JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Paradigma da ciência

“There is probably no better way to explain what science means today, to account for its importance in society and culture. We do not expect science only to turn on the lights in our homes or keep our food fresh. We want it to answer our most profound questions. This is perhaps the only feature shared by the science of Tycho Brahe – who made all his observations with the naked eye – and the science of Markus. Everything else has changed, beginning with forms and sizes.”

Science in Society

Massimiano Bucchi

 

Quais os factores responsáveis pela enorme influência da ciência na imaginação do nosso tempo? Um dos factores principais foi a estreita relação existente entre ciência e desenvolvimento. Não podem ser entendidos isoladamente, tal como os estrategas explicaram na década de 1930, de que a solução para a prosperidade da Índia, além do empenho do povo, reside, nos tempos modernos, na eficaz associação de três factores que são a tecnologia, matérias-primas e capital.

O primeiro é talvez o mais importante, visto que a criação e adopção de novas técnicas científicas, podem de facto ser responsáveis, por um deficit nos recursos e reduzir a necessidade de capital.

Em termos genéricos, o desenvolvimento foi apenas o mais recente associado da ciência moderna no exercício da sua hegemonia política. No passado, a ciência uniu-se ao esclarecimento e às asserções milenares, antes de se aliar ao racismo, sexismo, imperialismo e colonialismo, e depois adaptar-se ao desenvolvimento, uma ideia na qual entroncam quase todas estas heranças.

Se nos concentrarmos nos acontecimentos das últimas décadas, recordaremos que o desenvolvimento e a ciência percorreram esse período tão unidos como um cavalo à sua carroça. O desenvolvimento foi desejado pelas sociedades não ocidentais, pelo facto de estar associado à ciência. O que existia antes do desenvolvimento, ou como natureza pura, ou como meio de subsistência, não possuía a lógica, flexibilidade e a eficácia da ciência moderna.

As pessoas, as sociedades e a própria natureza tinham ficado para trás devido à sua ausência. Os estrategas apuseram o rótulo de atrasados a regiões inteiras, só porque não tinham indústrias. A indústria continua a ser um símbolo concreto dos novos processos desenvolvidos pela ciência.

O atraso veio a ser substituído pelo desenvolvimento, uma forma alegadamente melhor de organizar o homem e a natureza, com base nas conclusões da ciência actual. A ciência, por sua vez, era desejada porque viabilizava o crescimento. Se fossem exploradas as capacidades que lhe estavam associadas, poder-se-ia atingir um desenvolvimento e uma riqueza sem limites. A ciência e o desenvolvimento reforçaram a necessidade um do outro; cada um legitimou o outro de uma forma circular.

Se o desenvolvimento não tivesse uma relação especial com a ciência, não teria sido necessário substituir os meios de subsistência, nem adoptar o novo padrão que o desenvolvimento propunha. Todavia, a relação entre a ciência moderna e o desenvolvimento não era apenas de intimidade; era uma relação congénita. Esta relação remonta à época da Revolução Industrial, quando se criaram os primeiros laços entre ciência e indústrias.

Algumas das principais leis da ciência nasceram da experiência industrial. Por exemplo, a segunda lei da termodinâmica resultou dos esforços feitos, para aperfeiçoar o funcionamento da máquina a vapor com o objectivo de fazer progredir a indústria.

A Índia, por exemplo, produz vários tipos de açúcar. Os mais importantes são o açúcar branco e o “gur”. Os métodos utilizados na extracção e produção do açúcar branco, são superiores aos que permitem obter o “gur”. Não só a eficácia extractiva das grandes fábricas é maior como o armazenamento do produto, açúcar branco, é mais fácil. Pode ser transportado e armazenado, ou mal utilizado por razões de Estado.

A poluição provocada pelas açucareiras é reconhecida, mas considera-se que se trata de um preço pequeno a pagar pelos benefícios do progresso. Por outro lado, o “gur” é produzido sobretudo em fornos abertos, recorrendo a resíduos agrícolas, madeira ou bagaço.

A extracção do sumo da cana-de-açúcar não é tão elevada como nas grandes unidades industriais. O produto final também não se conserva tão bem, para além de um certo período. No entanto, o processo produtivo não gera poluição. O planeta e a atmosfera não são afectados. E, evidentemente, os lucros e a especulação com o “gur” não são tão fáceis.

Contabilizando abertamente os dois processos, poderia parecer que o governo indiano estaria a agir em defesa do interesse público se apoiasse a substituição da produção de “gur” por açucareiras modernas. O desenvolvimento não está no açúcar branco. Foi o que aconteceu em países como a Índia, no período que se seguiu à independência.

