JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Sociedade sustentável

Inexiste futuro para perspectivas que estejam submetidas aos preconceitos e aos benefícios de grupos de interesses particulares e ao serviço de negócios instalados à custa da humanidade em geral. Se quisermos reduzir a miséria humana actual e visitá-la no futuro, só nos resta pôr a nu as verdadeiras razões de ser desta situação, de uma forma tão ampla e honesta quanto possível.

Se ao invés de se proceder dada a crise financeira e económica que faz abalar o mundo, acompanhada de recessão profunda e de “deficits” públicos incontroláveis como sucede com alguns Estados-membros da União Europeia, que faz subir a taxa de desemprego para valores alarmantes, seria bom que as entidades fizessem inspecções aos processos dos trabalhadores e talvez se surpreendessem, que despedem ou não empregam pessoas possuidoras de habilitações académicas sérias e com ideias inovadoras e deixam permanecer muitos possuidores de falsos diplomas e sem qualquer ideia renovadora e apresentando uma rotina de trabalho perfeitamente ineficiente. A investigação em termos de ilegalidade administrativa e nas contas do Estado deve ser como a investigação científica isenta de sectarismo e imparcial como única solução.
Poderíamos aprender com exemplos que temos de sociedades mais sustentáveis em termos ecológicos, antes de desaparecerem completamente sob o peso da nossa ignorância. O segredo está no facto de elas não considerarem que os seres humanos estão separados dos sistemas naturais de que dependem. Pelo contrário, consideram-se uma parte desses sistemas. Além disso, não favorecem grupos de interesses particulares. Têm organizações, mas o poder não está muito concentrado em indivíduos. Foram criados mecanismos para regular a utilização dos recursos e para garantir a sua renovação. Podemos ter perdido a noção de que estamos ligados ao ambiente, mas a verdade é que somos tão dependentes dos índices de fotossíntese e dos minérios como os índios da Amazónia ou os Bosquímanos do Calaári.
A sociedade deve apresentar algumas características não mecanicistas e uma visão holística do mundo que terá de assumir. Uma organização holística que sempre se opõe à fragmentarista. Ela maximiza a capacidade dos indivíduos se abastecerem tendo em conta o benefício comum e não o pessoal, reconheceria a nossa integração na biosfera, em vez de assumir que a dominamos, e fomentaria uma análise introspectiva das nossas motivações.
 Seria uma sociedade, na qual, em última análise, os bens e serviços estariam sujeitos à capacidade de renovação das matérias-primas. As características económicas que não estão ligadas à capacidade de renovação dos recursos naturais, como a especulação cambial, obsolescência planificada, artigos descartáveis, por exemplo, teriam de desaparecer. Seria uma sociedade cuja valorização do indivíduo lhe permitiria organizar sistemas tributários que dessem importância ao trabalho, às técnicas e à produção de artigos de qualidade.
Talvez desencorajasse, mediante impostos agravados, aqueles produtos que apresentassem altos quocientes de energia e poucas matérias-primas em relação aos custos laborais. Os impostos aumentariam quanto maior fosse a escassez dos materiais, e quanto menor fosse a sua capacidade de renovação. Aos produtos que favorecessem o uso dos talentos humanos em detrimento dos recursos seria aplicada uma tributação insignificante. Seria um mundo muito mais interessante e compensador para todos.
É claro que um sistema deste tipo contaria com a forte oposição de grupos minoritários que actualmente detém as rédeas do poder no mundo tecnológico. Quanto mais desafiado for o sistema, mais enérgica será a dos tampões que o preservam. Far-se-ão e já se fazem tentativas para suprimir ideias deste género. Mas, no fim, essas tentativas falharão. Não poderão ser suprimidas ideias que, por natureza, defendem o bem-estar da maioria em detrimento do da minoria.
Os pormenores que precisam de ser burilados são muitos, e a ideia de uma sociedade sustentável será atacada através dos pormenores. Mas, se o princípio estiver correcto, os pormenores serão inevitavelmente arrastados. O que pode fazer-se para provocar esta mudança? Consiste em determinar a natureza dos mecanismos causadores dos desvios em fases alternativas. No exemplo dos lagos de água pouco profundas que são alternadamente dominados pelas plantas e pelo plâncton, há uma série de desvios possíveis entre a fase das plantas e a fase do plâncton.
