JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Ciclo incompleto do petróleo

 Bob-Marley

“The most colossal environmental perturbation in human history is in the air. It is in every breath you take, in every wind, every cloud, each hurricane, and all skies everywhere, day and night. Ever- increasing concentrations of the heat- trapping greenhouse gas carbon dioxide (CO2) are already disrupting the planetary energy balance, as is perhaps most visible in the melting of mountain glaciers and Arctic sea ice.”

 

CO2 rising: the world’s greatest environmental challenge

Tyler Volk

 

A interacção da geologia com a sociedade é um ciclo, uma das componentes das ciências dos sistemas da Terra que envolve o homem. Mas esse ciclo é mal compreendido. A sua existência é pouco conhecida. Depois, o que é mais grave, é que uma das características deste ciclo é amplamente ignorada pelos próprios geólogos, que o ciclo é aberto e não fechado. Além da água subterrânea, os recursos que estão a ser retirados da Terra como contributos para a sociedade, não são renováveis por processos naturais, ao mesmo ritmo a que são extraídos.

A sua exploração não é sustentável. Do memo modo, muito do que é produzido pela sociedade não pode ser reciclado e regressar ao sistema. Mantêm-se como concentrados tóxicos ou dispersões incompletas, tanto acima como abaixo da superfície do solo. Alguns destes poluentes podem mesmo deteriorar outros recursos renováveis, como a água subterrânea ou a atmosfera.

Os geólogos actuam, pois, dentro de um sistema linear para explorar recursos, quase sempre sem terem em consideração a incompatibilidade desse sistema com uma perspectiva mais holística da Terra, que gostam de ensinar. Generalizar sobre atitudes ambientais míopes no âmbito da ciência geológica, é ignorar muitas áreas de preocupação e de acção informada. Mas a profissão de geólogo está ensombrada por um exemplo manifesto de pensamento turvo que desacredita a imagem da geologia como ciência holística. Este exemplo é a exploração de combustíveis fósseis.

Mais de metade dos geólogos de países como o Reino Unido, Estados Unidos, Rússia, China e Brasil estão directamente empenhados em descobrir petróleo e gás natural. Outros trabalham para agências energéticas governamentais. Alguns geólogos ligados às universidades desenvolvem programas de investigação subsidiados por empresas petrolíferas. Se lhes acrescentarmos os que estão envolvidos na descoberta e produção de carvão e, talvez possamos concluir que 65 a 75 por cento dos geólogos dependem do negócio dos combustíveis fósseis.

A missão deste negócio consiste em fornecer combustível à sociedade num volume tão grande, e com uma margem de lucro tão compensadora para os seus accionistas, quanto o mercado económico permitir. Os geólogos envolvidos na exploração constituem o primeiro elo humano da cadeia da oferta e da utilização do petróleo. Recorrendo aos seus conhecimentos da história da Terra, conseguem identificar períodos em que se formaram sedimentos com um elevado teor de matéria orgânica, as rochas donde se extrai o petróleo e o gás natural. Conseguem identificar as zonas onde esses sedimentos podem ter estado acumulados e ter sido aquecidos e comprimidos nas quantidades devidas para que se verifique a maturação de hidrocarbonetos.

Através de técnicas geofísicas de sondagem, exploram a estrutura do subsolo na zona seleccionada para identificarem áreas específicas, em que as lamas petrolíferas que se deslocam para cima, possam ter ficado retidas num reservatório de rocha porosa. As explorações podem revestir-se de um maior rigor mediante a abertura de poços de ensaio e medição da espessura, da sequência e das características das unidades rochosas.

Se as suas previsões saírem certas, e alguns desses poços tiverem petróleo ou gás, os geólogos ligados à exploração entregam o caso aos geólogos envolvidos na produção, que delineiam uma estratégia para extrair o máximo volume de petróleo desse campo petrolífero. A exploração petrolífera actual está muito distante da imagem pública de sondagens ilegais e de golpes de sorte que ainda prevalece.

