JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Oportunidades emergentes

“Financial crises and scandals occur frequently enough to make finance appear to be a cause of poverty rather than prosperity, volatility rather than stability. And it is partly because, for centuries, financial services in countries all over the world were disproportionately provided by members of ethnic or religious minorities, who had been excluded from land ownership or public office but enjoyed success in finance because of their own tight-knit networks of kinship and trust.”

Niall Ferguson
The Ascent of Money
A Financial History of the World

A relação comercial e financeira de características de quase de simbiose entre os Estados Unidos e a República Popular China que guiou os destinos da economia mundial do último quinquénio foi inovadoramente descrita pelo Professor Niall Ferguson no seu livro “The Ascent of Money: A Financial History of the World” com o conceito de “Chimérica”

A fábrica mundial chinesa, com a sua admirável capacidade de aforro gerada por gigantescos e constantes superávits da balança comercial, financiou em grande parte o deficit de conta corrente dos Estados Unidos e de grande parte dos restantes países desenvolvidos, fazendo reduzir as taxas de juro a longo prazo, e estimulando a borbulha especulativa no sector imobiliário.

A crise financeira internacional que começou em Agosto de 2007, marca o princípio do reequilíbrio destas desmedidas instabilidades, em que um país em vias de desenvolvimento financia o consumo e o endividamento das economias mais ricas do mundo.

Apesar de alguns sinais positivos, são imprevisíveis as consequências da actual crise financeira internacional sendo que o presente cenário de envolvimento internacional de todas as economias do mundo se realiza em função da sua relação com o eixo sino-americano da economia mundial.

Por um lado, a velocidade da recuperação da economia americana determinará as possibilidades de crescimento futuro da economia mundial no seu conjunto. Por outro lado, a sustentação da rápida marcha para o desenvolvimento da China, e de forma crescente da Índia é fundamental para os grandes países produtores de alimentos, como o Brasil e Argentina.

As previsões apontam que a procura de alimentos da economia chinesa poderia ser de 85 milhões de toneladas no próximo ano. A China representa apenas uma parte do que está a acontecer na Ásia.

No seu encalço, está a despertar outro gigante, a Índia que produz mais de 210 milhões de toneladas de alimentos para uma população de cerca 1100 milhões de habitantes, prevendo-se que em 2030, seja mais populoso que a China e que continuará a crescer a um ritmo superior a 6 por cento ao ano, tendo sido de 8 por cento nos últimos quatro anos.

O Brasil, Argentina e outros países sul-americanos produzem grande parte dos grãos consumidos a nível mundial. O grão foi o principal produto de exportação do Brasil durante 100 anos.

Existem mais indicativos, de que o grandioso programa de estímulos do governo chinês de 600 mil milhões de dólares, pode ser uma forma gradual de ocultar os efeitos do tufão da crise financeira internacional.

Na China o investimento em capital fixo aumentou quase 30 por cento e os empréstimos bancários cerca de 8 por cento, em Março do corrente ano. A produção industrial dá indícios de recuperação, depois de vários trimestres de queda.

Uma vez que os dois gigantes asiáticos, cujas vantagens comparativas são complementares com as dos correlativos da América do Sul, continuam a crescer e a especializar-se, é de esperar que a tendência para o aumento da procura de produtos sul-americanos siga em ascensão, elevando as perspectivas de economias fortes em recursos naturais como o Brasil, Argentina e outros países.

O mundo do século XXI, das particulares relações sino-americanas, tem o seu grande pilar de crescimento no comércio externo que passa pelo núcleo das políticas de desenvolvimento dos países sul-americanos. Um olhar a longo prazo indica que o nível de abertura da economia, medido como exportações mais importações sobre o Produto Interno Bruto (PIB), encontra-se historicamente em níveis muito elevados no Brasil e Argentina.

Os instrumentos de política comercial externa na maioria dos países sul-americanos têm estado sujeitos às urgências e necessidades macroeconómicas dos governos, em especial ponderados o tipo de inflação e arrecadação fiscal, mais do que as necessidades de maximizar as potencialidades do desenvolvimento do comércio externo. A presente situação mostra a continuidade desse princípio histórico, em especial ligado ao uso de controlos de preços, quotas e proibições à exportação, e mais evidente, os impostos à exportação ou retenções sobre o sector agro-industrial.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), como resultado do impacto negativo das acções governamentais sobre o rendimento e superfície semeada, na maioria dos países sul-americanos, prevê uma forte queda na produção agrícola.

Os problemas agravam-se num contexto de ampliação horizontal com a incorporação de mais países como a Venezuela, como Estado Parte, e no futuro próximo da Bolívia e Chile, Estados Associados desde 1996, do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai como Estados Fundadores - Tratado de Assunção de 26.03.1991), inclusive recuo, da integração vertical.

As negociações com outros blocos estão praticamente suspensas. As posições dos estados sul-americanos pertencentes aos diversos blocos, na sua maioria, na Organização Mundial do Comércio (OMC) tornou-se extremamente defensiva. A Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) sonhada pelos Estados Unidos e que seria composta por 34 estados à excepção de Cuba, desapareceu nas brumas no esquecimento.

No contexto da crise financeira internacional, a maioria dos países sul-americanos implementaram medidas de maior proteccionismo, como salientam os recentes relatórios do Banco Mundial e da OMC, contrariando por completo os princípios subjacentes a esta última organização multilateral e que somados aos sempre e idênticos comportamentos dos Estados Unidos, União Europeia e Japão parecem dar o nó górdio final na inglória Ronda de Doha.

Jorge Rodrigues Simão, in "HojeMacau",  24.07.2009
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