JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Educar é comunicar

 week14

 

“O homem só se faz homem pela comunicação humana”.

Paul Gerhard Natorp

 

O aspecto fundamental da intervenção educativa consiste numa relação interpessoal satisfatória, que assumirá matizes distintos, consoante se trate de conduzir o jovem estudante na experiência que deve ter de adquirir de si, do contacto humano ou dos valores. Terá de ser dessa forma, porque é impossível alterar a estrutura pessoal do estudante, a partir de fora da sua individualidade.

Só uma experiência vivida o poderá fazer. Podemos conduzir um cavalo até à água, mas não o podemos obrigar a que beba. A função de pais e professores, englobados na mais nobre missão de educadores não pode ser outra, que a de favorecer experiências, através das quais o sujeito em desenvolvimento, possa tomar contacto consigo e com o mundo dos valores, sabendo que o jovem estudante tem a tendência a recusar as experiências, que se apresentem como ameaçadoras para a estrutura do seu “ego”.

A assimilação de qualquer conteúdo que revista determinada importância, por implicar, uma reestruturação mais ou menos profunda da visão que têm da realidade ou de si mesmos, apresenta-se como uma ameaça. As condições para que a comunicação educativa seja eficaz, passam por uma relação educativa autêntica, que só é possível ser obtida numa clima em que o jovem estudante, sinta e experimente que pode ser ele mesmo, sem necessidade de camuflar a sua verdadeira personalidade, para obter e conservar a estima de pais, professores e colegas.

É fundamental por parte dos educadores uma atitude de aceitação e estima incondicional. A maioria dos pais e professores, condicionam a estima do estudante em função das classificações escolares. É precisamente por esse motivo que pomos condicionantes à estima dos nossos filhos e ou educandos, porque a relação interpessoal se deteriora, e a comunicação deixa de ser fluida.

É fruto de uma tendência natural que todos temos de aceitar apenas as experiências, que se encontram em concordância com os nossos esquemas mentais, e a recusar todas as outras que não somos capazes de integrar nos mesmos. Face a estas últimas, adquirimos muito facilmente uma conduta defensiva.

Neste sentido, as queixas dos jovens e dos adultos são convergentes, dado que os testemunhos dos primeiros, expressam-se com frequência, traduzidos no lamento de que gostariam de falar com os pais de muitas “outras situações”, mas estes parecem que não querem falar de outro tema que não seja os estudos.

Outro lamento frequente, é de que não entendem o pai ou a mãe ou ambos, porque no dia em que está de boa catadura, podem dizer tudo o que lhes apetece, mas quando está de má disposição, qualquer coisa que perguntam, obtém uma resposta brusca. Por sua vez, nós pais apresentamos o desabafo de que os nossos filhos mudaram, não são como antes; dão-nos respostas agressivas às perguntas que lhe fazemos, que nos deixam a tremer e retiram-nos o gosto de prosseguir a conversa.

Porque chegamos a estas situações? Fala-se muito de crise de valores. Todas as gerações têm os seus próprios valores. É certo que as gerações novas não aceitam facilmente o que lhes ensinamos. As nossas ideias têm pouco a ver com as suas; os nossos valores e modelos não coincidem em nada com os seus.

Esta atmosfera de desconhecimento mútuo não favorece de modo algum, a comunicação, ao contrário parece que falamos línguas diferentes. Talvez tenhamos de procurar a causa das coisas, que levam a este distanciamento geracional, baseado numa realidade, que é a de deixarmos de nos interessar pelas “coisas” dos jovens, pelos “seus problemas”.

Se queremos alterar o destino pedagógico desta situação, será bom que tenhamos a atitude de amar as “coisas” que os jovens amam, e assim amarão o que queremos para eles. Não devemos esquecer, que o jovem sobretudo no momento da adolescência, sente necessidade de aceitação. Quanto mais satisfeita, maior a probabilidade que aceite a sua realidade interior, uma vez que o ajudará a deixar as suas atitudes defensivas, e a abrir-se a novos valores, sentimentos e ideias (aqueles que o educador lhe proponha).

