JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

O grupo dos dois (1)

“We are living through the end of a phenomenon … christened Chimerica. In this view, the most important thing to understand about the world economy over the past 10 years has been the relationship between China and America. If you think of it as one economy called Chimerica, that relationship accounts for around 13 percent of the world's land surface, a quarter of its population, about a third of its gross domestic product and somewhere more than half of global economic growth in the past six years.”

Niall Ferguson

Nos últimos dias de Julho nasceu o G-2, composto pela China e Estados Unidos, que confirma o pensamento que leva o termo de Chinamérica desenvolvido pelos Professores Niall Ferguson e Moritz Schularick da Harvard Business School e da Free University of Berlin, respectivamente, no texto conjunto, publicado a 27 de Dezembro de 2007, no jornal International Finance com o título Chimerica and the Global Asset Market Boom, renovado pelo primeiro, no texto Rough Week, But America's Era Goes On, publicado no jornal Washington Post, a 21 de Setembro de 2008.

Mais, do que um novo conceito explicativo do papel da China na economia e finanças americanas e da sua contribuição para o despoletar da crise por via indirecta, a ser introduzido nos dicionários e enciclopédias, trata-se de uma realidade factual no plano económico, financeiro, político e geoestratégico, numa primeira etapa, que teve o seu termo e numa segunda, do nascimento de uma nova visão de cooperação entre os dois países e de uma reapreciação do modelo de mundo multipolar.

 

O economista Thomas Friedman, no texto China to the Rescue? Not, publicado a 20 de Dezembro de 2008, no jornal The New York Times, começa com um exemplo sugestivo da produção em massa de quadros na cidade de Dafen, ao Norte de Hong Kong, conhecida como o centro mundial de produção e exportação de arte barata, cuja Wal Mart era a maior cliente.

A produção em série é uma realidade para os cerca de 10 mil habitantes da cidade, que na sua maioria vive desse anómalo comércio, tendo o subchefe da Associação da Indústria de Arte de Dafen, dado uma entrevista ao jornal Sunday Morning Post, afirmando que quanto mais casas eram construídas nos Estados Unidos, mais paredes necessitavam das suas pinturas e que o negócio tinha-se estagnado depois do colapso do mercado imobiliário do Ocidente.

Thomas Friedman, defende igualmente o fim da Chinamérica e sugestivamente apresenta a explicação conhecida, de ser Dafen um dos muitos milhões de negócios chineses e americanos, que se transformaram em motor essencial da economia mundial, retratando a especial ligação entre os aforradores e fabricantes chineses e os consumidores e emprestadores americanos.

Vínculo de 30 anos que passa por uma total metamorfose, como resultado da actual crise económica que tem varrido o mundo e causado fortes impactos. Foi a China que ao manter elevadas reservas em dólares e deter títulos do Tesouro obtidos com o resultado das suas exportações para os Estados Unidos, que fizeram os americanos enveredar por uma política de baixas taxas de juros, emprestando de forma simples e acessível o dinheiro necessário para comprar sapatilhas, LCD`s, pinturas falsas e novas casas. Os americanos contraíram empréstimos dando como garantia as casas para consumir mais, fazendo aumentar a riqueza sem rendimento.

Tal esquema, funcionou enquanto pode e foi longo o período. O desemprego aumentou nos Estados Unidos e os americanos tornaram-se no povo mais endividado do mundo, sem capacidade de poder comprar os produtos chineses, necessitando urgentemente de aumentar as suas poupanças, diminuir o consumo e devolver a maior parte dos cartões de crédito que possuem, que nos seus pagamentos de mínimos é aplicado um engenhoso cálculo de juros que encarece o crédito, como se fosse aplicada uma taxa anual de juros de 80% a 120% ou mais, que tem sido causa de ruptura financeira de muitas famílias, da miséria, depressão e outras anomalias psicológicas que lhe estão associadas.

Para que tal aconteça, é necessário que a China fique com muitos dos cartões de crédito americanos e ocidentais e que os conceda ao povo chinês para consumirem os seus produtos e importar em maior quantidade do exterior.

Será a única forma da China sustentar o crescimento mínimo de 8%, necessário à manutenção de uma falácia política entre os líderes e o povo, acrescido do facto de terem de fazer face ao impacto da recessão americana e europeia na economia mundial.

A China não vai resgatar a economia mundial. Os Estados Unidos terão de enfrentar a crise de forma clássica, cavando um túnel para sair do poço e voltando aos princípios tradicionais como o de melhorar a produtividade, aumentar a poupança, os conhecimentos que permitam invenções de novos produtos para exportação.

O tempo de falsa prosperidade pela contracção de empréstimos por via do dinheiro barato da China, para se construírem casas e servirem de garantia a empréstimos para a compra de pinturas chinesas para decorar as paredes, em que todos eram ganhadores, terminou.

G-2 será a Chinamérica na sua fase 2? A conclusão pode-se retirar dos fins em vista e da leitura de muitos momentos políticos. Com este grupo de dois países parece que irão cair no esquecimento as cimeiras dos países do G-20, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e o estreitamento das relações naturais entre os Estados Unidos e a União Europeia (UE).

 

Jorge Rodrigues Simão, in HojeMacau, 18.09.2009

 

A ser publicado, alterado, traduzido e com bibliografia na Universidade Jean Monnet

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