Alguns são violentos e nadas subtis, como a remoção mecânica das plantas, a uma escala devastadora, com uma ceifeira mecânica ou com as hélices de um barco. Outros mais subtis provocam perdas de plantas superiores às que o seu ritmo de crescimento garante, como reduções do nível da água que favorecem um maior acesso de aves que se alimentam das plantas ou a introdução de novos consumidores, como aves exóticas ou mamíferos, que atingem rapidamente densidades populacionais elevadas.
Outras, ainda, envolvem a ausência temporária de pequenos animais, o zooplâncton que se alimentam do fitoplâncton e que se abrigam nos leitos vegetais, provocada pelo escoamento dos pesticidas e pelo aumento da salinidade decorrente da penetração de pequenas quantidades de água do mar. Mais subtil é o impacto que pode seguir-se a uma alteração do equilíbrio entre peixes piscívoros e os peixes zooplânctíforos, provocada pelos diversos efeitos da desoxigenação nos peixes piscívoros, em virtude da sua prolongada exposição ao gelo durante o Inverno.
A lição a retirar é de que os desvios podem ser vários e aparentemente insignificantes, mas as suas consequências são insuficientes para alterar por completo o sistema. Por outro lado, como os sistemas são complexos, a lista de possíveis mecanismos de desvio é infinita; o inesperado pode acontecer e os seus efeitos serem tão impressionantes como os de outro acontecimento para o qual já havia precedentes.
Somos mais eficientes a compreender a situação dos lagos de águas pouco profundas do que a prever os mecanismos que afectarão as nossas organizações humanas, primitivos em termos ecológicos no presente, mas sofisticados no futuro. É provável que o desvio nasça de uma pequena mudança, talvez destinada a produzir outro efeito, mas que desencadeei uma série de consequências fundamentais. Esta é talvez uma situação em que a ignorância é uma virtude, porque aquilo que não se pode prever facilmente não pode ser interceptado e anulado por aqueles cujos interesses beneficiariam com a sua supressão.
No entanto, o problema das sociedades humanas é a possibilidade de o inesperado ser muitas vezes acompanhado do caos. Seria preferível tomar decisões quanto à necessidade da mudança e implementá-las de uma forma sistemática e planificada. O primeiro passo tem de ser a aceitação de que o crescimento indefinido, quer da economia global, quer das economias nacionais, é um absurdo e o resultado está à vista. É aqui que a comunidade científica convencional pode exercer a sua influência, se conseguir recuperar a sua independência. Tem de mostrar-se mais lúcida quanto à sua própria compreensão dos fenómenos naturais e aceitar que a cadeia de respostas a sucessivos problemas tecnológicos cria um nó górdio que as forças do caos e da violência se encarregarão de desfazer.
Muitos cientistas apercebem-se da situação grave em que a biosfera gravita. Afinal, tem sido o seu trabalho que tem revelado e documentadas essas alterações. Uma publicação conjunta da “National Academy of Sciences” dos Estados Unidos e da “Royal Society” do Reino Unido admite tardiamente, essa situação, segundo o tom colectivo do documento. A ciência é um agente distinto cujos talentos podem ser chamados a resolver os problemas de uma forma convencional. Não é um documento convincente, visto que não explora as causas últimas dos problemas; contenta-se em analisar apenas as próximas, os sintomas.
 Se a ciência faz parte da solução e não do problema, ela não pode ficar à parte, tal como nós, homens do mundo tecnológico ocidental, nos consideramos à parte do resto da biosfera. As atitudes compartimentadas da ciência convencional abrangem um mar de informação; mas se esse conhecimento for usado de uma forma parcelar, ele tem somente o valor de vestes de rei. Talvez os jovens sejam as crianças do conto de Hans Cristian Andersen e tenham descoberto que o rei vai nu.
Talvez tenha chegado o momento de a ciência convencional retomar um papel independente e, em conjunto com outras áreas do conhecimento, criar o manto interdisciplinar e inteiriço que converte a mera informação em sabedoria. Só então os jovens deixarão de se afastar da ciência convencional, como actualmente sucede.

Jorge Rodrigues Simão, in “ HojeMacau”, 14.07.2011
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