Será também receptivo, não de forma conformista, mas critica, capaz de tomar iniciativas e de aceitar o risco das suas acções, ideias e experiências, admitindo que os outros o façam de igual forma. A relação educativa converte-se em profunda comunicação de pessoas na base de um diálogo existencial, que consiste numa aceitação mútua e estima das pessoas e que se manifesta no ouvir o “outro”, na vontade de o descobrir, compreender e respeitá-lo

Infelizmente, nem sempre existe essa vontade. No âmbito familiar, existem pais que querem educar os seus filhos da forma como foram educados, adoptando uma atitude excessivamente autoritária, tendo por lema que em casa faz-se o que os pais disserem, e se não estão de acordo, devem sair. Outros preferem esquecer-se do rigor com que foram educados na sua infância e tornam-se paternalistas. Outros por fim, cedem sempre perante as exigências dos filhos e tornam-se permissivos.

No âmbito escolar a comunicação reveste a forma dialéctica entre ensinar e aprender. O trabalho mais difícil de uma aula não é acerca da metodologia de como ensinar, mas sim de que estratégias se devem munir os professores para que os alunos queiram aprender.

Nesta tensão interpessoal, adulto docente – jovem estudante discente, a atmosfera das aulas reflecte a comunicação que pode ser a preponderância do professor, a do aluno ou do equilíbrio. Em qualquer caso, a tendência a romper o equilíbrio entre liberdade e responsabilidade, constitui mais que um perigo, uma tentação constante do educador, que obviamente superaria, se chegasse a entender a sua tarefa como vontade de encontro com o “outro”.

Se aceitarmos a verdade como norma universal e objectiva, (difícil num mundo onde a mentira, as fugas e os transtornos de personalidade predominam) a nossa comunicação com o educando transformar-se-á em diálogo. Se fizermos das nossas opiniões a medida e o critério da comunicação humana, as nossas relações interpessoais converter-se-ão em fonte de indetermináveis discussões e conflitos.

Não compete ao homem elevar-se em “medida de todas as coisas”, mas sim, deve medir-se em conformidade com a verdade. Não é possível educar, tendo por pressuposto uma verdadeira relação humana, se não estivermos dispostos a nos deixar transformar por tais relações. Esta é a raiz mais profunda do diálogo.

O ser humano goza na sua individualidade de uma riqueza que é única e que pode comunicar aos outros. Na natureza não encontramos dois seres humanos iguais, nem na humanidade duas pessoas que pensem exactamente da mesma forma. A diversidade de opiniões e o pluralismo é fundamental para o diálogo. Não podemos querer ou esperar que todos pensem como nós.

Vivemos escravos do tempo, subjugados pela tirania do relógio. Tornamo-nos impacientes, e desejosos de terminar o mais rapidamente possível as nossas comunicações. Na era das comunicações deixámos de nos comunicar, e passamos a nos contactar. É mais fácil contactar pelo “Facebook” desconhecidos, que comunicar com as pessoas de casa. Existe uma nova família virtual nas redes sociais, que está a substituir a família real.

Na nossa comunicação real, não podemos dizer tudo, por isso os nossos diálogos tem de ser necessariamente incompletos. Ninguém é dono da verdade e tem a última palavra. Terminar um diálogo significa deixar aberta a porta, na esperança de que amanhã nos voltaremos a encontrar. É essencial expulsar a rapidez, que é um obstáculo à comunicação e um desassossego para o espírito.

Se dizemos que não temos tempo para falar com os nossos filhos, é a razão mais que suficiente, para os procurarmos. Se só falamos com os nossos alunos em tempo de aula, sempre nos verão como professores, mas se falarmos com eles no recreio ou na rua ver-nos-ão como um amigo.

As formas de comunicação diariamente se aperfeiçoam, mas nós seres humanos desaprendemos a arte de comunicar. A sociedade da comunicação está a dar lugar à sociedade do contacto superficial, passageiro, dependente e doentio em que tudo é efémero e a tornar-se num vício destruidor de lares, relações afectivas, do dever de educar e do gosto por aprender.

Jorge Rodrigues Simão, 19.08.2011
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