A política de crédito concedida aos agricultores residentes nas imediações das grandes açucareiras estipulava que, se contraíssem empréstimos destinados à cultura da cana-de-açúcar junto das instituições financeiras governamentais, ficavam obrigados a vender o seu produto apenas às grandes refinarias. Não podiam produzir “gur”. Funcionários especialmente designados pelo governo, os denominados “Comissários do Açúcar” controlavam essa actividade. Este autoritarismo ligado ao desenvolvimento sempre foi apoiado pelo Supremo Tribunal de Justiça da Índia.

No entanto, a situação é diferente se procedermos a uma análise mais aprofundada da qualidade dos dois métodos e dos seus produtos finais. Constata-se então que a ciência moderna realça certas qualidades, excluindo outras, e que a adopção cega dos seus métodos pode levar a sobrevalorizar os valores errados. O açúcar branco é perigoso por vários motivos testados e provados ao longo dos anos.

Os processos físicos envolvidos no metabolismo do açúcar branco acabam por desestabilizar a saúde dos consumidores. Além disso, o corpo humano, não precisa de açúcar branco em termos fisiológicos. Reconhece-se que o açúcar branco não passa, afinal, de um conjunto de calorias inúteis. O “gur”, por outro lado, é um alimento. Contém não só açúcar, como ferro, vitaminas e minerais importantes.

Se compararmos os dos tipos de açúcar, o “gur” daria uma contribuição positiva para o bem-estar humano, ao contrário do açúcar branco. Contudo, não é evidente na comparação dos processos de fabrico puros e simples que produzem o açúcar branco e o “gur”, e, em qualquer caso, o critério desta comparação situa-se apenas no terreno específico e desfavorável da concepção que a ciência moderna tem da conversão energética.

Admite-se apenas que a tecnologia utilizada na produção do açúcar branco, é mais eficiente que a tecnologia usada na produção do “gur”. Além disso, não faz parte do debate sobre a eficiência discutir se vale a pena produzir um produto que é nocivo para a saúde humana e que afecta o ambiente devido ao calor e aos efluentes libertados.

A Índia a curto prazo irá ultrapassar o Brasil como maior produtor de açúcar do mundo, face à decisão de muitos produtores brasileiros, destinarem uma parcela cada vez maior da sua produção para o etanol, e da previsão de desaceleração da indústria brasileira nos próximos anos em consequência da desaceleração do seu mercado interno. Tudo sem embargo de a indústria brasileira ter crescido 10,5 por cento em 2010, tendo sido a maior expansão desde 1986, mas em comparação com 2009, teve uma forte retracção de 7,4 por cento devido à crise internacional.

Os países em desenvolvimento, onde se incluem os de economia emergente, como a Índia não pediam ao Ocidente a Lua, nem estavam ansiosos por lá ir, procuravam apenas conselhos, apoio e cooperação nos esforços a desenvolver, para que pudessem ultrapassar o nível de subsistência e ascender a uma vida mais próspera.

O conhecimento científico, considerado acima das emoções, das castas, da comunidade, da língua e da religião, e transnacional tornou-se o instrumento principal e preferido de transformação acima do interesse de todos. Nunca o consenso foi tão grande entre os intelectuais de tantos países, quer fossem liberais, socialistas, comunistas, tiranos, adeptos do Mahatma Gandhi, conservadores e agitadores. Todos sucumbiram à tentação totalitária da ciência.

Num país como a Índia, que teve quarenta anos de protecção estatal à ciência e a todas as suas obras não conseguiu durante esse tempo amparar a sua periclitante reputação. Em 1976, a falecida primeira-ministra Indira Ghandi transformou a propagação do espírito científico, num mundo dos deveres fundamentais dos cidadãos indianos e alterou a Constituição nesse sentido. Apesar disso, ainda subsiste um sentimento de crise na comunidade científica indiana, que se encontra em diversas situações, desfasada das preocupações essenciais da sociedade indiana.

Esta sensação de fracasso quase impediu de forma irreversível que a Índia fosse empurrada para a camisa-de-forças que o projecto da ciência moderna lhe tinha preparado. As pessoas das sociedades não ocidentais até à década de 1980, não se limitavam a não colaborar nos seus principais desígnios, revelavam a não preocupação sequer com o Ocidente, nem com as suas invenções.

Em muitos domínios, a não cooperação tornou-se agressiva. Pessoas, grupos e aldeias rejeitaram abertamente a modernização do desenvolvimento e obstinaram-se em manter o seu modo de vida e a sua interacção com a natureza e com as artes da subsistência.

A revolta contra o desenvolvimento em varias áreas da Índia continua a existir e está condenada a ser, a outro nível, uma revolta contra a ciência moderna e contra a violência que pode simbolizar. Foi esta a visão do Mahatma Ghandi. É provável que venha a ser a visão daqueles que estiverem interessados em proteger os direitos naturais dos seres humanos e da natureza em todo o mundo.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 11.02.2011
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