JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Alterações climáticas (1)

A décima quinta Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas de 2009, também denominada de Conferência de Copenhaga ou Cimeira de Copenhaga (oficialmente United Nations Climate Change Conference ou COP15), realizou-se entre 7 e 18 de Dezembro de 2009, em Copenhaga, na Dinamarca.

Esta cimeira, organizada pelas Nações Unidas, reuniu os líderes mundiais, tendo em vista encontrarem uma forma de reagir contras as alterações climáticas (aquecimento global) actuais.

A Cimeira de Copenhaga deve ser valorizada, dado ter sido mais outra grande oportunidade de reconduzir uma situação em que a incapacidade de conciliar interesses de todo tipo, lança a nosso sofrido planeta para um desastre mais do que anunciado.

Entendemos que somar esforços às soluções possíveis é uma responsabilidade inevitável, uma vez, que a decepção, a impossibilidade e a pobreza de esforços e meios, esboçam uma sombra cada vez mais alargada, que pode complicar enormemente a consecução de objectivos mínimos de sustentabilidade.

Medidas dirigidas à redução e eliminação de impactos negativos sobre o meio ambiente, ganham maior valor no âmbito de macro iniciativas, como foi a Cimeira de Copenhaga, porque encorajam e auxiliam as disposições e condutas individuais e colectivas, que são determinantes na luta contra as alterações climáticas.

A participação de Estados Unidos, independentemente dos compromissos que finalmente pudessem vir a ser adoptados, não deve relativizar-se a 1990, mas valorizar pelo esforço na tentativa de se encontrar um acordo para o futuro pós Quioto. A presença dos países mais emissores em termos de poluição, espelhou um avanço fundamental quanto à sensibilização.

A Cimeira de Copenhaga foi uma reunião de pastores com uma ovelha morta? Este dizer, quer referir-se ao facto de quando a sociedade, actualmente globalizada, anteriormente se dedicava, de corpo e alma à obtenção de recursos primários que a natureza concebia, fosse na pecuária, agricultura ou pesca.

Era ainda, tido por falso o conceito de que o planeta era inesgotável, e o que o ser humano pudesse fazer, não iria mudar rapidamente os processos naturais inerentes ao globo terrestre.

O desenvolvimento social, industrial e económico foi tal, pelo menos, no "primeiro mundo", que a ideia da Terra inesgotável, foi desaparecendo nas últimas décadas. Presentemente e, salvo no caso de algum milagre, todos temos uma clara percepção, de que o actual desenvolvimento económico das sociedades não é sustentável.

O que era possível esperar daquela reunião de pastores? Pouco e não se trata de intuição, mas porque a experiência, após anos da formalização dos compromissos de Quioto ou do Rio de Janeiro, provou os escassos avanços realizados.

Algo foi feito, mas o fundamental continua a ser pouco, principalmente o envolvimento dos países, num dos maiores problemas que a humanidade tem de fazer face, e que paulatinamente se tem vindo a agravar. Não se trata apenas de prometer ou de comprometer com uma redução, por ora, sempre aparente, das emissões de dióxido de carbono (CO2). Este facto é apenas a ponta do iceberg.

O compromisso de um mundo sustentável é bem maior. Inclui também, o equilíbrio dos países ricos com os pobres e a cedência dos primeiros, para que os segundos possam, pelo menos, sobreviver.

Os países não são entes sem pés nem cabeça. São compostos por pés e cabeças reais; os pés precisam de ser calçados e as cabeças sonham que um dia terão tudo o que têm os países ricos.

O problema é que apenas uma pequena percentagem dessas cabeças, e somente nos países ricos, conseguirão realizar os seus sonhos, muitas vezes à custa daquelas outras que, por nascer onde nasceram, não terão essas oportunidades. Assim, a ovelha está a ser morta por todos.

Existe a necessidade de reconhecer, que são os países desenvolvidos, são os que espetam a faca com maior tenacidade e precisão, fazendo crer que são os demais países que realizam esse desagradável trabalho.

 O melhor que pode ser feito para salvar o planeta, passa pela responsabilidade individual de cada cidadão, independente do país, começando pelo local onde vivemos e alargando o circulo de actuação, porque a forma de entendimento que resulta destas cimeiras, entre países tem sido bem parco, e o receio é de que os pastores falem muito mais ainda da ovelha, sem encontrarem medicamentos certos para que a sua morte se não dê. Alegremo-nos porque o animal, ainda que mal, continua a respirar.

As alterações climáticas, são um dos maiores desafios que enfrenta a humanidade e, por isso, ocupa um lugar de primazia nas agendas políticas dos principais líderes mundiais. A Cimeira de Copenhaga tinha-se convertido ilusoriamente, numa meta de fundamental importância para a adopção de decisões urgentes com vista a tal luta.

Em 1988, o candidato à presidência dos Estados Unidos, George Bush, prometeu ser um presidente ambientalista. Depois de eleito, cedo revelou que as suas afirmações eram de um oportunismo político grosseiro.

Na mesma altura, o primeiro-ministro canadiano, Brian Mulroney, descobriu bruscamente que o ambiente era uma prioridade. Quando foi reeleito em 1988, nomeou para ministro do Ambiente uma pessoa de grande prestígio, Lucien Bouchard.

Pouco depois da sua nomeação, numa entrevista foi-lhe perguntado, qual era o seu mais sério desafio. Respondeu, imediatamente que era o aquecimento global. Foi-lhe feita nova pergunta, acerca de qual a gravidade da situação. Contestou, que se tratava da sobrevivência da espécie humana. Nova pergunta, sobre se o seu governo iria cancelar todos os megas projectos no domínio da extracção do petróleo e do gás natural, e se iria concentrar-se na conservação dos ecossistemas e nas energias alternativas.

A sua resposta foi chocante, ao afirmar, que não podiam anular o passado. Tinham feito promessas políticas, que tinham de cumprir. Era uma pessoa inteligente e bem intencionada. Consciente de que o aquecimento global ameaçava a nossa sobrevivência, mas não integrava essa crise nas suas prioridades políticas.

A sua capacidade para defender requisitos totalmente contraditórios, é prova de como a maioria dos políticos compartimentam as suas vidas, e vêm o mundo como um monte de fragmentos desconexos.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 03.09.2010
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