JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

O efeito de estufa (2)

“We should love market pricing in the same way that an environmentalist loves a tree. Without trees, we would not have shade, oxygen, building materials, and so on. Without prices, we would have nothing to guide our productive lives.”

The Econosphere

Craig Thomas

Se uma bolha tem um tempo de existência que se prolonga por décadas, seria muito difícil um exercício imaginativo em termos de opções. A malignidade produz-se num determinado momento de pressões e instabilidade, entre o interior daquela e a ampla realidade externa, concebendo a crise. Sendo uma excepção e por consequência uma anormalidade, não pode prolongar-se indefinidamente.

A revolução industrial era um tipo de bolha que resistiu mais de duzentos anos e foi-se transformando e renovando ao longo desse período. Os resultados foram positivos e são incontestáveis, como a esperança de vida que duplicou e a educação e consequente alfabetização nas economias centrais e suas colónias, passou de 18 por cento para 91 por cento.

Mas, mostrou também a sua face daninha, que continha perigos ambientais, resíduos tóxicos, exaustão de combustíveis fósseis, marginalização, miséria e estímulo ao consumo, que passa a ser deificado. As duas últimas situações aumentaram a linha de separação, entre os ricos e as restantes classes da sociedade, pelo que o exterior da bolha não passou de uma verdadeira verdade.

Nessa óptica e apesar das consequências positivas da era industrial, os custos casuais podem tornar a bolha centenária insuportável. Existem indícios de que os investimentos e incentivos praticados, não se apresentarão no futuro, como esforço das anteriores gerações. No exterior da bolha, a realidade é distinta, mais prometedora, mas solicita o abandono das ideias e rotinas do passado.

A alteração climática a nível global é uma das muitas causas nefastas, que vêm desde o começo da revolução industrial, apresentando duas situações particulares; a dos presentes e futuros custos gigantescos e o de consagrar sinais reais do limite que pode atingir o desequilíbrio entre o ser humano e a natureza, sendo necessário impor urgentemente readaptações, antes que seja tarde de mais. O efeito de estufa, a partir dessa perspectiva, é um aviso prematuro de alarme do termo de um tempo histórico.

Acham-se outros sinais, numa vasta série de exemplos ponderados, que podem ser reduzidos a um facto essencial, o dos níveis de emissões causados pela actividade humana, darem origem à produção de monóxido e dióxido de carbono entre outros, acrescentado de um novo poluidor, o trifloro de nitrogénio empregue em massa nos ecrãs de cristal líquido, terem aumentado de forma exponencial, desde os finais do passado século. O nível de dióxido de carbono é quase 40 por cento superior ao de qualquer período histórico nos últimos quinhentos anos. A diferença reside entre a quantidade de dióxido de carbono existente na atmosfera e o volume de emissões adicionais por ano.

Tal situação, originou confusão, por se pensar que equilibrar esse volume conforme estabelece o protocolo de Quioto, servia para solucionar as dificuldades existentes. O presente volume de emissões anuais de dióxido de carbono é de cerca de 8 mil milhões de toneladas, o que representa quase o triplo do extraído por meio da biomassa ou diluído no oceano.

A diferença das trocas entre o solo e a atmosfera de dióxido de carbono em modelos atmosféricos estudados, indicam, que num determinado instante, a concentração não terá retorno. Não é possível ainda determinar o momento, mas a liquefacção de glaciares ou calotes polares e o calamitoso desequilíbrio climático são claros indícios.

Poderiam prevenir-se muitos riscos, diminuindo de forma rápida os níveis de emissão, para um valor igual ou superior ao de penetração na atmosfera, calculados entre 55 por cento e 80 por centro de emissões, entre o corrente ano e 2028. É o repto que se pode propor à sociedade pós-industrial.

Qual o êxito alcançado para fazer face à crise provocada pelas repentinas alterações climáticas? No fim do século passado, os combustíveis fósseis consumidos pelos Estados Unidos produziram cerca de cinco toneladas de dióxido de carbono por habitante, num total de volume de emissões de 1,6 mil milhões de toneladas.

