JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Sociedade tecnológica e ambiente

Este sistema é eficaz no equilíbrio entre a equiparação das capacidades de exploração e a quantidade de recursos disponíveis. Em organismos controlados pela selecção natural, o movimento de indivíduos e de espécies é geralmente rápido e a cooperação com outros é promovida, desde que os resultados sejam positivos.

Estes sistemas biológicos possuem características que são secundárias para o indivíduo em causa, mas que são cruciais em termos colectivos, a tal ponto, que a exploração actual pode provocar a falta de recursos futuros e até a sua extinção. Não se fazem provisões para o futuro, reage-se apenas ao presente. A nossa sociedade tecnológica do ocidente, determinista em termos biológicos, beneficia os seus membros em detrimento do resto do mundo e favorece determinados indivíduos muito mais do que outros.

Atinge e mantém este desequilíbrio de poder de muitas formas, que tendem a protegê-la dos argumentos contrários e, consequentemente, de uma potencial mudança. Estas formas favorecem a aquisição de recursos, por determinados indivíduos. Entre elas contam-se, a ênfase na competição, a manutenção de inúmeras hierarquias de estatuto social, dos sistemas autoritários vigentes nos estabelecimentos de ensino às honrarias políticas, a manipulação dos currículos escolares, o enfraquecimento de instituições como universidades e os institutos de investigação cuja actividade poderia, como pode, pôr em causa o “status quo”, a organização de grupos de pressão e de interesses como partidos políticos, associações profissionais e religiosas organizadas, a centralização da tomada de decisões, a manipulação dos meios de comunicação social, através da propriedade comercial e intelectual e da propaganda política e publicitária.

Os mecanismos funcionam abertamente e são menos óbvios em pequena escala. Um estratagema vulgar consiste em corromper a fraseologia de sistemas alternativos, como no uso emergente do paradoxo do desenvolvimento sustentável. Outro é o plano oculto em expressões aparentemente sensatas como preparar os alunos para o mundo do trabalho, que, na realidade, significa assegurar que muitas e variadas cavilhas se encaixam nos orifícios previamente abertos, e que mais convêm às necessidades das bases de poder existentes.

O nosso sistema actual, permite que as divisões convencionais da ciência sejam convenientemente subordinadas à filosofia dominante. As características do sistema mecanicistas, é em termos de estrutura definido pela hierarquia com estatuto desigual e delegação de baixo para cima. Quanto ao programa são autoritários sendo a mudança desencorajada. Quanto ao objectivo, apresentam uma produção de riqueza para classes seleccionadas, supressão do potencial individual e recompensas extrínsecas através da orientação da produção. Quanto à comunicação é inibida e facciosa.

As características do sistema não mecanicista, são em termos de estrutura definido pela heterarquia com estatuto igual e delegação recíproca. Quanto aos programas são consensuais em que a mudança é iniciada e saudada. Quanto ao objectivo existe o estímulo ao desenvolvimento do potencial individual e recompensa intrínseca através da satisfação pessoal. Quanto à comunicação é aberta e generalizada.

Não é difícil reconhecer os traços mecanicistas da sociedade tecnológica ocidental, nem deduzir que eles criam uma visão fragmentada do mundo que está subjacente a estes sistemas. A ênfase está na separação e exploração. Consideramo-nos superiores, dominantes e donos dos recursos do mundo. Toda a actividade pode ser analisada e explicada de uma forma objectiva e racional, ou então é rejeitada.

Não nos detemos para analisar o nosso comportamento, para olharmos para dentro de nós. Conseguimos qualquer coisa, mais pela via da aquisição do que da compreensão. A ciência convencional consegue sustentar este sistema, porque as suas perspectivas reducionistas, se encaixam bem num sistema que exclui os seres humanos do apoio global, na medida em que os considera, meros utentes em vez de partes integrantes.

