JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

O Med Mesign

“Without a healthy planet to cleanse our wastes and provide us with resources, we will wither. Unless we can find a way to live in balance with the natural systems that sustain us, our species will ultimately reach a dead end. That’s the bottom line.”

 

The Big Picture

David Suzuki and David Robert Taylor

  

A nossa cultura ocidental é abundante de ideias absurdas, nas quais os cientistas e demais pessoas acreditam com uma fé inabalável, e muitas corrompem a nossa preocupação com o planeta.

A ciência têm contribuído com análises e estudos muito importantes acerca da vida, mas a nossa cultura impede-nos de aceitar e utilizar tais contributos. Existem muitos exemplos, dos quais podemos destacar o planeta visto do espaço; os povos “Chewong” que vivem nas florestas da Malásia; ou organismos do microcosmos, que na sua maioria são ignorados pelos biólogos e as lições de “Gaia”, a concepção da vida para além da biologia, segundo os professores Vladimir Vernadsky e James Lovelock.

O célebre filósofo alemão Friedrich Nietzche considerava que a filosofia era um explosivo que punha tudo em perigo. Os cientistas continuam a amedrontar-se, quer com a filosofia, quer com os filósofos. Tendem a denunciar a suavidade da filosofia ou a negar a sua importância, quando na realidade tem tanto a dizer sobre a actividade dos cientistas.

A imagem da Terra vista do espaço transformou todos os astronautas. Tentaram explicar ao mundo a sua mudança de posição em termos filosóficos, mas sentiram que poucos lhes prestaram atenção.

O escritor americano Frank White publicou um livro, em 1987, com as entrevistas de todos os astronautas vivos, intitulado “The Overview Effect – Space Exploration and Human Evolution” que nos faz viver essas viagens ao espaço com eles e permitir-mos dar uma espreitadela.

O astronauta Eugene Cernan, o último ser humano a caminhar na superfície lunar, como comandante da Apollo 17, afirmou: “Quando estamos na órbita da Terra e olhamos para baixo, vemos lagos, rios e penínsulas, como a Florida. Sobrevoamos rapidamente as alternâncias topográficas, como montanhas cobertas de neve, desertos ou faixas tropicais muito visíveis. Passamos pelo nascer e pelo pôr-do-sol cada noventa minutos. Quando estamos na órbita da Terra, ganhamos uma nova perspectiva. Agora estamos sobre os Estados Unidos, no minuto seguinte estamos sobre outra região do mundo. Abarcamos a distância que vai de um pólo ao outro, de um oceano ao outro, sem virarmos a cabeça. Vemos a América do Norte e do Sul a desaparecer, enquanto a Terra gira à volta de um eixo, deixamos de a ver e depois, como por milagre, surge a Austrália, Ásia, e por fim toda a América. Perguntamo-nos: Onde estou verdadeiramente no tempo e no espaço? Não detectamos as barreiras da cor, da religião e da política que dividem o mundo. Se pudéssemos levar toda a população do mundo lá acima, não teriam uma sensação diferente e uma nova perspectiva?”

Todos os astronautas tentam transmitir a mesma mensagem. Os cientistas que estudam outros planetas, como Marte, Vénus, Júpiter e Saturno, estudam-nos como um todo, mas nós, que estudamos a Terra, não o fazemos. Porquê? Porque somos filhos de um judaico-cristão, de um muçulmano, de um neodarwinista ou de outra religião qualquer. As religiões são absurdas não só pelo facto de serem confusas, mas também porque são perigosas para a nossa relação para com o planeta e com os nossos parceiros não humanos, que nele igualmente vivem.

O ambiente cultural em que fomos criados impede que, na nossa aprendizagem, encaremos a Terra como um planeta total. Quando os resultados científicos colidem com as verdades culturais e religiosas não formuladas, a ciência levanta objecções.

A captação de dados por controlo remoto, por exemplo, diz-nos muito acerca da escala do macrocosmo. Imagens extraordinárias captadas pelo satélite “Landsat 7”, de um rio da Amazónia que corre da direita para a esquerda, nas imediações da Rondónia, no Brasil.

