JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A economia humana e a natural

O carbonato de cálcio existente nas partes duras doa animais, constitui outra das vias através das quais o carbono é armazenado nas rochas. O CO2 dissolvido na água do mar, é extraído pelos seres vivos e substituído por uma solução de CO2 atmosférico. Mas, tal como sucede com o carbono fotossintetizado, esta transferência de carbono para as rochas, processa-se muito lentamente, em comparação com os fluxos mútuos entre a atmosfera, a hidrosfera e a biosfera.

Mais importante nos negócios de petróleo, é o facto de o fluxo total do carbono que fica acumulado nas rochas, ser muito mais lento do que o fluxo inverso devido à extracção de combustíveis fósseis. Esta parte do ciclo não é sustentável a longo prazo. O ciclo do carbono é o exemplo de uma economia natural, um dos sistemas de apoio à vida na Terra, em que os orçamentos estão sempre equilibrados. Comparada com ela, a economia humana do negócio dos combustíveis fósseis parece ingénua. O modelo económico é essencialmente linear.

Um modelo de pensamento consiste no carbono ser retirado de um reservatório e quase todo ejectado noutro, no pressuposto de que os dois reservatórios são grandes. De facto, dado o ritmo da extracção actual, as reservas de combustíveis fósseis durarão pouco tempo, mesmo na perspectiva da história humana, para não se referir ao tempo geológico de séculos, no caso do carvão, e décadas no caso do petróleo e do gás natural. O que é ainda mais importante, é que a capacidade infinita da atmosfera está a ser ultrapassada.

A miopia que caracteriza a economia convencional, regista subidas saudáveis dos produtos internos brutos e grandes lucros nas contas das empresas petrolíferas. O balanço da economia natural, mostra que este crescimento e lucros são ilusórios e foram atingidos, graças ao que se retirou às contas dos fornecimentos de matérias-primas e do tratamento de resíduos. A menos que os economistas se apercebam rapidamente das restrições totais, impostas pela economia natural, corremos o perigo de nos ser retirado o crédito, e de os negócios humanos serem forçados a reduzir a sua dimensão dentro de pouco tempo.

Os geólogos argumentam que os impactos provocados pela utilização de combustíveis fósseis, e outros recursos geológicos fogem ao seu controlo e, portanto, estão fora da sua alçada. Estes princípios, que permitem que os cientistas se demitam dos efeitos da sua actividade de investigação a jusante, são questionáveis. São os mesmos que afastariam os químicos dos efeitos secundários dos medicamentos e dos pesticidas, por si criados, e que desculparam os físicos das consequências das armas nucleares.

Mas o distanciamento em geral dos geólogos em geral, dos debates sobre o uso excessivo sobre os recursos assenta em alicerces ainda mais inseguros. Parte-se do princípio que os industriais, os economistas e os políticos estão em melhores condições de dosear os efeitos da utilização dos recursos. Na realidade, o carácter holístico da formação científica dos geólogos, prepara-os melhor do que a maioria dos profissionais, para ver os riscos que impendem sobre os sistemas de apoio à vida na Terra.

Como se explica a relutância dos geólogos, e dos cientistas em geral, em se envolverem nesses debates mais alargados? O impasse, explica-se evidentemente, pelo fosso devidamente identificado e muito discutido, que separa as ciências das humanidades. A ciência digna desse nome, é pura e objectiva e não deve ser conspurcada por preocupações de ordem social ou política.

Tem sido mais fácil manter esta atitude nas ciências da Terra do que, por exemplo, nas ciências médicas ou agrícolas. É preciso revê-la com urgência. A fraca sensibilidade da sociedade para a ciência geológica provoca grandes mal-entendidos. Os decisores da sociedade podem permitir que os recursos do subsolo se consumam insustentáveis, e que os resíduos se escoem para o ambiente subterrâneo, como se este fosse finito, homogéneo e inerte. A esta fraca sensibilidade, corresponde a dos geólogos no contexto social da sua actividade científica.

Podem ser especialistas na descoberta de petróleo e na gestão do ciclo do carbono, sem questionarem as normas socioeconómicas que as unem. Um estudo do “National Research Council” dos Estados Unidos, estabeleceu que os dois objectivos da ciência da Terra, consistiam em assegurar o fornecimento de recursos naturais suficientes e minimizar os efeitos da mudança global e ambiental, e velar pela adaptação a esses efeitos. Sem comentar a incompatibilidade mútua destes dois objectivos, o rumo futuro passa claramente por uma melhor comunicação entre os geólogos e a sociedade, na qual estes exercem a sua actividade.

As políticas específicas devem depender das circunstâncias nacionais de cada país, mas algumas estratégias gerais, devem incluir uma melhor formação geológica nos estabelecimentos de ensino, quer dos estudantes, quer dos professores, no âmbito de uma ciência holística da Terra, em particular, a necessidade de ensinar que o ambiente não acaba à superfície da Terra, mas que continua no subsolo; mais oportunidades interdisciplinares no ensino superior, permitindo a interacção entre os estudantes de ciências e os de humanidades; a passagem para um ensino mais holístico da ciência, nos domínios da geologia e de outras ciências da natureza a todos os níveis; uma maior disponibilidade dos cientistas para criticar e delinear programas de acção, não só em questões científicas mas em todas as áreas, como a economia moderna, cuja lógica é contrária à economia natural da Terra, e o reconhecimento pelos cientistas de que os progressos alcançados no seu domínio de actividade ficarão incompletos, e serão talvez mesmo perigosos, sem uma discussão pública mais ampla sobre a sua aplicação.

Uma maior comunicação entre os geólogos e a sociedade, pode acelerar o abandono da exploração dos recursos da Terra, conduzido pelas exigências da procura, que caracterizou o passado século. Compreender a economia natural da Terra, pode orientar o desenvolvimento de uma economia humana. A comparação dos ritmos geológicos da mudança global, com as alterações provocadas pela actividade humana, chama a atenção para a urgência da situação. A sociedade está afastar-se rapidamente da época em que os recursos naturais abundavam.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 29.07.2011
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