JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Quatro dimensões do espaço-tempo

A incompreensão mútua entre a geologia e a sociedade está a tornar-se mais visível, devido à consciencialização crescente para as questões ambientais, que se tem verificado nas últimas três décadas. Tome-se como exemplo o depósito de resíduos tóxicos. Muitos casos de escoamento rápido para aquíferos de abastecimento de água, ou para solos agrícolas revelam, até que ponto é arriscado não se conhecer bem o ambiente geológico do subsolo local.

Fale-se do agravamento das alterações climáticas a nível global. Os governantes interrogam-se sobre se tal situação aconteceu no passado. Se houve clima severo devido ao aquecimento global, à subida do nível dos mares ou à fusão das camadas de gelo. Os geólogos que dão a resposta afirmativa, são o mesmo grupo de cientistas que considera que os combustíveis são os principais responsáveis por todos estes fenómenos.

Algo de profundamente errado existe, quer numa sociedade que aspira à consciência científica, quer numa profissão que exige chamar a si a ciência da Terra. A definição de geologia como disciplina científica difere da geociência, ou da ciência da Terra, ou mesmo da ciência do sistema da Terra. O simples cidadão deve sentir-se confuso, quando uma ciência muda de nome de dez em dez anos.

A geologia é uma ciência da Terra, mas muitas ciências o são. A física, química, biologia e as disciplinas associadas versam sobre os componentes da Terra, em funcionamento. O que distingue a geologia é, em primeiro lugar, o seu interesse por todos os processos naturais que deixam um registo nas rochas, e, em segundo lugar, o seu objectivo de reunir as interacções locais e globais desses processos ao longo de 4,5 mil milhões de anos de história da Terra.

A geologia é uma ciência essencialmente holística, feita nas quatro dimensões do espaço e do tempo. Observe-se os geólogos quando examinam um pedaço de rocha calcária. O tamanho, a forma e a disposição das partículas minerais, indicar-lhe-ão a força e a variabilidade das correntes de maré ou de vaga que depositaram o sedimento original.

O tipo de fósseis incrustados na rocha, revelará a sua idade geológica. Os fósseis e os tubos biogénicos, ou os trilhos deixados por seres fossilizados permitirão aos geólogos reconstituir a antiga comunidade biológica. Em seguida, podem estimar as condições ambientais, como a profundidade da água, salinidade, temperatura e teor de oxigénio.

Ao microscópio o cimento mineral, que une os grãos de rocha, pode registar a transformação da composição da água, que passou através da rocha quando esta se encontrava enterrada. O estado físico de quaisquer fragmentos vegetais existentes na rocha, regista a profundidade máxima deste enterramento.

A análise laboratorial dos diferentes isótopos de estrôncio nas conchas fossilizadas, indica a composição química da antiga água do mar. Indirectamente, esta pode revelar o ritmo a que o sedimento se cava do continente, e a quantidade de vulcanismo existente sob os oceanos do passado. A análise do isótopo oxigénio indica a temperatura da água do mar.

E assim sucessivamente, nenhum aspecto do calcário é irrelevante para o problema da sua origem. A melhor hipótese é aquela que se ajusta às diversas provas na sua totalidade. O estudo do calcário, é um exemplo em pequena escala de uma parte do tempo geológico. Mas essas provas locais podem ser integradas no espaço, até atingirem uma escala global, e no tempo, através de períodos geológicos sucessivos.

É sempre a perspectiva holística que distingue a ciência geológica. Pode fazer-se paleobiologia de boa qualidade com os fósseis, sedimentologia com o formato dos grãos, ou paleoceanografia com os isótopos químicos. A geologia fornece os elos sistemáticos entre estas disciplinas.

A afirmação do geólogo inglês, Charles Lyell, de que o presente é a chave para o passado, funcionou quer como estratégia científica unificadora para os geólogos ao longo dos últimos sessenta anos, quer como força dispersora, que os remeteu para subdisciplinas especializadas.

Os processos da antiga Terra não podem ser estudados directamente. Só as consequências materiais, permanecem no registo das rochas. Estes indícios, devem ser lidos em consonância com os processos activos actuais; o crescimento de um recife de coral, o fluxo e o refluxo das marés, as inundações provocadas por um rio.

Esta importância dos processos actuais criou laços entre os geólogos e outros cientistas da Terra, como biólogos marinhos, oceanógrafos e hidrologistas. Mas a influência amplificadora desta colaboração, foi contrariada por uma fragmentação da geologia em grupos de especialistas. Cada grupo concentrou-se num conjunto específico de processos da Terra, dissecando os mecanismos que o compõem.

Esta perspectiva reducionista da ciência, gerou avanços rápidos e pormenorizados na compreensão, mas à custa da perspectiva holística que caracterizava a antiga geologia. Esta fragmentação da geologia afectou mesmo o estudo dos processos terrestres profundos. A convecção do centro da Terra, a fusão das rochas no manto ou crosta, a produção de sismos; estes processos não podem ser observados directamente como os que se verificam à superfície da Terra.

Foi criada uma sequência de técnicas químicas e físicas para decifrar as profundezas da Terra. O carácter especializado da geoquímica e da geofísica também começou a afastar estas disciplinas da geologia original. Os geofísicos, em especial, não se sentiam bem com o rótulo de geólogos.

Os rótulos de ciência geológica e ciência da terra nasceram de tentativas para reagrupar as disciplinas que a geologia criara. Mas, os rótulos têm menos poder que as ideias. Ironicamente, há cerca de quase cinquenta anos, foram os geofísicos que criaram o conceito unificador destinado a virar a maré científica. A tectónica de placas forneceu um modelo de trabalho coerente da parte exterior da Terra sólida.

O mais importante é que esse modelo podia ser testado com dados provenientes de quase todas as outras disciplinas da ciência da Terra. Os paleontólogos recomeçaram a atacar os vulcanólogos, os sedimentologistas, os geoquímicos e os pretólogos a falar contra os geofísicos.

Esta especialização dentro de cada disciplina contínua, mas com uma estrutura fornecida pela tectónica de placas que todos os cientistas da Terra podem entender. A ciência da Terra holística é pelo menos possível, mesmo quando não é sempre praticada.

  

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 25.02.2011
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