JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Educação, sociedade e ambiente (I)

peaceandquite

 

“What we resolve to do in school only makes sense when considered in the broader context of what society intends to accomplish through its educational investment in the young. How one conceives of education is a function of how one conceives of culture and its aims, professed and otherwise.”

 

Faith Schools and Society

Jo Cairns

 

O ensino científico praticado nas escolas insere-se num contexto mais amplo, que é o de saber como se evitará que uma grande parte da espécie humana não cause danos ao ambiente global. Os professores devem ser desafiados a encontrarem a forma mais eficaz de transmitirem aos seus alunos a urgência da acção que parece ser necessária. Importa compreender o que os professores tentam fazer e qual o contexto em que desenvolvem a sua actividade.

Existem actividades muito importantes e empolgantes que podem ser desenvolvidas nas escolas em complementaridade com as existentes. Cientistas e pesquisadores devem assumir o que é o seu dever, e envolverem-se mais na educação das crianças e jovens. Na sua actividade diária, para os professores, o sentimento expresso pelo poeta senegalês, Baba Dioum de que “No fim, conservaremos apenas o que amamos, amaremos apenas o que compreendemos e compreenderemos apenas o que nos ensinam”, é mais pragmático e auspicioso do que alguns cantos de sereia que se ouvem, por muito pertinentes que sejam.

 Exprime bem o desafio, feito a todos aqueles, que se preocupam com a ciência e educação. Mesmo que, até agora, se tenha conseguido atingir esse alvo muito simples, o conceito de sustentabilidade, começa a fazer da mudança uma realidade. O ensino científico nas escolas deve ser enquadrado por dois pensamentos fundamentais; um que analisa o papel das escolas no incitamento à mudança social e o outro que examina o papel da ciência nas escolas como agentes de educação para a mudança.

A utilização abusiva do ambiente não é uma novidade, dado remontar à pré-história. O professor Lyn White, há quase quarenta anos acusou a tradição judaico-cristã que conforma os valores da civilização europeia e ocidental de alguns dos nossos males ambientais. Apesar da sua culpa, dessa cultura dominante nasceu sem dúvida, uma grande parte da nossa ciência e mundovisão contemporânea.

Para sobrevivermos só temos uma opção, que é de sermos muito lúcidos quanto às nossas capacidades e termos uma perspectiva de futuro. É disso que trata a educação. A crise sistémica global veio por em causa não apenas os males do sistema financeiro internacional, com as graves consequências da recessão económica e outros males quiçá maiores, pondo a descoberto as más politicas económico-sociais seguidas pelos países, integrados num contexto de competição e comércio injusto que caracteriza a globalização.

Uma das políticas sociais a par com a da saúde e da segurança social é a da educação. O papel da educação na sociedade é um, senão o mais importante, para a realização de outras políticas que com ela devem caminhar abraçadas.

Alterar a maneira de pensar das pessoas constitui uma tarefa social e educacional da maior importância. Há que colocar a questão de saber como podem as escolas estimular a mudança social. O filósofo francês, Émile Durkheim, fundador da sociologia, considerava que a função da educação era transmitir as normas e os valores da sociedade.

Defendia que uma sociedade só seria coesa, se os seus membros fossem alertados para a importância da cooperação e da solidariedade social. As opiniões de Durkheim são largamente aceites e difundidas na actualidade, por exemplo no modo como as crianças e jovens nos Estados Unidos atingem um sentimento de lealdade nacional para com a sociedade, através de um sistema educativo comum e apesar das diversas origens étnicas.

 Considerava que a escola era o veículo para este processo de socialização; o estudante americano que começa o seu dia com um voto de fidelidade nacional, sabe quem são os fundadores da nação, conhece a “Constituição”, Abraham Lincolm e as raízes da democracia. Não há a mínima dúvida de que as escolas constituem agentes poderosos dessa socialização.