Que significam as linhas aí representadas? Uma variante de afloramentos circulares? Um estado onde se vive de uma forma desumana? Ao nível do solo pode-se verificar que essas linhas são na realidade estradas, rodeadas por faixas de floresta destruída. A enorme quantidade de clareiras existentes na floresta faz desta situação um fenómeno global.

Não sentimos qualquer dor, como se arranhássemos a cara ou mordêssemos a língua, porque a destruição das árvores é feita em nome do progresso, que consta do escudo da bandeira brasileira, que no caso será não sustentável e sem ordem, em prol dos produtos florestais que concorrem no mercado global e de mais espaço vital para os brasileiros em desespero.

Os professores David Suzuki e Peter Knudtson, publicaram em 1992, o livro “Wisdom of the Elders: Sacred Native Stories of Nature”, demonstrando que o modelo vigente em muitas culturas tradicionais é mais favorável à aprendizagem da biologia que o existente. Um dos exemplos apresentados é o de “med mesign” que significa “olho diferente” dos povos “Chewong” da Malásia, em que cada ser vivo vê o mundo através dos seus olhos.

O tigre vê-o à sua maneira, assim como o caracol, o lagarto e o homem. O “med mesign” refere-se assim, ao modo como cada um vê o mundo através da sua percepção. Os povos “Chewong” identificam-se com formas de vida semelhantes, revelando as suas obrigações morais nas suas atitudes e actividades quotidianas.

Num conto “Chewong”, uma família é constantemente perseguida por um tigre enfurecido. Bongso é o chefe espiritual e o herói dos “Chewong”. Possui a capacidade de ver no mundo de todos os outros seres, sem perder a perspectiva do seu. Pouco tempo depois, Bongso consegue salvar a família aterrada, empalando o tigre com uma armadilha feita de troncos aguçados bem enterrados na floresta. Na presença dos aldeãos, lança fumo sagrado sobre a cabeça do animal morto e pergunta-lhe: “Porque querias comer-nos?”. O tigre levanta a cabeça e, expelindo o último suspiro, responde: “Eu só via carne”. O tigre via a família em fuga com “med mesign”.

 Cada ser vivo homem ou tigre, vê a realidade à sua maneira. Os povos “Chewong” vêem carne nos animais selvagens que perseguem na floresta. O tigre devorador de homens olhava para as mães e para os filhos e só via carne. A nossa civilização só vê dinheiro. Tudo o que vemos é dinheiro. Entretanto as florestas são incendiadas, as crianças são maltratadas e as pessoas morrem de fome.

Que conclusão podemos tirar da biologia? E da ciência? Quais são as novas conclusões que se retiram depois dos estudos pelos cientistas dos organismos quase invisíveis do microcosmos? Os únicos seres produtivos são as cianobactérias. Esses génios verdes convertem a luz do sol em matéria orgânica e libertam gases para a atmosfera. Muitas delas são apanhadas pelas plantas.

A produtividade é um virtuosismo das bactérias, em especial das cianobactérias, de agora e de sempre. Em última análise, o produto nacional bruto (PNB) de um país só poder ser biológico, não industrial.

Sabemos que existem limites naturais ao crescimento de todas as populações. Isto não pode ser ensinado nas escolas quiçá, porque a nossa civilização diz-nos que os seres humanos dominam o planeta. E a civilização só vê dinheiro.

Sabemos que o sobrepovoamento provoca a destruição. Sabemos que provoca conflitos e outros comportamentos extremados. Sempre que existe um excesso de população entre os mamíferos, surgem comportamentos agressivos; até os herbívoros canibalizam os seus companheiros se forem sujeitos a um forte sobrepovoamento e morrerem de fome. Sabemos estas coisas. Porque nada fazemos? Porque os nossos pressupostos culturais contradizem estes conhecimentos.

Jorge  Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 28.01.2011
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