta em particular, onde o paciente é o centro do “drama”.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 09.09.2011
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