JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Que tipo de pais somos?

Não têm pretensões de controlar o seu comportamento, mas através de um sereno diálogo, apelar sempre à razão e coerência, ensinando-lhes a descobrir as razões do seu comportamento, evitando o capricho e a irresponsabilidade. São conscientes de que os argumentos autoritários e impositivos só servem para provocar condutas desajustadas, e criar um abismo de incompreensão entre eles e os filhos, que levará, sem dúvida, à deterioração das suas relações.

Não cuidam de vencer, mas sim de convencer, deixando que se imponha a força da razão. Estão convencidos da dignidade pessoal de cada filho, do direito que têm de tomar gradualmente a direcção da sua vida com responsabilidade e autonomia. Por tal motivo, ajudam-nos a sentirem-se responsáveis pelos seus actos, sem permitir que sejam subtraídas as consequências naturais que deles emanam.

Um outro tipo de pais que se pode designar como autoritários, cuja atitude fundamental é de expressa imposição. O autoritarismo é um traço da personalidade diametralmente oposto ao da compreensão. A tendência autoritária tendo como suporte a rigidez e a inflexibilidade, é um derivado da imaturidade.

Os pais autoritários tendem compulsivamente a julgar, a simplificar ou impor os seus pontos de vista, com pouca ou nenhuma sensibilidade perante os sentimentos ou a situação pessoal dos filhos. Mais que a realização e sucesso dos filhos, procuram a afirmação da sua personalidade e o domínio despótico sobre eles. A atitude impositiva não atende a razões, proíbe terminantemente pensar e trabalhar por conta própria, criando medo e ansiedade à sua volta, e inferiorizando o menor até graus insuspeitados de timidez e agressividade reprimida.

O autoritarismo transmite-se de pais a filhos, como uma reacção em cadeia, pois a repressão a que submetem os filhos provoca frustrações e sentimentos de inferioridade, que posteriormente são descarregados, sob a forma de agressividade transferida contra pessoas ou situações, que pouco ou nada têm que ver com a causa da frustração.

Existe um outro tipo de pais que são os violentos, cuja atitude fundamental é de incontrolável agressividade destrutiva. Estes pais são o produto de profundas frustrações, provocadas pela insatisfação de necessidades e motivações fundamentais. São pais de mau carácter, porque na sua infância foram crianças difíceis. Talvez tenham vivido a sua infância e adolescência debaixo do signo do terror, submetidos à tirania de uns pais despóticos e autoritários.

As raízes autoritárias do seu comportamento, convertem a sua necessidade de auto-afirmação, em bruscos modos de intransigência e dureza que chegam à violência física. Infelizmente, as estatísticas que falam de maus-tratos a crianças e jovens adolescentes, permitem afirmar que a tipologia destes pais não é uma simples abstracção teórica, mas uma terrível realidade anti-educativa. Todavia, são muitos os pais que estão de acordo com o estereótipo de um adágio, que se apresenta como falso, que é de “quanto mais te bato mais gostas de mim”.

Existe uma outra fórmula em termos pedagógicos mais correctos, que é “Quem bem te quer, far-te-á feliz”. As personalidades de comportamento violento apresentam uma diversidade ampla, que vão desde o emprego da força física até aos abusos desprezíveis, passando pela agressão psíquica e omissões materiais propositadas como alimentos e roupa. As consequências negativas são evidentes, criando nos filhos muitos sentimentos contraditórios, como fortes comportamentos de rebeldia e hostilidade, e por sua vez sentimentos de culpabilidade por ter provocado a ira dos pais.

O medo que estes pais violentos infundem, faz que os filhos recusem a manifestar os seus sentimentos perante estranhos. Sentem-se culpados e magoados face à actuação dos seus pais, mas continuam a desejar o seu amor. O isolamento em que se encerram priva-os de ter amigos, apesar da necessidade que sentem de estar com eles.

