JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Poluição do tempo

“Although time-savings provide the principal economic justification for new road schemes, the expansion of the road network and the increase in traffic does not seem to have given people more free time. This is because pedestrian time is not evaluated, because cars are deceptively time-consuming, and because people tend to use what time savings they do gain to travel further.”

 

Transport for a Sustainable Future: The Case for Europe

John Whitelegg

 

Na muito abrangente e importante discussão sobre os recursos finitos do mundo e o ritmo a que estamos a consumi-los, existe um silêncio ensurdecedor acerca do tempo. Não é para admirar. A nossa evolução cultural levou-nos a acreditar que podemos poupar tempo ou aumentar a nossa eficiência se usarmos o tempo de uma forma mais útil.

A poupança de tempo tornou-se sinónimo de uma arrogância tecnológica, que assume que as nossas actividades destruidoras, serão transformadas em actividades compensadoras e sustentáveis. A linguagem está repleta de referências a mecanismos que poupam tempo, ou de comentários depreciativos sobre a perda de tempo, e existe um pressuposto que tudo atinge e segundo o qual, as nossas tecnologias e as nossas ciências de gestão, nos permitem tirar cada vez mais partido do irredutível dia de vinte e quatro horas.

A própria sustentabilidade, o ponto de intersecção das políticas ambientais globais e nacionais, contém em si, uma transformação do tempo. Se não significa reduzir o consumo de modo a prolongar a vida dos nossos recursos finitos, então não significa nada.

Se não consegue abranger uma abordagem mais moderada e prolongada da organização das actividades humanas, então é uma fraude. Independente do nosso consumo e recursos finitos, é a velocidade a que os consumimos, e a sua amplitude é a velocidade à qual o planeta consegue fazer frente, reparar e gerir os danos sofridos.

Se não conseguimos abrandar processos que poluem a atmosfera, reduzem a biodiversidade, precipitam a mudança do clima, destroem comunidades e laços entre as pessoas e os lugares, então a nossa luta histórica contra o tempo encarregar-se-á de nos afastar.

Perder tempo, no sentido de termos horizontes a longo prazo, sem procurarmos os lucros dos investimentos a três ou a cinco anos, e levando tempo a fruir os nossos ambientes locais e a experiência do lugar, pode vir a ser a estratégia ambiental mais importante que poderíamos adoptar.

O tempo e o espaço no sentido terrestre definem as actividades humanas, delimitam o que é possível e determinam os níveis de consumo de energia, a interacção social, a poluição e a qualidade de vida. O tempo e o espaço têm significados muito diferentes, para os diversos grupos existentes na sociedade. Isto é verdade a um nível global, em que alguns grupos podem agir num ambiente, quase isento de constrangimentos de tempo e espaço, e outros estão profundamente enraizados em locais e envolvidos em ritmos temporais, que definem efectivamente a sua cultura e língua.

O operador dos mercados financeiros da “Wall Street” funciona globalmente e numa realidade virtual não localizada, que permite e fomenta actos que destroem o ambiente e a cultura. A compensação e a gratificação instantânea, a arrecadação do lucro e uma situação global sem um compromisso total, constituem um forte incentivo à destruição ambiental e à rejeição de um pensamento a longo prazo.

A libertação dos constrangimentos de tempo e espaço, produz um impacto físico e psicológico. A maioria dos problemas que actualmente chamamos de ambientais, é uma consequência da redistribuição do tempo que foi libertado graças a quaisquer meios tecnológicos, e atribuído a outras actividades que, por sua vez, consomem tempo e recursos a um ritmo mais acelerado.

Se pouparmos tempo indo de automóvel para o emprego em vez de irmos a pé, consumiremos esse ganho de outra forma qualquer. Se pouparmos tempo recorrendo a mecanismos que de certo modo nos poupam trabalho, também poderemos sentir necessidade de adquirir bens de consumo, ou de andar de automóvel para utilizar o tempo que poupámos.

As economias de tempo não tem implicações neutras no que diz respeito aos recursos. Os benefícios decorrentes das economias de tempo, serão consumidos por outra actividade, que por sua vez requer energia, produz poluição e intensifica o consumo de recursos.

