JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Gestão insolente do planeta

“Three profound transformations are under way on Earth right now. Climate change is real and is pushing us toward managing the planet as a whole. Urbanization - half the world's population now lives in cities, and 80 percent will by midcentury - is altering humanity's land impact and wealth. And biotechnology is becoming the world's dominant engineering tool. Only a radical rethinking of traditional green pieties will allow us to forestall the cataclysmic deterioration of the earth's resources.”

Whole Earth Discipline

Stewart Brand

 

As florestas tropicais são um “habitat” para os seres humanos e um ecossistema importante em termos fisiológicos. Esse “habitat” está a ser destruído a um ritmo implacável. No entanto, nos países desenvolvidos tenta-se justificar a preservação das florestas tropicais, com base no frágil argumento de que são o lar de espécies vegetais e animais, e até de plantas das quais se extraem medicamentos naturais, sendo a maior farmácia do mundo.

Actualmente, mais de 150 medicamentos comercializados provêm de plantas, sendo 27 por cento procedentes de elementos das florestas. Os exemplos abundam. Os elementos colhidos e sintetizados do caramujo planta extinta, que se encontrava apenas na ilha de Madagáscar, devido à desflorestação, demonstrou elevar numa alta percentagem, as possibilidades de sobrevivência de crianças portadoras de leucemia.

As florestas têm a utilidade, na medida em que removem o dióxido de carbono da atmosfera. Mas fazem muito mais que isso, graças à sua capacidade de evaporar grandes massas de vapor de água, de gases e partículas que ajudam a formar as nuvens, as florestas servem para conservar a região fresca e húmida, na medida em que criam um toldo de nuvens brancas e reflectoras e atraem a chuva que as alimenta.

Todos os anos é incendiada uma zona florestal com uma superfície superior à do Reino Unido, e muitas das vezes é substituída por toscas explorações pecuárias, ou outras árvores que desertificam os solos como o eucalipto. Ao contrário das herdades nas regiões temperadas, rapidamente se desertificam, mais árvores são abatidas, e o terrível processo de destruir pelo fogo a pele da Terra contínua.

Parecemos não nos aperceber de que, cada vez que 70 ou 80 por cento de uma floresta é destruída, o resto não chega para manter o clima, e todo o ecossistema entra em colapso. O início deste milénio e século, apresentava devido ao abate de árvores, uma destruição de 65 por cento das florestas tropicais, e dado o ritmo actual de abate, calcula-se ter subido para cerca de 67 por cento no final deste ano. 

As florestas tropicais virgens são os ecossistemas, onde existe a maior diversidade biológica da Terra, sendo o “habitat” de 62 por cento da diversidade biológica do planeta. A continuação da destruição das florestas à cadência actual, não levarão muito tempo a desaparecer, deixando mais de mil milhões de pobres dessas regiões, sem meios de subsistência, num vasto deserto global.

É uma ameaça ainda maior, em termos de escala, do que uma guerra nuclear. Imaginemos, o sofrimento humano, os refugiados, o sentimento de culpa e as consequências políticas de um acontecimento desta grandeza. Regista-se numa época em que os países desenvolvidos, se defrontam com as surpresas e os desastres provocados pelo efeito de estufa, principal responsável pelas alterações climáticas, agravados pelo calor suplementar provenientes da destruição das florestas.

É neste cenário de calamidade, que se iniciou a décima sexta Conferência das 194 partes da “Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (na sigla inglesa, UNFCCC)” e sexta reunião das 192 Partes do “Protocolo de Quioto (sigla em inglês, COP16/CMP6)”, a 29 de Novembro, em Cancún, que terminará no próximo dia 10, envolvida num ambiente de pessimismo.

A cerimónia de inauguração começou com um discurso do presidente mexicano, que lidera o fórum, pondo ênfase no furacão que varreu o México no ano passado, nas inundações no Paquistão e os incêndios na Rússia este ano, sendo está última, uma das causas da subida dos preços dos bens alimentares de primeira necessidade, e quiçá de nova crise alimentar, como exemplos de incidência crescente de catástrofes naturais, provocadas pelas alterações climáticas e que afectam os mais pobres e vulneráveis. Fez um apelo aos negociadores para progredir no interesse dos seus filhos e netos, e o mundo tem a atenção depositada nesta crucial reunião.

O Prémio Nobel da Química de 1995, Mario Molina, diante de um fórum com a presença de cerca de vinte e cinco mil pessoas, entre elas, delegados de 194 países, tentou convencer os participantes na “COP16”, de evitar que o aumento da temperatura superior a dois graus, com um custo em termos do PIB mundial, entre 2 e 3 por cento.

A China e os restantes países de economias emergentes, apenas devem assumir o custo de redução de emissões, se os Estados Unidos o fizerem primeiro. Protelar uma acção, poderá implicar um custo gigantesco para as gerações futuras. É necessário que se chegue a consenso e se atinjam acordos efectivos e, ao mesmo tempo, procurar uma global de redução de emissões em poucos anos, dado não ser possível o planeta esperar uma década mais. Mário Molina é um especialista experiente nos processos que causam o aquecimento global e assessor em matéria do ambiente do presidente mexicano.

O presidente do “Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (na sigla inglesa, IPCC)”, assinalou que nos próximos anos, depois dos efeitos da acção do ser humano sobre o clima, o impacto dos desastres naturais serão provavelmente mais severos, sobretudo para os países mais pobres. Nem a adaptação nem a mitigação “per si”, poderão evitar os impactos das alterações climáticas, e confia que a “Cimeira de Cancún” represente um passo significativo na luta contra o aquecimento global.

Os especialistas e outras importantes personalidades na luta contra as alterações climáticas têm poucas esperanças de que a Cimeira, termine com a assinatura de um acordo satisfatório, depois do fracasso da “Cimeira de Copenhaga”. Há quem defenda a possibilidade de suficiente margem de manobra, para criar as bases que permitam a celebração de um futuro tratado sobre a protecção do meio ambiente, que finalmente substitua de maneira efectiva o moribundo “Protocolo de Quioto”.

Os sucessivos falhanços na resolução do maior problema que o ser humano e o planeta vivem, até agora registados, independente da sorte da “Cimeira de Cancún”, que por negociar “in extremis”, pode fazer criar um acordo mínimo, que viabilize a continuidade das negociações, tendo em vista um acordo mais alargado e profundo.

Este historial de negociações faz retirar a ilação, que é a moral de olharmos para o planeta como um superorganismo, teremos de certificarmo-nos de que não nos espera outra surpresa qualquer, que nos provoque outros malefícios inesperados, ou seja, uma surpresa tão grande, como aquela com que se confrontaram os habitantes da imaginária Atlântida.

Todos querem ser gestores, e talvez seja por isso que falamos em gerir todo o planeta. Conseguiremos, graças a um acto de vontade comum, alterar a nossa maneira de ser e tornarmo-nos gestores eficientes, cuidando de toda a vida natural existente no nosso planeta?

Somos demasiado insolentes para fazermos esta pergunta, ou para pensarmos que temos como missão cuidar da Terra. Esperemos que esta “Cimeira de Cancún” contrarie este pensamento.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 03.12.2010

 

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