JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Estado terrorista da Líbia

“In the early months of 1986, concern over Mideast/Mediterranean terrorism reached a fever pitch, culminating in the U.S. bombing of Libya in April. The official story is that this courageous action aimed at the leading practitioner of international terrorism achieved its goal. Qaddafi and other major criminals are now cowering in their bunkers, tamed by the brave defender of human rights and dignity.”

 

Pirates and Emperors, Old and New – International Terrorism in the Real World

Noam Chomsky

 

Pouco tempo após ter deposto o antigo Rei Idris, compreendeu-se que o coronel Muammar Khadafi era um psicopata. Mas acreditou-se que a sua loucura só dizia respeito à restauração do Islão na sua pureza medieval, basta ver os seus trajes. No tabuleiro mundial o líder árabe articulou sempre as suas jogadas, de acordo com os interesses da União Soviética, até à sua queda. Em que, por exemplo, de restabelecer o Islão no seu rigor doutrinal podia levar a apoiar com armas e dinheiro o terrorismo dos católicos progressistas, contra os protestantes conservadores na Irlanda do Norte, que nunca ficou esclarecido, mas cujas probabilidades são enormes.

 Era compreensível o apoio ao terrorismo irlandês porque satisfazia os interesses soviéticos, dado enfraquecer uma das grandes potências ocidentais Posteriormente, ficou provado que Khadafi caminhou de mãos dadas com o aparelho comunista mundial. E que, sob a sua despótica liderança, a Líbia tornou-se um foco mundial, a seguir a Cuba, da subversão violenta. Em Março de 1977, Khadafi tirou a máscara e baptizou oficialmente o regime de democracia popular socialista.

A Líbia passou a ser centro de aprendizagem, onde milhares de alunos terroristas de vários países do mundo, agrupados em vários campos gigantescos treinaram-se física, militar e politicamente em todas as formas de violência, desde a pirataria aérea e o terrorismo até à guerrilha de mato e urbana. Os instrutores de subversão formaram uma amostragem igualmente cosmopolita, englobando colombianos, argentinos, cubanos, alemães do leste, japoneses, soviéticos, norte-coreanos, Sul iemenitas, e uma maioria de líbios e palestinianos.

Nessa altura em moradias de luxo da capital do país, funcionavam e discutiam interminavelmente os estados-maiores das subversões violentas, que figuravam permanentemente na agenda do binómio Muammar Khadafi e Leonid Brejnev, que foi secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética de 1964 a 1982, e presidente da república de 1977 a 1982, e tinham alcance global. Altura em que tipografias líbias, produziam vagas ininterruptas de falsos documentos de identidade de todas as nacionalidades. Poderosas antenas de rádio irradiaram apelos incendiários, vinte e quatro horas por dia, em direcção a todos os cantos do mundo e em todas as línguas.

Uma comissão de especialistas em psicotécnica seleccionava os agentes de subversão com vista às suas missões. O dinheiro ganho facilmente por Khadafi a um preço exorbitante do petróleo que o Ocidente fez brotar do seu deserto, fluía a rodos para pagar os terroristas, as operações violentas como o atentado que vitimou onze atletas judeus nos “Jogos Olímpicos de Munique”, as cumplicidades, os meios de comunicação social e as armas.

Estas, armazenadas em grandes quantidades, eram encaminhadas em direcção aos locais de conflito por grande número de caravanas terrestres, aéreas ou marítimas. Todos aqueles que, pelo mundo mataram, saquearam, violaram e raptaram encontraram na Líbia refúgio, ânimo e assistência. A 18 de Agosto de 1976, na Conferência dos países ditos não alinhados, perante a impassibilidade da comunidade internacional e dos Estados Unidos, realizada na capital do Sri Lanka, que foi uma colónia portuguesa de 1518 a 1524 e de 1554 a 1656, o coronel Khadafi afirmou altivamente que apoiava o terrorismo internacional, e declarou-se orgulhoso de tal acção.

Para o demonstrar seis dias mais tarde organizou o desvio para a Líbia de um avião egípcio. A operação falhou. E os membros líbios do comando confessaram que teriam recebido 250 mil dólares cada um, se tivessem levado o aparelho até à capital do país.

Nessa ocasião, o líder do comando, antigo homem de confiança de Khadafi, zangado com o seu patrão e refugiado no Egipto, declarou que o líder líbio, destinava todos ao anos, mais de 600 milhões de dólares para financiar o terrorismo anti-imperialista pelo mundo. Tardiamente, os Estados Unidos aplicaram em 1982, um embargo à importação de petróleo líbio, que em retaliação, em 1986, numa discoteca de Berlim, os líbios fazem explodir uma bomba onde morreram dois americanos.

Os americanos sem mandato do Conselho de Segurança da ONU, bombardearam a capital e a segunda cidade líbia. Em 21 de Dezembro de 1988, como retaliação, Khadafi patrocinou o atentado de “Lockerbie”, provocando 270 mortos. Acusado pelo atentado, a ONU decreta em 1992 e 1993, sanções e acusa-o de patrocinar o terrorismo mundial. As sanções e o embargo económico, conjuntamente com a descida do preço do petróleo, faz deteriorar a economia líbia e leva a tumultos populares, tendo sido vítima de um sério atentado. As sanções decretadas pela ONU são levantadas em 1999.

