JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Hipótese de Gaia

“We need to love and respect the Earth with same intensity that we give to our families and our tribe. It is not a political matter of them and us or some adversarial affair with lawyer involved; our contract with Earth is fundamental, for we a part of it and cannot survive without a healthy planet as our home.”

Gaia – A New Look at Life on Earth

James Lovelock

 

Vladimir Ivanovich Vernadsky, foi um dos maiores cientistas russos. Célebre na Rússia, mas praticamente desconhecido no resto do mundo. Foi o fundador da geoquímica, biogeoquímica e radiogeologia, considerado como o pioneiro da mineralogia genética e um dos maiores cristalógrafos mundiais.

Detentor de um conhecimento quase enciclopédico, pode ser considerado um dos maiores pensadores da ciência moderna. No entanto, a contribuição mais valiosa do professor Vernadsky para a ciência moderna é sua magnífica teoria acerca da biosfera e da matéria viva, e eminentemente descrita no seu livro “"The Biosphere: Complete Annotated Edition” publicado em 1926, traduzido e publicado em inglês, em 1998, pela editora “Springer”.

O seu contributo para a ciências da Terra é muitas vezes comparada com a importância de Charles Darwin para a biologia, a tal ponto do famoso microbiologista Lynn Margulis, ter dito, que “Vernadsky fez para o espaço, o que Charles Darwin tinha feito para o tempo. O primeiro mostrou que toda a vida ocupa um lugar habitado, materialmente unificado, que é a biosfera, e o segundo demonstrou que toda a vida descende de um antepassado longínquo”.

O professor Vernadsky defendeu que a vida era um mineral orgânico complexo, a água dotada de animação. Substituía o termo vida por matéria viva. A gravidade puxa as coisas para baixo, mas a matéria viva empurra as coisas pela Terra além.

A biosfera era uma manifestação do Sol, na mesma medida em que o é das propriedades terrestres. Em 1944, escreveu que “As antigas instituições religiosas que consideravam que os seres existentes na Terra, em especial os seres humanos, eram filhos do Sol, estavam muito mais próximas da realidade do que aqueles que os encaravam como uma mera criação efémera, um produto cego e acidental da matéria e das forças terrestres”.

Apesar de tudo, na grande maioria do mundo científico continua a ser pomposamente ignorado. Simplesmente, porque as suas conclusões contrariam as nossas indignas hipóteses culturais. O professor Vernadsky estava à beira de criar um sistema universal teórico que representava a totalidade dos processos naturais, intelectual e social na Terra, como um método regular único planetário. As principais teorias da biosfera que com ela concorreram, são as teorias de James Lovelock e de Pierre Teilhard de Chardin.

A hipótese de “Gaia” ou “Geia” do professor James Lovelock, um dos mais categorizados ambientalistas mundiais, defende que a temperatura da superfície da Terra, a química dos gases reactivos, o estado de redução-oxidação e o pH da atmosfera terrestre são mantidos pelo metabolismo, comportamento, crescimento e reprodução dos organismos vivos.

A homeostasia é um ajustamento fisiológico em torno de um ponto fixo, assim como o controlo da temperatura do corpo nos mamíferos adultos é de cerca de 37º C, enquanto que a homeorrese, que é um conceito paralelo, diz respeito a um ajustamento à volta de um determinado ponto mutável, como a regulação na temperatura do embrião de um mamífero em desenvolvimento.

O termo “Gaia” ou “Geia” é o nome de uma aterradora deusa, considerada pelo professor Lovelock simplesmente, como uma bela palavra com quatro letras para denominar a Terra. É também “Ge” ou “Geu”, como no continente “Pangeu”, no satélite “Geos”, em geologia, ou geografia.

A adaptação ambiental de “Gaia” consegue-se em larga medida, devido à origem, ao crescimento exponencial e à extinção dos organismos. Toda a vida se explica pelos antepassados e se relaciona, em termos físicos, pela proximidade com as fases dos fluidos como a água e o ar à superfície da Terra. Os organismos que existem em comunidades, formam ecossistemas mutáveis que existiram desde o período Arqueozóico, entre 3900 a 2500 milhões de anos.

As interacções dos organismos, estimuladas pela energia solar, produzem e removem gases, de tal forma que a química dos gases não nobres, a temperatura e a alcalinidade são activamente mantidos dentro dos limites toleráveis à vida.

No seio desta estrutura conceptual, quer as ciências biológicas, quer as ciências físicas adaptam-se à análise da atmosfera e da história geológica da Terra. Particularmente pertinente é o papel desempenhado pelos microbiotas, bactérias, protistas e fungos na troca gasosa que se regista à superfície da Terra, e que envolve a reciclagem daqueles elementos químicos que são absolutamente necessários à vida.

