JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Ensinar a aprender

Num cenário como este, a comunidade presente no frasco de um estudante terá um comportamento diferente do de outra, mesmo que todos os frascos estivessem juntos, e um máximo possível de variáveis fosse controlado. Num ecossistema tão pequeno podem observar-se muitas relações. As mudanças de temperatura, de oxigénio e de pH podem ser acompanhadas mediante a inserção de dados num computador.

Há aqui um desafio educacional, que consiste em construir ecossistemas de pequena dimensão, os chamados frascos de “Geia”, que são um modelo do que acontece num mundo maior, o da natureza. Alguns desenvolveram ao longo dos últimos anos a ideia do frasco de “Geia”, e foram apresentar em vários festivais internacionais no domínio da educação científica, o que representa uma das melhores formas de demonstrar que os seres humanos, tal como os camarões, têm de viver com recursos limitados, e que, sem outros seres que reciclem os nossos resíduos, e que produzam os nossos alimentos, não podemos existir.

Na sua forma ideal, a educação científica, devia iniciar os estudantes numa tradição, que consistisse em pôr determinados conceitos à sua disposição, e ensiná-los a usá-los correctamente. Uma boa parte do ensino científico, processou-se em moldes muito antigos, ou seja, era dada ênfase ao conteúdo e à aquisição de um conjunto de informações correctas. Este tipo de ensino provinha de um currículo relativamente rígido.

Os padrões educativos mais recentes são mais consentâneos com uma ciência de melhor qualidade. O objectivo do ensino, numa época de mudança, consiste em ensinar a aprender, uma vez que a nossa mente precisa de ser flexível e adaptável. É preciso abandonar teorias que não explicam os factos de uma forma adequada e criar e procurar novas explicações e novos métodos.

Os professores têm uma responsabilidade enorme, visto que lhes compete ajudar os jovens a descobrir esses novos horizontes. Ao vermos como os jovens entendem o mundo, é fundamental que as suas experiências sejam enormes, quer ao nível sensorial, quer ao da observação. Nos estabelecimentos de ensino básico e secundário, o ensino científico consiste essencialmente, e correctamente, em tocar, sentir, ver, degustar e cheirar.

A vida das cidades destruiu a frescura da descoberta individual e criou uma alienação das plantas e dos animais que nos alimentam e nos vestem. Talvez o início de um bom ensino da ciência, esteja na descoberta daquele jovem caçador-recolector que existe em cada um de nós. A extraordinária colecção “Naturalists' Handbook” foi pioneira neste tipo de método, permitindo que os jovens, por si, fizessem descobertas reais e preciosas do mundo natural.

Assim que a imaginação dispara e a capacidade de raciocínio aumenta, quase todos os jovens dedicam-se à exploração e à descoberta do ambiente. Existem dois padrões de ensino. Um antigo que põe ênfase no conteúdo; é uma aquisição de um conjunto de informações correctas, de uma vez para sempre; encara o ensino como produto; é uma estrutura hierárquica e autoritária; premeia o conformismo e desencoraja a diferença de opiniões; é uma construção relativamente rígida e currículo fixo e dá prioridade ao desempenho.

O novo padrão põe ênfase na aprendizagem do modo de ensino, fazer boas perguntas, estar atento às coisas certas, aberto a novos conceitos e à sua avaliação, conseguir acesso à informação; o que agora é conhecido pode mudar; encara o ensino como processo; é igualitário; a sinceridade e a diferença de opiniões são permitidas; os estudantes e os professores encaram-se mutuamente como pessoas, independentemente dos cargos que ocupam; fomenta a autonomia; vê como estrutura relativamente flexível; a convicção de que existem várias formas de dar uma determinada disciplina; dá prioridade à imagem que cada um tem de si como criadora do desempenho.

Perante estes dois padrões e por comparação, podemos ver que tipo de ensino é ministrado nas diversas escolas independente do país. Existem problemas reais de espaço e tempo que, a princípio, as mentes jovens não conseguem vencer com facilidade. Vale a pena pensar-se bem no que se está a pedir aos jovens que enfrentem a natureza em toda a sua dimensão e escala. Ter uma perspectiva da evolução humana, que é difícil para a maioria das pessoas, é mais fácil através de processos figurativos no tempo do que no espaço.

O geneticista Steve Jones assinalou que, se conseguirmos visualizar uma longa fila de seres humanos que descendem uns dos outros, todos de mãos dadas, poderemos transformá-la numa imagem do tempo evolutivo. Se todos os indivíduos estiverem de mãos dadas formando uma fila ao longo do tempo, cada um com os filhos de um lado e os pais do outro, obtêm-se uma fila que começa connosco, no presente, e recua no tempo até chegar ao nosso antepassado semiesco.

O que pode intrigar para quem credita nesta possibilidade, é o facto de essa fila ter apenas algumas centenas de quilómetros de comprimento. Uma fila de indivíduos de mãos dadas entre Londres e Nova Iorque corresponde a cinco milhões de anos. É intrigante poder contemplar esta fila, que representa simultaneamente a transmissão do ADN e as diferenças culturais. A mutação recente e a inovação cultural assinalam o curso da história.

Para quem é seguidor de tal corrente de pensamento, pode dar-se conta que a recente origem animal do ser humano encontra-se ilustrada na analogia do relógio - dia. Se for inserida toda a escala temporal da Terra num único dia, a nossa fila temporal de antropóides só aparece no último minuto antes da meia-noite. Estas analogias ajudam os jovens. Numa aula de “Ciência”, tem de existir uma certa fluidez tanto nos papéis que cada um assume como nos modos de actuação.

Algumas actividades centram-se no professor, outras nos alunos, umas são necessariamente didácticas (narrativas), outras são mais heurísticas (envolvem perguntas), umas são mais teóricas, outras são mais práticas. O ensino da “Ciência” na sala de aula, deve ser um ensaio da própria vida. A “Ciência” nos estabelecimentos de ensino tem estado arregimentada às disciplinas clássicas de “Físico-Químicas” e “Geologia/Biologia”.

Elementos do que presentemente é considerado a ciência dos sistemas da Terra e que há muito fazem parte da “Geografia”. Muitas das barreiras formais estão agora a desaparecer, graças a cursos mais integrados e modulares. Temos de compreender que as divisões passadas entre as disciplinas clássicas de ciências pouco mais reflectem do que as anteriores especializações dos professores.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 12.08.2011
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