JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

China, crise e glória

FELIZ  61.º ANIVERSÁRIO DA REPÚBLICA POPULAR DA CHINA

“Desperate to prove that “Created in China” can coexist with, or even supersede, “Made in China,” PRC legislators have turned to promoting cultural production in ways that are markedly different from the political orientation of the Cultural Revolution. Intensified rivalry among regions for trade and investment is a prominent feature of the new geography of work, and it is more and more institutionalized in the competition to host mega-events-none more monumental than the Olympics.”

Nice Work If You Can Get It

Andrew Ross

  A 2 de Dezembro de 1949, na Quarta Sessão da Comissão do Governo Popular Central, foi declarada a celebração, desde 1 de Outubro de 1950, do “Dia Glorioso da Implantação da República Popular da China (RPC)”. A RPC, comemora amanhã, o 61.º aniversário do seu estabelecimento.

O primeiro-ministro chinês, durante a reunião de abertura da terceira sessão, da 11.ª Assembleia Nacional Popular (ANP), que se realizou, no Grande Palácio do Povo, em Pequim, apresentou, a 5 de Março, o relatório de trabalho do governo. Este relatório de trabalho, no seu formato, é uma mescla do discurso sobre o “Estado da União”, apresentado pelo presidente dos Estados Unidos, e da proposta de orçamento, no “Parlamento”, apresentada pelo primeiro-ministro, no Reino Unido.

Aquando da sua apresentação, o primeiro-ministro chinês, defendeu a ideia de que face à crise global sistémica, o ritmo de reacção da economia, continuava a ser deficiente, e que existiam riscos encobertos no sistema bancário, que impunham urgentemente, a diminuição em maior grau, das tendências especulativas, ligadas ao apogeu em termos de preços e ganhos do mercado imobiliário, quer no uso para fins residenciais, quer para fins comerciais.

O primeiro-ministro teve de usar, e bem, de algumas estratégias psicológicas, para aquietar o desassossego presente, sobre uma possível bolha inflacionária, ou uma recuperação débil, daí ter afirmado aos três mil delegados presentes, que não deveriam tirar ilações, quanto à reacção económica face à crise, no sentido de ser interpretada, como uma melhoria definitiva da situação.

Trata-se de uma visão realista, uma vez que a trajectória apontava para uma desaceleração no crescimento, aumento da inflação e do desemprego, e que posteriormente, os dados económicos vieram a confirmar. Defendeu ainda, que o esforço de todos os intervenientes económicos a nível interno, não tornava possível atingir um crescimento auto-sustentável, e para ser alcançado este ano, a meta de crescimento de 8 por cento do PIB, era necessário que o governo, protegesse uma política de controlo, no plano fiscal e no domínio monetário, ou seja, com o significado de que o plano aplicado desde Outubro de 2008, contava com um programa de incentivos de quase 600 mil milhões de dólares.

A China ultrapassou a queda no crescimento, no último trimestre de 2008 e início de 2009, e voltou a crescer, arrastando os bancos, todos estatais, e o crédito estrutural, o que contrastou com os Estados Unidos, União Europeia e Japão, em que os dois primeiros, tentam sair da crise sem grandes sucessos palpáveis, onde se pode vir a juntar o Japão, que saiu da recessão há pouco mais de um ano, dado que a 15 de Agosto, e segundo os dados divulgados pelo governo japonês, a economia do país cresceu 0,4 por cento, ao ritmo anual, e 0,1 por cento em relação ao trimestre anterior, o que representa um aumento moderado, em relação ao trimestre de Janeiro a Março, que foi de 4,4 por cento e 1,1 por cento, respectivamente.

O primeiro-ministro chinês ao assinalar os riscos da recuperação, não deixou de frisar, que o país continuaria com as mesmas políticas monetárias e incentivadoras de carácter expansivo. Não obstante, acrescentou, que tudo seria feito, para evitar o perigo de reaquecimento da economia, e seriam se tal fosse necessário, aplicados rígidos controlos, sobre o investimento directo externo (IDE, em inglês FDI).

A China erradamente considerada a fábrica do mundo, que comummente faz deslocar indústrias a nível global, por diversos factores, em que sobressai a mão-de-obra barata, que devia ter consequências, nos países desenvolvidos onde as empresas são deslocalizadas, e em que a sua demonstração prática, seria vivenciada, num desemprego persistente, que ainda não conseguiu encontrar soluções que o apazigúem, pese o esforço. A esse desemprego nos países desenvolvidos, teria como outra face da moeda, um emprego pleno e sustentado na China.