Abrir poços é uma actividade demasiado dispendiosa, particularmente no mar, para ser feita, sem um bom motivo. Mais do que isso, a exploração petrolífera figura entre os testes científicos mais sofisticados e mais caros do mundo. O geólogo de exploração funciona dentro de um modelo estabelecido para a formação de petróleo, baseado em investigação científica da melhor qualidade acerca dos processos relevantes da Terra, e numa grande base de dados construída por êxitos e fracassos passados em áreas exploradas.

A exploração petrolífera é a ciência geológica no seu melhor. Infelizmente, a exploração e a produção constituem apenas a extremidade a montante de um ciclo de utilização do petróleo, cuja lógica é contrária às conclusões da mais holística ciência dos sistemas da Terra. De facto, o ciclo do petróleo dificilmente merece esse nome. Trata-se, na melhor das hipóteses, de um ciclo aberto, no qual os recursos energéticos são introduzidos por um lado e os seus resíduos são libertados para o ambiente por outro lado, muitas vezes poluindo outros sistemas de apoio à vida.

É claro que a teoria termodinâmica dita que o binómio matéria-energia não é destruído. Passa de um baixo estado de entropia ordenado e concentrado, para um alto estado de entropia desorganizado, dissipado e menos disponível para ser utilizado na produção. A poluição e os resíduos são altos estados de entropia quase por definição.

Os efluentes provenientes da exploração do petróleo afectam todas as partes do ambiente. Junto da extremidade a montante do ciclo procura limitar-se a fuga de resíduos tóxicos. A sociedade tem conseguido responsabilizar as empresas petrolíferas para derramamentos de navios-tanque ou fugas de “pipelines”.

Mas esta actividade não se estende à poluição a jusante do uso do petróleo. As empresas petrolíferas não são responsabilizadas pelos custos ambientais dos gases de estufa, emitidos para a atmosfera quando o petróleo e o gás são queimados, nem pelos resíduos de pesticidas e fertilizantes, que se acumulam nas águas subterrâneas, quando estes subprodutos do petróleo são utilizados em excesso.

A ética actual permite que as empresas petrolíferas revelem nos seus balanços os rendimentos provenientes da extracção e da venda de um recurso natural, mas também lhes permite, que omitam os custos dos danos provocados nos sistemas naturais pela utilização desse recurso. Esta mesma ética constitui a defesa dos geólogos, que se limitam a descobrir o petróleo e o gás natural destinados a uma sociedade cada vez mais sedenta de recursos, que deve ser responsável pela utilização destes.

Mas esta ética é questionável. Ironicamente, algumas das questões podem ser colocadas pelos próprios geólogos. Aspirando a uma ciência holística, eles estão bem posicionados para detectar os perigos do ciclo incompleto do petróleo. Um dos perigos talvez o principal, do uso do petróleo está bem patente quando se completa apenas um dos muitos ciclos naturais alterado para esse uso; o ciclo do carbono.

Uma definição simplificada mostra como o carbono é armazenado em grandes reservatórios e transferido de uns para os outros por processos biológicos, químicos e físicos. Os maiores fluxos envolvem a transferência de dióxido de carbono (CO2) de e para a atmosfera. O dióxido de carbono é empurrado para baixo pelos organismos fotossintéticos e convertido na biomassa dos oceanos e continentes.

É de novo libertado pela respiração dos animais. A solução inorgânica e a libertação de CO2 da água do mar juntam-se aos fluxos. A quantidade de CO2 existente na atmosfera é crucial para controlar a quantidade de calor retida pelo efeito de estufa, deixando entrar as radiações solares, mas evitando que o calor saia.

Sem a intervenção humana os níveis de CO2 atmosférico variam lenta e regularmente em resposta às alterações que se verificam na órbita da Terra e do Sol. Mas desde a Revolução Industrial, que os níveis de CO2 têm subido exponencialmente, alimentados pelo carbono suplementar que se liberta quando o carvão, o gás natural e as florestas ardem.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 22.07.2011
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