JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Poupar ou gastar tempo?

 

SeaweedCity

 

 

“The design of highways, runways, ports or any transportation facility is guided by knowledge and theory of the traffic streams they serve. A facility’s scale, its geometry and its control measures are selected to affect certain properties of its traffic, such as the travel delay, the separation between vehicles…”

Handbook of Transport Science

Randolph W. Hall

 

Atingir economias do tempo representa uma transferência social da destruição do ambiente. Em termos globais, assiste-se à degradação ambiental em vastas regiões do mundo, ao que normalmente chamamos de países em desenvolvimento, devido ao desejo de apoiar estilos de vida insustentáveis dos países desenvolvidos.

Em Tóquio, São Paulo. Cidade do México, Xangai, Banguecoque, Los Angeles, Berlim, Londres, Hong Kong, entre outras metrópoles, as pessoas não têm constrangimentos de tempo, porque podem percorrer longas distâncias de automóvel atravessando bairros mais pobres, e expondo as crianças e idosos às hipóteses acrescidas de acidentes de viação. Podem ir de avião para regiões distantes e saciar o seu apetite de estilos de vida, culturas e ecologias tradicionais.

O turismo é basicamente uma procura exaltada de experiências comprimidas no tempo, na realidade virtual de um local exótico. Despender um tão grande esforço para consumir tanto num curto espaço de tempo, contribui significativamente para a poluição global, em especial nos arredores dos aeroportos, em destinos turísticos dez a doze quilómetros acima da superfície da Terra, onde as emissões dos aviões injectam gases de estufa na atmosfera.

O aumento da procura de viagens de avião, que está intimamente associado ao aumento da procura de viagens turísticas, é talvez mais insustentável do que a utilização do automóvel, autocarro, camião e transporte rodoviário de mercadorias, criando problemas atmosféricos importantes e uma procura insaciável de terminais, parques de estacionamento, vias rápidas e outras infra-estruturas no solo.

Embora mesmo em condições difíceis, é possível e desejável planear uma transferência dos automóveis para os transportes públicos. Não é possível admitir nenhuma transferência dos transportes aéreos para soluções alternativas em longas distâncias. O transporte aéreo que constitui a essência dos estilos de vida intensivos em termos de distância e economizadores de tempo, não se substituem facilmente por outros sistemas e impõe-se uma redução na sua procura, que ainda que difícil, esta a ser diminuída em alguns países pelos comboios de alta velocidade para distâncias não muito longas.

O comboio de alta velocidade chinês, por exemplo, que fez o primeiro percurso entre Xangai e Pequim dia 11, liga as duas cidades em cerca de 5 horas. A China terá nos próximos anos a maior quantidade de quilómetros de linhas de alta velocidade, ultrapassando a soma de todas as redes do resto do mundo, e está a exportar esta tecnologia para vários mercados, entre eles, os Estados Unidos.

O sistema de transportes e o seu volumoso financiamento por parte dos países, representam uma transferência sistemática de tempo dos grupos mais fracos em termos económico-sociais para os grupos mais fortes, e é exactamente o que significam as análises de custo-benefício constantes das propostas para construção de estradas. Os processos são cumulativos e oportunistas.

Quanto mais forem destruídos o ambiente urbano e as zonas à sua volta com desvios justificativos por argumentos de índole ambiental, mais serão excluídas as pessoas dos espaços públicos e da interacção social que exige ou faz desperdiçar tempo. Maior número de viagens de automóvel, alimentam a procura de mais espaço rodoviário retirando credibilidade aos transportes públicos, tendo como resultado a maior construção de estradas, destinado a aumentar a sua oferta, que na maioria dos países desenvolvidos num período de dez anos não deve exceder 5 a 10 por cento, e na realidade atingem entre 80 a 150 por cento, sendo o dobro nas zonas rurais.

A China tem sido o país que regista o maior aumento mundial. O programa de construção de estradas, a produção de cimento, os cerca de 50 por cento das viagens de automóvel cuja extensão é inferior a vinte quilómetros e o consumo de recursos associados à produção e à utilização de automóveis, são responsáveis por quantidades significativas de poluição sonora, atmosférica com emissão de gases de estufa e ocupação do solo.

