JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Realidade da pirâmide

 WEN

 

“The history of life on earth has been a history of interaction between living things and their surroundings. To a large extent, the physical form and the habits of the earth’s vegetation and its animal life have been molded by the environment. Considering the whole span of earthly time, the opposite effect, in which life actually modifies its surroundings, has been relatively slight. Only within the moment of time represented by the present century has one species—man—acquired significant power to alter the nature of his world.”

   

Silent Spring

Rachel Carsen

 

A nossa vida é passada no convívio com incontável número de pessoas, numa parceria destinada a usar os nossos conhecimentos e experiência para melhorar a qualidade de vida da nossa família, comunidade em particular, país e do mundo em geral. Os parceiros representam as pessoas que se encontram na base de uma pirâmide que os sistemas políticos e económicos nacionais, regionais e internacionais criaram dos dois lados do equador.

Na base da pirâmide estão as pessoas de todas as cores, raças, credos e sexo, mas a grande maioria é constituída por cidadãos do mundo ao sul do equador. Após o nascimento, iniciamos uma viagem que devia conduzir-nos à felicidade e à realização e que deve ser o objectivo de todos os nossos esforços. Contudo, entre o nascimento e a morte, existem muitos obstáculos que nos separam dessa meta.

Muitos são naturais, mas a maioria é obra do homem. A felicidade e a realização a que aspiramos neste planeta deviam ser possíveis, e devia haver o suficiente para satisfazer as necessidades de todos. Acreditando que assim é, acordamos todas as manhãs, e trabalhamos nos recursos de que dispomos para atingir esses objectivos de felicidade e realização. No entanto, para muitos de nós, e em especial para aqueles que se encontram na base da pirâmide, não há recursos suficientes, nem sequer para satisfazer as nossas necessidades mais primárias.

A maior consciência que temos dos sistemas do nosso planeta, permite-nos apreciar o dilema que a bióloga Rachel Carsen referiu no seu livro “Silent Spring”, que instigou o pensamento das organizações activistas a nível global sobre o ambiente, antes do uso do conceito “verde”. O ar que respiramos, a água que bebemos e o solo que usamos e onde cresce todo o tipo de flora são recursos limitados. Podemos usá-los como os outros os usaram antes de nós, e como os que virão precisarão de usar. Foi Mahatma Ghandi que ofereceu ao mundo as tão famosas palavras sábias de que “o mundo tem o suficiente para as necessidades de todos, mas não para a ganância de todos”. Estas palavras têm mais significado, quanto mais nos apercebermos de que este planeta é um sistema fechado, e portanto o que existe na Terra é tudo o que temos.

Então como atingimos os nossos objectivos se precisamos de satisfazer não só as nossas necessidades, mas também a nossa ganância? Como seremos capazes de fazer essa viagem e atingir os nossos objectivos apesar dos nossos recursos limitados? Afinal, nalguns países e para a maioria das pessoas que se encontram na base da pirâmide, a viagem acaba no momento em que começa, e outros fazem-na algumas dezenas de vezes. Alguns julgam, que não somos os únicos a fazer essa viagem? Que talvez toda a natureza tenha um objectivo, e que não tem qualquer relação com a nossa felicidade e realização? Que talvez não nos caiba decidir quais as espécies que devem existir, e quais as que deve ser negado esse direito, só porque neste momento não nos são úteis?

Para compreendermos a nossa posição em relação a outras formas de vida, devíamos ir procurar conhecimentos e inspiração à ciência e à natureza. A mensagem que cada vez atinge mais gente, sugere que a nossa espécie necessita de ser menos arrogante e de explorar menos os outros seres no vasto espectro da natureza. Todas as outras espécies, têm o direito de existir e de tentar alcançar a sua felicidade e realização, e não têm qualquer obrigação para com o “homo sapiens”.

Actualmente a ciência e a tecnologia é que dominam e mudaram substancialmente, quase todos os aspectos das nossas vidas dos dois lados do equador. É particularmente verdade na base da pirâmide, onde a ciência moderna aplicada, é uma experiência nova e onde faltam os conhecimentos científicos e tecnológicos.

Na realidade, a base da pirâmide associa a ciência e tecnologia à magia e aos milagres do fulgurante mundo industrializado. E tem bons motivos para o fazer, pois a ciência comercializada, enriqueceu sociedades que fizeram descobertas científicas, e que conseguiram aplicá-las e criar utensílios novos e mais eficientes.