A noção de “Gaia”, é o produto da imaginação viva de um químico inglês da atmosfera e do programa espacial internacional, que vem de longe. A composição da atmosfera terrestre assinala, sem margem para dúvidas, que o terceiro planeta está vivo, acompanhado pelos mundos quase secos de Marte (calotes polares de gelo seco – dióxido de carbono gelado) e Vénus, onde abunda o dióxido de carbono (CO2).

 Invoca-se a ciência fisiológica ou a magia para explicar a troposfera terrestre, bastante improvável, combustível e totalmente liquida quando comparada com Marte e Vénus. A hipótese de “Gaia” ao reconhecer este desequilíbrio atmosférico, optou pela fisiologia e não pelos milagres. Muitos académicos continuam a desconhecer que o valor dos textos científicos sérios sobre a hipótese de “Gaia”, publicados ao longo de quase meio século, e a possível contribuição da noção de “Gaia” para a integração de dados evolutivos, meteorológicos, sedimentológicos e climatológicos.

Infelizmente, outros textos sobre o mesmo tema, e os comentários histéricos do tipo “Nova Vaga”, que os acompanham, receberam da imprensa tamanha atenção e foram alvo de críticas tão controversas, que uma grande parte da ciência primitiva permanece desconhecida.

Apesar de uma visão da ciência dos sistemas do planeta ser fortemente aconselhável para as ciências da Terra no estado sólido, as referências ao nome de “Gaia” continuam a causar apoplexias em certos círculos científicos. É curioso e intrigante, se tivermos em consideração o amplo paralelismo destas duas perspectivas, no que diz respeito à compreensão dos processos terrestres.

Curiosamente, e apesar de não usar o termo “Gaia”, a Academia de Ciências dos Estados Unidos defende a mesma perspectiva, quando afirma que “é necessária uma nova forma de abordar o estudo dos processos terrestres, na qual a Terra seja considerada um sistema integrado e dinâmico, e não um conjunto de componentes isolados”.

A hipótese de “Gaia”, rejeitada por alguns que a consideram uma fantasia da “Nova Vaga”, foi mal interpretada pela comunidade científica, mas demonstra como as ciências da vida são essenciais para compreender o planeta. Uma parte do seu insucesso advém do facto de revelar que a teoria evolucionista, desenvolvida na falta de um conhecimento climatológico e geológico que está a avançar, é inadequada.

A hipótese de “Gaia” não é popular, porque muitos cientistas, desejosos de manter a sua actividade nos termos tradicionais, não gostam de se aventurar além das respectivas disciplinas, num mundo que na prática é multidisciplinar. Talvez seja necessário mais uma ou duas gerações, se o mundo ainda existir em condições habitáveis para o ser humano, para que a compreensão da hipótese de “Gaia” conduza a uma investigação séria e adequada.

A “Gaia” ou “Geia” é chamada de deusa da Terra, ou esta como único ser vivo. Tratam-se de expressões enganosas. É de rejeitar liminarmente a analogia de que “Gaia” é um organismo único, sobretudo porque nenhum ser se alimenta dos seus próprios resíduos nem recicla só, o seu próprio alimento, por muitas e diversificadas tecnologias que inventem.

Muito mais apropriado será o argumento, segundo o qual “Gaia” é um amplo ecossistema, um sistema interactivo, cujos componentes essenciais são organismos. “Gaia” é ruidosa. Se lhe déssemos a devida atenção, ouviríamos os 30 a 50 milhões de espécies diferentes dos nossos companheiros no planeta cantarem para nós.

A afirmação feita por muitos políticos de que, ao preservarmos a biodiversidade, podemos de certo modo preservar toda a vida do planeta, é apenas mais um exemplo da inabalável arrogância humana. A conservação das espécies é como afirma o professor Niles Eldrege, eminente paleontologista americano, sobretudo uma questão de estética.

É essencial para a nossa sobrevivência que conservemos o ecossistema global, o que significa que devemos conservar o melhor possível, os ecossistemas naturais do planeta. Não se trata de uma questão de sobrevivência da espécie (excepto no nosso caso).

É verdade que só os seres humanos que gostem da natureza é que sairão magoados, se o mocho das antigas florestas do Noroeste do Pacífico se extinguir devido à destruição do seu “habitat”. Seleccionar espécies individualmente e lutar pela sua sobrevivência é, em parte, um acto que advém mais da estética do que da economia.

Mas os grupos económicos interessados no derrube de árvores têm razão, quando acusam os defensores da conservação da natureza de não pretenderem salvar o mocho nem a própria floresta. A floresta, magníficas manchas de abetos e de outras espécies de árvores é responsável pelo “habitat”, pelo próprio ecossistema.

Embora a estética dos mamíferos fosse destruída, a verdade é que a sobrevivência estaria em perigo se grandes formas de vida se extinguissem para sempre. “Gaia” continuaria a prosperar, tal como acontecia antes de nos conhecer.

 

 Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 21.01.2010
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