O automóvel pode poupar muito do tempo gasto em viagens, além de oferecer um grande número de oportunidades num período reduzido. As viagens de objectivos múltiplos são possíveis de automóvel e seriam impossíveis em transportes públicos. São vantagens reais e podem ser quantificadas. Há, no entanto, dois argumentos a ter em conta; o primeiro de que o automóvel não pode ser adquirido nem usado sem um gasto de tempo e de esforço, o qual penaliza significativamente o utente do automóvel; e segundo, é o do automóvel suscitar uma série de alterações no uso do solo e na organização do espaço, que reagem às novas oportunidades de movimento, afastando a sociedade para zonas mais distantes.

As economias de tempo são rapidamente absorvidas pela necessidade de percorrer distâncias maiores e fazer exactamente o mesmo de há poucas décadas atrás, percorrendo distâncias menores. O tempo exigido pelos automóveis, e portanto pela própria viagem, é um indicador fundamental da evolução da sociedade para níveis crescentes de consumo, e este é muito alimentado por combustíveis fósseis, aumentando os níveis de poluição, o aquecimento global e os problemas de saúde.

O “Instituto de Investigação Ambiental Aplicada”, na Alemanha, fez um cálculo das necessidades de tempo impostas pelos automóveis no país, mostrando que a velocidade social média dos grandes automóveis, comparada com a dos automóveis mais pequenos, permite concluir que estes são mais saudáveis em termos ambientais, podendo aumentar essa qualidade mais de 70 por cento, se forem usadas energias alternativas para a sua locomoção, e é o mais rentável quanto ao tempo gasto.

O conceito de velocidade social média é muito mais revelador das relações entre o gasto de recursos, o gasto de tempo e a destruição ambiental do que os pressupostos ingénuos acerca da velocidade indicada no velocímetro. Para atingir altas velocidades nas auto-estradas e fazer corridas ilegais em algumas estradas, pontes e zonas residenciais, como por vezes acontece, em Macau, durante a noite, é preciso consumir grandes quantidades de energia e trabalhar o tempo necessário para suportar esse dispêndio.

Ainda mais revelador seria o acréscimo de velocidade social média, necessária para cobrir o tempo de trabalho para sustentar a despesa, que permitiria erradicar a poluição atmosférica e sonora, recuperar os feridos em acidentes de viação e pagar as despesas de saúde, àqueles cujo aparelho respiratório tivesse sido afectado pela exposição às emissões gasosas dos veículos.

A procura de economias de tempo não é apenas ilusória, é em geral contraproducente e, por vezes, irremediável. Um acidente de viação fatal priva alguém do seu tempo para sempre. A um nível básico, os dados alemães revelam um aumento ao longo do tempo da sua quantidade gasta em deslocações e velocidades médias muito baixas e estáveis.

Semelhantes dados mostram no Reino Unido, que um aumento ao longo do tempo da quantidade do mesmo que passam em deslocações de um lado para outro. Estes aumentos de tempo são corroborados por aumentos das distâncias, que têm de ser percorridas nas deslocações para o emprego e para actividades de lazer e a fazer ligações com estabelecimentos, escolas e hospitais cada vez mais distantes.

Os processos responsáveis pela concentração destas actividades num número inferior de locais e as distâncias médias cada vez maiores que separam as origens dos destinos, constituem os processos básicos que criam a procura de transportes e a posse e uso de veículos que impõe penalizações de tempo.

Uma das ironias implícitas nestes processos, é que a imposição de penalizações é geralmente apresentada como um aumento de liberdade e de escolha, e a publicidade feita aos veículos e o apoio à construção de estradas assenta em termos de liberdade, de possibilidade de escolha e de aumento de qualidade de vida.

A realidade é diferente, visto que cada vez se gasta mais tempo em deslocações, geralmente em situações desagradáveis, para satisfazer necessidades e pretensões que antes podiam ser satisfeitas mais perto dos outros e dos locais de residência. Factologia dada como provada em todas as cidades do globo

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 20.05.2011
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