A China passou esse valor sendo os custos relacionados com o efeito estufa consideráveis. Uma das mais apreciadas organizações não-governamentais, publicou em 2007, o primeiro estudo revelador dos efeitos financeiros causados pela poluição atmosférica nos países subdesenvolvidos, que originou secas, inundações, colheitas dizimadas, extinção de espécies animais e vegetais, falta de água e doenças. Os prejuízos totais ascenderam ao inimaginável valor de 52 mil milhões de dólares anuais.

Nos países desenvolvidos, os seguros subiram entre 10 por cento e 500 por cento, espelhando os efeitos dos ciclones, cheias e outras situações provenientes das alterações climáticas.

No Reino Unido, em 2006, foi dado a conhecer um relatório sobre os efeitos económicos do fenómeno climático, que recomenda agir de forma radical, sob pena dos efeitos de sobreaquecimento global, virem a ser dramáticos, comparado ao somatório das duas grandes guerras mundiais e da crise económico-financeira de 1929.

No actual sistema industrial e com as presentes formas de gestão não é possível atingir os valores pretendidos. Torna-se necessário proceder a profundas alterações, a começar pelas mentalidades, traduzida na forma de pensar das pessoas, o que leva nos mais recentes estudos sobre a matéria, no mínimo 30 anos para produzir efeitos. Estes estudos realizados por universidades dos países escandinavos, tem como base pessoas mentalmente sãs, num mundo em que não contando com os efeitos da crise sistémica internacional, 62 por cento das pessoas sofre de problemas psicológicos e mentais, e desses, menos de 5 por cento se encontram despistados e menos de 0,75 por cento estão em tratamento.

É ainda, de se considerar as modificações nos tipos de combustíveis ou energia, sobretudo nas economias centrais e emergentes. Por tais razões, a inovação básica será determinante. É urgente reflectir e reformular disposições, tecnologias, estruturas e a ligação entre os seres humanos e a natureza, o que parece ser impossível, dado que desde o tempo da maçã e da serpente, os primeiros não se entendem.

Avançar para lá da bolha centenária, não significa retroceder a uma sociedade pré-industrial, pelo contrário nascerão ideias, hipóteses e princípios diversos. Existe na natureza, por exemplo, a energia hélio como uma opção futura. Sair da bolha, só é possível se passarmos a viver com os nossos rendimentos e recursos em matéria de combustíveis e energia como resultante de fonte solar, eólica, maremotriz, hídrica e outras renováveis. A diferença dos combustíveis fósseis é não produzirem poluição atmosférica ou resíduos perigosos.

O mundo pós-bolha apresentará automóveis, telefones móveis, computadores, edifícios, electrodomésticos, entre muitos outros bens, 100 por cento recicláveis e terá outros comportamentos face às rupturas sociais internas e entre os países com maiores e menores desigualdades na distribuição de rendimentos, num mundo cada vez mais interdependente, o que é impossível se 90 por cento dos rendimentos mundiais continuasse a ser pertença de 10 por cento da população do globo.

Os governos, instituições e empresas têm de reconhecer a necessidade de deixar uma biosfera sustentável às gerações futuras. A época pós-bolha vai impor inovações a uma dimensão e a uma cadência desconhecidas. Tal, como na primeira revolução industrial, o sector privado deve ter um papel categórico. Especialmente, modernizando estruturas, modelos de gestão e formas de negócios. Sem qualquer margem de dúvida, a vida melhorará fora da antiquada bolha.

Jorge Rodrigues Simão, in "HojeMacau", 13.11.2009
Share

Pesquisar

Traduzir

ar bg ca zh-chs zh-cht cs da nl en et fi fr de el ht he hi hu id it ja ko lv lt no pl pt ro ru sk sl es sv th

Azulejos de Coimbra

painesiv.jpg