Um relatório recente dado a conhecer pelo governo chinês, indica que a população activa do país, é superior a mil milhões pessoas, mas só cerca, de setecentos e oitenta milhões estão empregados, o que significa, que a taxa de desemprego é superior a 22 por cento, sendo olimpicamente maior, que a de qualquer país desenvolvido, ou em desenvolvimento, de economia emergente, fazendo ruir a tese da maravilha da globalização e do capitalismo neoliberal selvagem ou anárquico, retratado pelo Professor Milton Friedman, e referente ao modelo de Hong Kong, no seu livro “Freedom to Choose”, e cuja sua teoria monetarista, tem exercido profunda influência, no presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos. 

O governo chinês, reconheceu que a situação é extremamente séria, e pode ter consequências sociais imprevisíveis, dado que a sociedade é forte, e tem capacidade para actualmente a expressar. O partido comunista tem consciência de tal facto, pois foi, quem concedeu esse poder, em particular aos camponeses, no período da revolução.

O partido comunista, sabiamente, tem apresentado à sociedade, um projecto que passa por uma identidade nacional sólida, tendo por base a gesta da revolução, incluindo identidades locais e insertas numa área globalizada, nascida da aceitação do capitalismo, pelas migrações, pelas comunidades de chineses no exterior, e pela revolução digital.

Quanto às migrações, sempre foi necessária uma autorização do governo para a deslocação do campo para as cidades, e que foi usada pelo governo para impedir a desertificação humana dos campos, ou êxodo rural, tendo em vista garantir a produção de alimentos, necessários ao consumo, do país mais populoso do mundo.

A China com tal taxa de desemprego, agravado pela falta de protecção social, e acrescida da pressão gerada pela fatal atracção das cidades, sobre o campo pobre e com falta de emprego, faz elevar os riscos sociais exponencialmente. Daí que o governo têm intenções, de elevar a percentagem de autorizações de migração, do campo para as cidades, em cerca de 8 por cento, do total da população.

Será difícil ou mesmo impossível, os novos migrantes, encontrarem emprego, indo juntar-se aos desempregados crónicos existentes, e aos que perderam emprego por força do encerramento ou diminuição de postos de trabalho, de empresas estrangeiras, privadas e estatais, por força da crise económico-financeira global, vivendo em existentes “bidonvilles”, das grandes cidades do litoral. A grande questão, é a de saber, se tal número de autorizações, são o bastante, para diminuir a pressão socioeconómica no campo.

A China, pode ver aumentada rapidamente a taxa de desemprego, pela diminuição do consumo dos Estados Unidos e União Europeia, para níveis superiores, que tudo aponta nessa direcção, ao desinvestimento, e fazer face à fuja de uma percentagem significativa de IDE, para países que oferecem melhores condições à produção, como o Vietname.

A revolução comunista chinesa não finalizou. A sociedade reclama por mais direitos e poder. O partido comunista, inteligentemente, tem feito as reformas e satisfeitas as reclamações, com medidas que vêm do seu interior, e não resultam de pressões ou explosões sociais. O partido comunista irá continuar a responder a tais reptos, dado a revolução, ter constituído os alicerces das ligações entre o partido e a sociedade. Existe uma linguagem comum, de identidade, que liga a sociedade e o partido, e que são a razão compreensiva da homogeneidade e coesão do país.

O Índice de Preços ao Consumidor (em inglês, CPI), segundo o Escritório Nacional de Estatística da China, revelou que em Agosto, se deu uma subida de 3,5 por cento, em comparação com mesmo mês do ano passado, traduzindo um aumento significativo, nos preços dos alimentos, sendo a maior subida desde Outubro de 2008. Em Julho, a inflação tinha subido 3,3 por cento. 

A desaceleração do Japão no segundo trimestre, devido à diminuição das exportações e consumo interno, e contrastada pela China, que continua o seu veloz crescimento, com vista a tornar-se, na segunda potência económica, a seguir aos Estados Unidos.

O valor do PIB japonês no referido período, em termos nominais, foi inferior ao da China. A economia chinesa, cresceu no dito período, 10,3 por cento, e prevê encerrar o ano, com um aumento superior a 9 por cento, tendo em 2009, apresentado uma diferença em relação ao PIB japonês, de cerca de nove mil milhões de dólares.

É de esperar, que a China, passe efectivamente a segunda potência económica mundial no final do ano, em virtude do Japão, fazer face a uma crise política, estar sujeito a medidas de incentivo económico, ter uma colossal dívida pública, igual a 200 por cento do PIB, e uma previsão de crescimento abaixo dos 3 por cento, no final do ano.

A China apesar da enorme taxa de desemprego, diminuição do crescimento e subida da inflação, comemora o seu sexagésimo primeiro aniversário, com a excelente, única e maior de sempre Exposição Universal ecológica de Xangai, dedicada ao tema “Melhor Cidade, Melhor Vida”, e à previsão de se transformar na segunda maior economia do mundo.

 

Jorge Rodrigues Simão, in "HojeMacau", 30.09.2010
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