Porque não se há-de ensinar o ambientalismo e assistir a uma rápida mudança? Quem se prepara para ser professor pode-se ver confrontado com um comentário bastante condenatório e pungente por parte de pais que defendem a ideia de que “Se o aluno não apreendeu, é porque o professor não ensinou.” Esquecem-se os pais, que também são educadores, conjuntamente com o professor e quiçá com maior responsabilidade.

Porque razão as crianças e os jovens, ao atingirem a idade adulta não conseguem alterar o comportamento da sociedade onde se integram? Por certo, alguns professores não proporcionam o devido acompanhamento às crianças e jovens, pois não são as escolas o meio social onde desenvolvem as suas aptidões e formulam as suas próprias ideias e atitudes? A maioria das pessoas que não pertencem ao universo da sociologia, talvez considere que a educação escolar é altamente formadora e poderosa na sua capacidade de fomentar a mudança da sociedade.

Assim pensam os que alcançaram o nível académico, e muitas vezes é essa a esperança dos jovens professores que ingressam na profissão. Talvez as escolas sejam um reflexo da sociedade a que pertencem, muito mais do que agentes da transformação social. Émile Durkheim, embora encarasse com optimismo a capacidade da escola criar a mudança social, afirmou que a educação “…é apenas a imagem e o reflexo da sociedade. Ela imita-a e reprodu-la de forma abreviada; não a cria. A educação só é saudável, quando as pessoas são saudáveis; mas corrompe-se com estas, e não consegue mudar-se a si própria. Se o ambiente moral é afectado, os professores, que vivem nele, não podem deixar de ser influenciados…A educação só pode ser reformada se a sociedade for reformada”.

As escolas não são então o ponto de partida? Tentar alcançar uma ecologia humana mais sustentável pode envolver uma grande mudança de valores sociais, e neste domínio as escolas têm uma longa história como espectadores da mudança. A este respeito, vale a pena espreitarmos por cima do ombro, e relembrar algumas transformações ocorridas na história social e educacional do passado recente.

No século XIX, no Reino Unido, houve um grande debate no seio da elite culta, quanto à necessidade da educação de massas então proposta a servir a revolução industrial iminente, fornecendo uma força de trabalho minimamente culta. Por outro lado, o consequente esclarecimento da classe mais baixa, poderia também lançar as sementes da revolução e da destruição do poder controlado pela elite dominante. Ganhou o argumento anterior, segundo qual as massas deveriam ser cultas para satisfazerem as necessidades da indústria.

Contudo, o que se seguiu nas escolas foi um afastamento gradual da ênfase inicial dada ao objectivo social da formação, que sem dúvida foi alcançado, no sentido de promover uma educação esclarecida emanada do filósofo suíço, Jean-Jacques Rousseau, permitindo que cada individuo se aperfeiçoasse. A sociedade mudou muito em consequência disso, e os vaticínios da elite original acerca da sua perda de poder também se confirmaram amplamente.

No Reino Unidos e nos Estados Unidos, por exemplo, a ética da autoconfiança e do trabalho árduo dotou muitas pessoas do talento e da capacidade necessárias para ultrapassar as barreiras sociais. No Reino Unido a tensão inicial sobre os objectivos da educação de massas ainda persiste no presente.

A escolaridade é uma formação destinada a ir ao encontro de um objectivo económico e social e uma verdadeira educação libertadora, que permite que as pessoas se modifiquem no seu interesse, também para desafiarem as elites dominantes e ultrapassarem as barreiras sociais.

Um governo, que controla o financiamento estatal, deve ver a educação em termos de formação profissional, não sendo motivo de surpresa, pelo que urge a criação de escolas profissionalizantes. A maior parte dos professores nos países ocidentais mostra-se bastante hostil à ênfase dada à formação pura e simples, e está muito empenhada em alargar o âmbito da educação das suas crianças e jovens. Por conseguinte, uma grande parte do sistema educativo ocidental reside no que o professor David Hargreaves apelidou de cultura do individualismo, com a sua quota-parte de criatividade, liberdade e autonomia.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau, 06.05.2011
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