Um outro tipo de pais que se pode designar por legalistas, cuja atitude fundamental é o culto da conduta legal, são uma modalidade dos autoritários. Para este tipo de pais, educar significa submeter os filhos a um conjunto de regras preestabelecidas, que devem cumprir, sem explicação dos motivos de forma submissa e reverencial.

Procuram a segurança na regra ou norma de conduta, e a irracionalidade da sua atitude, faz que obedeçam à norma como um tabu, de forma mágica, sem ter em conta o espírito da lei, provocando nos filhos atitudes decididamente conformistas, sinal evidente de uma mentalidade acrítica, defensiva e pouco adaptativas à alteração das circunstâncias. Enquanto a norma for algo imposto, carece de força no campo educativo, e só quando seja assumida pelo filho em liberdade atingirá o seu verdadeiro valor.

Os pais permissivos são um outro tipo, cuja atitude fundamental, é o desinteresse pela educação dos filhos (lassez-faire), caracterizando-se por ser serem demissionários das suas funções de educadores e claudicam nas suas responsabilidades como primeiros titulares do direito e dever de educar os seus filhos. Na prática não os corrigem, quando transgridem as normas mais elementares de educação e convivência; não reagem quando fazem algo errado, nem se alegram quando se comportam correctamente; permitem que os filhos façam o que lhes apetece, contanto que não sejam perturbados.

Em muitas situações manifestam uma evidente falta de carácter, que os leva a confundir a benevolência com a debilidade, e cedem aos caprichos e exigências mais extravagantes dos filhos. No fundo, recusam o papel de pais, e como justificação da sua atitude recorrem a “captatio benevolentiae”, tentando converter-se em colegas e camaradas dos seus filhos. Outras vezes, refugiam-se nos seus deveres profissionais, para escapar à responsabilidade de educadores.

Ao fim e ao cabo, pensam, que os educam na escola e para isso é que pagam, e quando a escola pede a sua colaboração, recusam o convite e endossam a responsabilidade para o outro cônjuge ou pai. No caso em que ambos os pais partilham esta altitude, os filhos ficam abandonados à mercê das suas motivações hedonistas, convertendo-se em pessoas desordenadas, inseguras, dispostas a seguir unicamente a lei do mínimo esforço, de fazerem o que lhes apetece, e deixar de fazer o que não lhes agrada.

Quando assolados por grandes preocupações no seu trabalho, confessam não ter tempo para estar com os filhos, tratam de compensar a sua negligência educativa por meio de presentes e dinheiro, satisfazendo as vaidades do filho. As consequências mais deletérias da educação permissiva, são a falta de uma consciência que oriente o comportamento, porque o filho não foi capaz de interiorizar nenhuma norma moral.

Os pais possessivos como último tipo, apresentam uma atitude fundamental, caracterizada pelo excesso de protecção dos filhos. Tentam evitar a todo custo aos filhos, angústias e dissabores que a vida impõe, preocupando-se ansiosamente que nada lhes falte, de que tenham e gozem do que nunca lhes proporcionaram.

Evitam que os seus filhos se esforcem ou enfrentem as dificuldades e problemas, facilitando-lhes a vida ao máximo. Tomam as iniciativas por eles, alimentando dessa forma, sem pretender, sentimentos de inferioridade, dependência e incompetência dos filhos. Consideram os filhos como coisa e possessão sua, exagerando nas suas necessidades, economizando-lhes qualquer esforço e dando tudo de bandeja.

Assim, o filho super protegido cresce, incapaz de decidir por si, e sente-se inepto, desde o ponto de vista da realização, pois seguirá esperançado que lhe façam tudo. Inseguro, não saberá como actuar, perante as situações novas que se apresentem, esperando inutilmente que alguém lhes tire as castanhas do lume. Existem tantos tipos de pais, quantos pais há. É preciso conhecer cada um na sua individualidade, se queremos ganhar a batalha da educação dos nossos filhos.

Jorge Rodrigues Simão, “HojeMacau”, 26.08.2011.
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