A 12 de Agosto de 2003, Muammar Khadafi entra num acordo internacional com vista ao levantamento dos embargos, comprometendo-se a Líbia a pagar as indemnizações às vítimas, a admitir a sua responsabilidade no acto terrorista, renunciar ao terrorismo e colaborar em todas as investigações correlacionadas. Foi acordado ainda, a cessação do programa de armas nucleares e de mísseis de longo alcance líbio, onde gastaram cerca de 200 milhões de dólares, nunca devolvidos pelas Estados Unidos como contrapartida.

A tecnologia nuclear e instruções para a construção de uma bomba líbia, foi transferida para os Estados Unidos e Reino Unido, tendo os inspectores internacionais em 2004, reconhecido o desmantelamento do programa, que levou o ex-presidente George Bush a abandonar as limitações aos negócios com a Líbia e a elogiar cinicamente Muammar Khadafi, de que tal acto possibilitou que os Estados Unidos e o mundo vivessem em maior segurança.

Seguidamente, as grandes multinacionais do petróleo dos Estados Unidos e Reino Unido instalaram-se no país em 2005, com relevância para a “Halliburton”, que teve como presidente até 2000, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Dick Cheney, que em 2004 exerceu o seu poder para a celebração de um fabuloso contrato de serviços petrolíferos e logísticos, relacionados com a reconstrução do Iraque invadido, provocando um sério escândalo. Em 2006 a Líbia é retirada pelos Estados Unidos da sua lista negra, relacionada com o comércio externo.

Inimigos mortais transformam-se em amigos por força do petróleo e dos interesses das famílias petrolíferas americanas. Terminada essa era de interesses, e após os tumultos de 15 de Fevereiro e dos bombardeamentos de Khadafi contra a população civil e revoltosos numa chacina, ameaçando tresloucadamente tudo e todos, o Conselho de Segurança da ONU, no passado dia 18, ONU aprovou uma resolução que instaura uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia e permite o uso da força militar para impedir que as tropas de Muammar Khadafi ataquem civis.

Patrocinada pela França e Reino Unido, a decisão foi tomada com apoio dos Estados Unidos, tendo o Brasil, China, Rússia, Índia e Alemanha se abstido. O presidente americano, a 20, de visita ao Brasil, autorizou o ataque à Líbia com 110 mísseis de cruzeiro “Tomahawk”, lançados de navios e submarinos americanos e ingleses, estacionados no “Mar Mediterrâneo” contra 20 alvos, cujo total vai em 162. A força área líbia está neutralizada e Khadafi vivo diz que não se rende.

Consolidava-se, dessa forma, a maior intervenção militar no mundo árabe desde a invasão do Iraque, numa coalizão de cinco países. Enquanto se crê que o coronel Khadafi tenha sido morto nos ataques, o seu filho de imediato desmente e a população foge da capital líbia. Mas, novo problema aparece, que é a de saber qual será o destino da família do ditador e quem o deverá prender.

Estas questões levam a uma outra mais delicada, a de saber se será possível ou desejável a sua eliminação física. A ignóbil experiência do ex-presidente George W.Bush com Saddam Hussein aconselha a uma longa meditação, dado que a execução do ditador iraquiano, não foi aprovada pela maioria xiitas do Iraque, nem teve alguma compreensão no Irão. Pelo contrário, em 1991, o ex-presidente George Bush pai, não usou a operação “Tormenta no Deserto” para derrubar o ditador.

Talvez, porque não esquecia um antecedente incómodo; o facto dos Estados Unidos terem apoiado o Iraque com armas e serviços secretos durante a guerra com Teerão de 1980 a 1988. Antes, de 1975 a 1979, os Estados Unidos tinham suportado os talibãs e a Al-Qaeda na guerra contra a ocupação soviética do Afeganistão.

Os russos retiraram-se, mas os talibãs continuam. A resolução do Conselho de Segurança, além de não mencionar o destino do coronel, nem sequer prevê uma ocupação terrestre. Só é clara a zona de exclusão aérea que passará a mil quilómetros da orla costeira e a protecção a civis em toda a área de exclusão, ou seja, cerca de 70 por cento do território e a faixa marítima imediata. Por outro lado, os países árabes quiçá, não vejam com bons olhos a prisão do coronel, como também não aprovaram a execução de Hussein.

A coligação, tal como na guerra de 2003 no Iraque, e em especial os americanos, pretendiam uma alteração integral do regime. A Líbia é muito diferente. Em primeiro lugar, o Irão era, e é uma espécie de federação entre árabes xiitas e sunitas, e curdos. Se for o caso, os ocupantes em retirada vão ter de se resignar a uma normalização que pode levar anos.

Por outro lado, o eventual derrube do regime líbio pode deixar um perigoso vazio difícil de preencher, e uma centena de tribos cercando a capital e as principais cidades. As crescentes dissidências entre os aliados revelam que as saídas militares são mais fáceis que as políticas, mas que não conduzirão nunca à paz e a um regime democrático, dadas as singularidades do país.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 25.03.2011
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