A ciência convencional está profundamente inserida neste sistema. A maior parte dos cientistas só consegue exercer a sua actividade de investigação, acatando as regras fundamentais deste sistema. Os recursos económicos destinados à investigação vêm essencialmente de organizações que são auto-conservadoras por natureza como a indústria, departamentos governamentais, e muitas organizações não-governamentais inextrincavelmente ligados ao nosso sistema de exploração.

Entretanto só uma quantia simbólica apoia verdadeiramente a investigação científica fundamental, a única que pode questionar e ameaçar o sistema existente. O “Livro Branco da Ciência” produzido pelo governo do Reino Unido, admite que a ciência se destina à criação de riqueza, e só num contexto menor se admite que a investigação contribui para melhorar a qualidade de vida.

Os institutos de investigação científica, inicialmente apoiados para levarem a cabo estudos fundamentais, vêem-se obrigados a procurar apoio junto de fontes com interesses sectoriais. Os responsáveis pelas comissões de investigação científica inglesas, que antes eram compostas por ilustres cientistas, são actualmente na sua maioria constituídas por industriais a tempo parcial.

As características como os mecanismos tampão da sociedade tecnológica ocidental enumerados, que tendem a defender os sistemas da mudança são bem conhecidas nos sistemas ecológicos. Estes fornecem analogias úteis. Por exemplo, em lagos de águas pouco profundas, extensos leitos de plantas aquáticas, podem ser ameaçadas pela luta pela luz, que lhe é movida por algas unicelulares (protistas) que as cobrem, à medida que aumentam os nutrientes provenientes da actividade humana, como o nitrogénio e os compostos de fósforo.

O plâncton consegue começar a crescer mais cedo e mais depressa, porque todas as células são fotossintéticas e a sua constituição não suporta estruturas que consumam energia mas não a retenham, como as raízes e os rizomas. Todavia, apesar de tudo isto, os leitos vegetais conseguem proliferar durante longos períodos, à medida que aumentam os nutrientes que deviam favorecer ostensivamente o plâncton.

Esta persistência deve-se ao facto de o sistema vegetal ter desenvolvido mecanismos tampão. A estrutura labiríntica dos leitos vegetais, cria um “habitat” físico destinado a populações enormes de uma vasta gama de pequenos animais, como as pulgas de água, que vêem à superfície para comer o plâncton.

É nos leitos vegetais que esses animais se refugiam, à luz do dia, de peixes predadores, que de outro modo dizimariam as suas populações. As plantas também podem segregar substâncias químicas que inibem o desenvolvimento do plâncton. Várias alternativas desses sistemas tampão, podem ter uma existência igualmente estável, sob o mesmo conjunto de condições externas impostas, mas as alternativas podem variar.

Depois de instalada, a nova alternativa é igualmente estável e pode ser mantida graças  aos seus próprios tampões. Deste modo, o sistema dominado pelas plantas pode ser convertido num sistema dominado pelo plâncton onde não existam plantas. O plâncton é conservado por um tampão que garante que os animais que o consomem são em pequeno número. Na água, não se podem refugiar da perseguição dos peixes, e plâncton algáceo, depois de formado, tem todas as vantagens referidas. O princípio que rege fases ou sistemas alternativos estáveis é importante quando estudamos as sociedades humanas.

Assim, por analogia, é possível conceber muitos sistemas humanos diferentes daquele que vigora na sociedade tecnológica ocidental, que consideramos normal e inevitável. O mundo está repleto de alternativas, embora todas se encontrem ameaçadas pelas nossas pressões, as quais constituem mais um exemplo do modo como actuam os tampões que preservam a nossa sociedade. Desacreditamos as alternativas, que consideramos tribais, primitivas, atrasadas e retrógradas, mas que possuem conjuntos de valores que podem proporcionar um futuro muito mais seguro do que o da nossa sociedade. Todas têm em comum o facto de não considerarem que os seres humanos são os donos da Terra, mas que estes fazem parte de um sistema maior, do qual dependem e devem cuidar.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 03.06.2011
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