Este milagre parece não estar ao alcance da base da pirâmide, e pode até supor um acto de magia ou uma dádiva de Deus. Apesar dos impactos da ciência e da tecnologia o mundo que pertence à base da pirâmide, tem a dificuldade de compreender a sua origem. No entanto, as pessoas trabalham e buscam a felicidade e a realização. Mas será possível alcançarem o seu objectivo com tão poucos recursos?

E aqueles que detém a tecnologia estarão dispostos a partilhá-la, se esses conhecimentos lhes permitem estar em vantagem em relação aos da base da pirâmide? Como podem estar dispostos a isso se, com essa vantagem, podem explorar não só os seus recursos como os recursos intactos daqueles que se encontram na base da pirâmide?

O mundo da ciência está preocupado com o ambiente. Os recursos do planeta não são apenas limitados, como estão a ser destruídos. Muitos dos que estão na base da pirâmide não reconhecem limites ao crescimento e não lhes agrada que, ao procurarem a sua felicidade e realização, possam estar a afectar esses mesmos recursos e a pôr em risco a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas necessidade.

O topo da pirâmide deixa-se cegar por um apetite insaciável, apoiado pelo conhecimento científico, pelo desenvolvimento industrial, pelas necessidades de comprar, acumular e consumir em excesso. A revolução que se deu na disseminação da informação em todo o mundo, actua na ignorância e no medo daqueles que estão na base da pirâmide. Promove o estilo de vida dos que se encontram no cimo e vende-o, como se fosse o último grito da realização e da felicidade.

A degradação ambiental é provocada pela erosão dos solos, pela desflorestação, pela poluição e pela perda de diversidade biológica nos nossos sistemas da Terra. Por sua vez, estas situações são provocadas pelos planos de acção políticos e económicos, e por actividades ditadas pela ganância, pela corrupção, pela incompetência e por um desejo insaciável de satisfazer os seus caprichos, e as ambições daqueles que detém o poder político e económico.

São exacerbadas pela pressão demográfica, pelas dívidas internacionais e pelas taxas de juro, pelos baixos preços dos produtos exportados, pelo proteccionismo e pela inevitável pobreza. Muitos governos e instituições de apoio e ajuda humanitária investem fortemente nos sintomas de degradação ambiental enquanto limpam o mundo.

Fazem menos esforço e revelam menos entusiasmo, quando lidam com as causas do lixo, que tantos desejam varrer, o que não significa que as pessoas não apreciem a ajuda e a caridade. Mas a maioria daqueles que estão na base da pirâmide constitui simultaneamente as causas e sintomas da degradação ambiental. São apanhados num círculo vicioso de pobreza e de subdesenvolvimento.

O “Green Belt Movement”, cuja fundadora é ambientalista, Wangari Maathai, que recebeu o Prémio Nobel da Paz de 2004, esforça-se por ajudá-los a quebrar esse círculo e a libertar-se dos vínculos que lhes bloqueiam o caminho e os separam da sua meta de felicidade e de realização. Ajudá-los a erguer-se pode constituir um desafio muito nobre e gratificante, mas também muito exigente, porque a base da pirâmide é muito pesada, em especial ao sul do equador.

Muitos dos que se encontram na base convencem os filhos, que a educação é a solução para conseguirem um bom emprego, terem um bom salário e uma vida de boa qualidade. Acreditam que a educação os fará sair da base da pirâmide e lhes proporcionará conforto, sem esforço. Parece bastante fácil, porque passar nos exames e transitar para o ano lectivo seguinte não é problemático. Enquanto andam na escola, consolam-se com o êxito prometido, que lhes garantirá um lugar no cimo da pirâmide. Se dependesse de boas notas e diplomas, alguns de nós não teriam razão para se preocupar.

Entre a realidade e os sonhos de infância e adolescência há muitos obstáculos criados pelo homem, com os quais as pessoas que estão na base lutam toda a vida, tentando ultrapassá-los e atingir um nível de desenvolvimento significativo, melhorar a qualidade de vida e realizar-se plenamente. Esses obstáculos impedem-nas de utilizar uma grande parte dos conhecimentos, das técnicas e da experiência que adquiriram nos estudos e ao longo da vida.

Teoricamente, esses conhecimentos e essa experiência tornariam a viagem mais segura e fácil, mas há uma grande diferença entre os sonhos de infância e adolescência e a realidade da pirâmide. Quando estamos na base, mais tarde ou mais cedo todos aprendemos que assim é.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 27.05.2011
 

 

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