O cientista Cesare Marchetti comentou as relações, ao longo do tempo, entre os gastos de tempo, dinheiro e de esforço nos transportes. Observou que o tempo gasto nos transportes nos países desenvolvidos corresponde a uma hora e meia por dia, por pessoa e a 19 por cento do nosso rendimento disponível. Acerca de economias do tempo e do consumo destas a maiores distâncias e com um aumento crescente do consumo de energia e de recursos (poluição do tempo), argumentou que a atribuição de tempo e dinheiro aos sistemas de transportes disponíveis, é feita para maximizar a distância. A sua conclusão é, pois, clara e fundamental para a noção de poluição do tempo.

Os dois objectivos dos sistemas de transportes são o mais depressa e o mais barato possível. As vantagens tecnológicas que nos permitem viajar mais num espaço de tempo fixo, criam mudanças que aumentam as distâncias que percorremos, e nas quais fazemos circular as mercadorias.

As dimensões psicológicas destas alterações físicas são igualmente importantes. Se deixarmos de viver, trabalhar e conviver dentro de uma área geográfica exígua, como o caso de Macau, sentimos que a nossa experiência se altera, deixando de ser específica de uma determinada localidade para não pertencer a nenhuma em particular.

As nossas experiências caracterizam-se actualmente não por termos encontros informais com os outros quotidianamente, nas ruas, entre casa e o emprego, a escola, o café, e o restaurante, mas pelo intercâmbio diário, pelo facto de nos sentarmos dentro de uma caixa metálica isolada da realidade, corrermos atrás dos outros peões, de motociclos, crianças, adolescentes e idosos, sempre a pensarmos nas origens e nos destinos e não nos pequenos intervalos.

As viagens de automóvel, avião e comboio de alta velocidade impõem enormes custos sociais e ambientais, àqueles que sentem o impacto da sua proximidade. As pessoas que passam, não se interessam pelos corredores que vão devastando; querem poupar tempo, chegar ao destino, terminar a viagem. O seu tempo foi avaliado pela sociedade, mas o tempo que foi gasto (poluído) nos corredores é desvalorizado. Não é importante.

Constroem-se novas estradas e novas linhas de caminhos-de-ferro para poupar tempo ao viajante. Sempre que um viajante poupa tempo, está a impor ruído, resíduos, perigo e poluição a milhares de residentes locais, que por residirem nesse lugar, são obrigados a sofrer as consequências.

As suas conversas são interrompidas, o tempo que levam a atravessar a rua, a chegar à escola, a ir às compras será maior por causa da nova estrada, ou o aumento de tráfego nas estradas adjacentes criados pela nova estrada dividiu o local onde residem. Milhares de horas de tempo local, considerados todos os residentes, serão sacrificadas para os que estão em trânsito possam poupar tempo na viagem. 

A deterioração das condições ambientais locais provocada pelo aumento do tráfego convencerá os pais a impedirem os filhos de atravessarem estradas ou irem a pé. Os pais e outros adultos gastarão então milhares de horas sentados nos automóveis para irem levar e buscar os filhos à escola, à piscina, ao cinema, a casa dos amigos e a actividades organizadas. Fazem-no porque os assusta a insegurança dos seus filhos nas estradas.

As economias de tempo implícitas no planeamento de novas estradas, e os seus elaborados cálculos de custo-benefício, traduziram-se por enormes sobrecargas de tempo para outras partes do sistema. Para muitos grupos sociais, em especial para os idosos, que ao contrário do que politicamente se apregoa a nível mundial, vão tendo cada vez menor qualidade de vida, a redistribuição de tempo que uma nova estrada desencadeia pode ser desastrosa.

Significa que muitas das vezes não podem atravessar estradas e que, portanto, estão privados de actividades como passar o tempo com os amigos a menos que estes venham buscá-los de automóvel, ou que o conduzam, aumentando assim os problemas daqueles que não tem acesso a um automóvel. Significa que têm de passar mais tempo em casa e não na rua, onde a sua presença é uma parte essencial da vida da comunidade e pode encorajar outros a sair.

O espaço público que é roubado aos residentes pelo trânsito foi apurado avaliando o tempo dos automobilistas/passageiros, através de uma análise custo-benefício feita em computador, que se limita a fornecer o resultado pretendido. Se um valor for introduzido no tempo dos ocupantes de um automóvel e inserido num processo matemático falso, dará como resposta a necessidade de novas estradas.

Tudo o resto que se prende com a qualidade de vida dos peões, das crianças, dos idosos e da comunidade é ignorado. O tempo foi usurpado para justificar uma opção política grosseira a favor de novas estradas.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 18.02.2011
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