JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Escassez da água

As repercussões de disponibilidade de água são um desafio maior que a segurança energética, pelo que nas actuais condições e na forma como se está a gerir esta grave situação, é bem possível que a água se esgote muito antes que os combustíveis fósseis. A China e a Índia estão diminuir o seu crescimento devido às limitações de água.

Esgotam-se as águas subterrâneas e reduzem-se os glaciares que alimentam os principais rios. Alguns estados americanos limitaram a retirada de água do subsolo, para uso agrícola devido às secas. A França, Alemanha e a Espanha tiveram que fechar dezenas de centrais nucleares devido à prolongada vaga de calor e ao pouco nível de água. As alterações climáticas são a causa determinante de todos estes acontecimentos, que têm efeitos relevantes no comércio nacional e internacional.

Os principais riscos específicos com o uso intensivo de água, residem nos sectores como a alta tecnologia, em que doze das maiores indústrias do mundo de semicondutores, se localizam na região da Ásia-Pacífico. A fraca qualidade envolve graves riscos para as empresas, que necessitam no processo produtivo de grandes quantidades de água extremamente limpa. Apenas duas empresas americanas, consumiram dez mil milhões de galões de água, em 2007, para fabricarem componentes de silício.

As indústrias engarrafadoras de bebidas não alcoólicas, representadas pelas maiores rivais como a Coca-Cola e a Pepsi-Cola, tiveram as licenças para o exercício de actividade, canceladas em alguns locais da Índia, relacionadas com a escassez de água. Todas as grandes empresas do sector da indústria de bebidas, sofrem uma grande oposição pública. O antagonismo estende-se igualmente, à água engarrafada.

Quanto à indústria agrícola, a diminuição em termos de disponibilidade de água, está a afectar os preços dos alimentos, como ficou demonstrado em 2009, pelo grande aumento no preço internacional do arroz causado pela seca na Austrália.

O sector agrícola consome cerca de 70 por cento da água no mundo. As empresas envolvidas em actividades industriais, devem criar medidas em concordância com as políticas governamentais de restrição ao consumo e desperdício de água, tendo em vista fazer face aos perigos da sua falta, como medir a pegada de água, contabilizando o consumo e o desperdício ao longo de toda a cadeia de produção.

É igualmente importante, avaliar os riscos físicos, regulatórios e de reputação, relacionados à pegada da água e acertar com as previsões de risco climático e energético da empresa; incluir a questão da água no planeamento estratégico e nas estruturas de gestão; responsabilizar os principais accionistas, (bem como as comunidades locais, organizações não governamentais, instituições oficiais, fornecedores e trabalhadores), como parte da avaliação do risco, planeamento a longo prazo e actividades de execução; mostrar e comunicar a adequada gestão do sistema aquífero e riscos associados.

Os investidores para melhorarem a compreensão dos riscos que correm as suas empresas, deviam avaliar a exposição das mesmas face ao risco da falta de água, exigir as indispensáveis informações quanto ao consumo, a inclusão dessa problemática nas suas estratégias para com as alterações climáticas e destacar tal questão nos custos de oportunidades negociais.

A fim de se conseguirem melhorias no que diz respeito à escassez da água no planeta, é urgente encontrar mais soluções e criar as correspondentes medidas. A falta de água é um problema fundamental em todos os países do mundo, e muitos sentem presentemente esse efeito, pelo que não existe desculpa para não o reconhecer ou pretender ignorar.

A ignorância como o pior dos males é fruto da arrogância ou orgulho, que não só atinge pessoas, mas reflecte-se nos países e instituições, que são governados por portadores de tal doença, altamente contagiosa.

Existem várias medidas que podem ser vantajosas, no sentido de preservar e poupar a água. Uma possível solução é o uso da tecnologia de dessalinização, que consiste na água salgada a filtrar, circular através de membranas no processo de eletrodiálise reversa e osmoses inversa. Este processo foi usado em cerca de cento e vinte países, desde a África ao Médio Oriente. Usando este sistema existem países, que actualmente estão a produzir uma média de cinco mil milhões de galões de água por dia.

Os Estados Unidos possuem 1220 centrais de dessalinização, em que a maioria se localiza em comunidades medianas. Actualmente, a dessalinização estendeu-se aos grandes centros urbanos, e os sistemas de osmoses inversa conseguiram melhorar em 2,5 por cento a água consumida, da fornecida nas cidades americanas, que é reciclada e de novo usada, e também a resultante das águas das chuvas, por via da utilização de bacias de retenção para águas pluviais, que tem a particularidade de evitar enchentes e inundações.

Tais inovações são económicas. A nível global instalar sistemas simples de reciclagem e filtragem das águas, seria uma tarefa relativamente fácil, que traria excelentes benefícios. Tais avanços, seriam um passo para a diminuição da escassez de água.

A poupança de água pode ser conseguida em pequena dimensão, passando pela melhor gestão do consumo nas nossas casas. Um das soluções é desenvolver e instalar nos países que sofrem invernos rigorosos, esquentadores mais eficientes.

Habitações antigas possuem um mau sistema de isolamento, pelo que o tempo necessário para aquecer a água num tubo ou chuveiro pode ser longo. Com tubos pré-aquecidos e melhor isolamento em todo o sistema, o desperdício não constituiria um problema, dado que a água quente sairia imediatamente do tubo. Se esta melhoria fosse imposta pelos governos e apoiada financeiramente, diminuiriam os custos de aquecimento.

Uma outra solução, de entre muitos, para o problema da escassez global de água, seria a negociação de novos tratados multinacionais, que determinem a forma de a partilhar. Existem muitos tratados sobre a matéria, mas nenhum consegue uma distribuição justa e equitativa. São tratados inúteis que provocam receio e preocupação entre os países, dado que os conflitos sobre os recursos de águas partilhadas, muitas vezes criam violência e tensão internacional.

No presente, as separações de águas de 260 dos maiores rios do mundo, são partilhadas por dois ou mais países. As reclamações daí resultantes, acumuladas, estimulam contendas, pelo que novos tratados regulamentariam a distribuição, para que áreas e países possuidores de abundantes recursos de água, não as possam usurpar.

O tratado repartiria a água segundo a escassez e necessidade da região, tendo em vista asseverar uma distribuição adequada. Um novo tratado multinacional seria extremamente vantajoso, para solucionar conflitos sobre as águas, reduzindo a tensão e inimizade entre os países.

Várias são as soluções necessárias para diminuir ou resolver a escassez da água que o mundo vive. Qualquer actividade que melhore o isolamento dos sistemas de aquecimento de água caseira, evite o desperdício, ou elabore tratados multinacionais, é importante e o planeta agradecerá, sendo nós os grandes causadores, mas também os principais beneficiários de um mal que aumenta diariamente. O mundo enfrenta um dilema sobre o abastecimento limitado de água, que se agrava sem importantes e urgentes alterações, cujas consequências serão lamentáveis.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 07.01.2011

 

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