JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Decisões limitativas do futuro (2)

“Effective uncertainty management requires effective understanding of uncertainty. Efficient uncertainty management requires an effective process for sorting out which aspects of uncertainty need to be understood at a deeper level than that currently available, and which aspects are not worth the bother.”

Chris Chapman and Stephen Ward
Managing Project Risk and Uncertainty
A Constructively Simple Approach to Decision Making

Que tempo vivemos? A queda do muro de Berlim, comemora o seu vigésimo aniversário no dia 9, e fez pensar que significaria o aparecimento de um novo ciclo político, económico e social, que constituiria o triunfo de uma ordem mundial mais democrática e transparente. Tal idealismo, desvaneceu-se nas sombras de um mundo, paulatinadamente, mais desacertado.

Evento que tem o seu simbolismo, antecipadamente preparado, e que constituiu o sinal de viragem na história mundial, quer como factor geopolítico pela reunificação das duas Alemanhas e o início da desagregação da União Soviética, quer como factor metafórico com o fim da Guerra Fria e da bipolarização do poder entre as duas super potências, e da definição dos marcos entre os adversários do mundo.

A partir da queda do ícone, o campo artificialmente criado da Guerra Fria fragmentou-se e era de pensar num “momentum” de mudança na história, tendo como referência os novos processos económicos e sociais que se entreviam.

No final da década anterior, surgiam assinaladas propensões de alteração, como a mundialização das trocas comerciais e a competição pelo mercado, expansão de redes de informação a nível mundial, desmoronamento das grandes ideologias existentes, aceleramento dos episódios transmigratórios e a fraqueza de abundantes pilares de referência que criaram, num período limitado, o grau de incerteza das presentes sociedades.

Na primeira década do século XXI, que vivemos, estes fenómenos de mudança, não adquiriram um formato absoluto e, aquém de deparar uma medida de estabilidade, o seu crescimento produziu maior insegurança e incerteza.

Vivemos uma transformação inacabada, que caracteriza a transição de uma ordem económico-social sabida, com uma dilatada margem de equilíbrio e suposição, para um paradigma global de comércio, ainda indeterminado, com orientações e fracturas provocantes.

Vivemos um tempo peculiar da história mundial, em que não apenas se estão a alterar verdadeiramente alguns métodos, mas está a mudar a forma, na qual se originam as transformações.

A resposta à questão inicialmente posta, poderia ter uma resposta simples se fosse dada há algumas décadas. Presumivelmente, os dirigentes governamentais e empresariais, em ocasiões de tomada de relevantes decisões para os fins estratégicos do desenvolvimento das suas estruturas institucionais, defrontavam-se com um cenário de variáveis mais transparentes na sua área de actuação e maior previsão sobre a sequência dos processos económico-sociais.

No presente, a perceptibilidade acerca da ocorrência futura dos factos a nível regional e global é uma pura ilusão. O século e milénio iniciam com um período de mudança histórico devido à concentração de profundas alterações que se produzem simultaneamente em diversas grandezas. Na mudança, torna-se clara a relevância da produção industrial como ponto de partida da modificação económica, mas é inconstante a meta final e o efeito quanto ao crescimento.

Há mais de duas décadas que os líderes mundiais propõem um momento histórico de alteração e até ao presente não se vislumbra, qual os rumo da mudança, pelo contrário, diariamente alargam-se as cortinas do palco, tornando mais complexo o cenário pretendido de uma nova ordem mundial.

Os líderes nos tempos de decisão, confrontam-se com um futuro que se desata em muitas situações possíveis, que coexistem na mesma área política, governamental ou empresarial, sem existência de soluções para resolução dos acontecimentos.

No cenário das decisões hábeis, a insegurança deixa de ser um factor de mudança para fixar-se como um situação dinâmica, onde as equilíbrios serão momentos efémeros de uma instabilidade sistemática e contínua.

A paz do sabido está a diminuir e nas margens da estabilidade, coexistem condições contraditórias, incoerências, convergências, rupturas, entre outros processos, que inserem as modificações no modo de vivência.

Nesta fase de mudança incompleta, a importância do aumento da complexidade no presente, leva a reflectir se a inconstância, com suas dicotomias e roturas, será ou não uma situação duradoura e os equilíbrios serão ou não períodos breves, onde os dirigentes poderão vislumbrar um cenário mais límpido no meio da agitação.

Encaramos um mundo repleto de desafios, que nunca iremos conhecer na sua completude. O sonho da ordem, como nos tempos passados, permaneceu entre os escombros do muro de Berlim ou na representação arrebatada do labirinto.

Em cada decisão do momento histórico que vivemos, estamos a limitar o futuro. O esboço do futuro subordina-se às acções que tomarmos no presente. Os processos costumados para delinear o futuro dependem, geralmente, no planeamento do sabido sobre o ignorado. Mas, a extensão da complexidade no presente, demonstra que esta prática clássica não é correcta porque tem que ver com a transferência de construções estabelecidas sobre uma área, que é apenas uma imagem imperfeita de uma vasta superfície de condições realizáveis.

Os dirigentes têm por hábito ser actores do seu filme. As organizações coabitam dentro de um arquétipo vago da realidade, determinado com informação recolhida e depurada a partir de entendimentos, práticas e sensações exclusivas dos seus dirigentes.

A dificuldade surge quando não se moderniza o catálogo da realidade e, face às limitações do seu modelo, surge a incerteza e a imperfeita aptidão para actuar na inconstância.

O talento e visão que tiverem os dirigentes em termos de alargamento da sua perspectiva estratégica, melhorando os seus recursos, com vista a delinear e administrar habilmente as suas acções, pertencerão sempre à sua forma de dirigir e aperfeiçoamento face ao mercado existente.

Os dirigentes soem ser os guias do seu despropósito, quando permanecem amarrados dentro do seu filme, observando um mundo complicado e mutável, como se tratasse de uma foto ilustrada.

Não só a contemplam, como uma representação imóvel, assente no passado, contendo um abreviado número de actores, acrescido do facto de praticarem a observação, a partir de uma única perspectiva.

Quando determinam actividades a partir dessa visão, a realidade tem fatalmente outras limitações, pois, os actores alteraram-se e a realidade passou a ser outra, tornando-se antiquando o momento sobre o qual se formou a decisão.

O suporte competitivo para coabitar na inconstância, exige a necessária criação de um novo modelo de organização, que possa compreender estruturas seguras e dinâmicas, que atestem uma autêntica prática rentável e previsível, de forma a permitir a inovação e a competitividade.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 23.10.2009
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