JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

O aliado delinquente

“A corrupção é um estado mental.”

Asif Ali Zardari

 

A República Islâmica do Paquistão tornou-se independente, tal como a República Federal da Índia, em 15 de Agosto de 1947, na sequência da divisão da Índia, nos dois governos autónomos e cuja independência do domínio britânico se dá pela pertinácia da lutas pela liberdade encetadas por Mahatma Gandhi, que consistiram, nomeadamente, numa forma desconhecida até então, o da desobediência civil que tinha como pilares principais, o boicote aos produtos britânicos e a rejeição ao pagamento de impostos. O primeiro governo da Índia, foi liderado pelo primeiro-ministro Jawaharlal Nehru e o do Paquistão, por Mohammed Ali Jinnah.

O Paquistão travou com a Índia três guerras, sendo duas por causa do Estado de Caxemira, cujos governantes decidiram ligar-se à Índia. Quando era chefe do governo, Indira Gandhi, filha de Nehru, iniciou-se em Dezembro de 1971, a terceira guerra com a Índia, pelo apoio dado aos separatistas bengalis, do Paquistão Oriental. Os paquistaneses rendem-se após duas semanas de intensos conflitos e dá-se a secessão da parte Oriental do Paquistão e é criado o Estado de Bangladesh.

A índia durante a Guerra Fria foi apoiada pela ex-União Soviética e o Paquistão pelos Estados Unidos. Ao invés da Índia, o Paquistão não tem capacidade para assegurar um sistema democrático duradouro, sendo obscurecido por períodos de ditadura. Praticamente até às eleições de 6, o presidente do Paquistão, foi o general Pervez Musharraf, que nasceu na Índia, em Nova Deli, tendo a família emigrado para o Paquistão.

A 27 de Dezembro de 2007, a Al-Quaeda, assassinou a ex-primeira ministra Benadzir Bhutto, significando que a crise paquistanesa faz parte da guerra civil do Afeganistão. A 10 de Julho, o Senado dos Estados Unidos confirmou o general David Petraeus, que ocupava o posto de comandante do exército americano no Iraque, no posto de Comandante no Médio Oriente, passando a coordenar todas as operações na região, que inclui a guerra no Afeganistão. O general Petraeus, que defende a estratégia do Presidente Bush de aumentar as tropas no Iraque e de ter melhorado a segurança no país, que em verdade teve a habilidade de o mergulhar num autêntico caos, foi recebido com uma vaga de atentados.

A hipocrisia do desprestigiado e destronado general Pervez Musharraf e as suas manobras fora do poder, podem fazer cair o Paquistão num regime fundamentalista do tipo talibã, ou na divisão de um país artificial na realidade, inventado em 1947, que passou a pior crise, desde a guerra de 1971 com Índia. Muito antes do Iraque, o Afeganistão até 1895, controlava o Baluchistão, até ao mar de Omã, que desde 1838 faz que ingleses, russos e actualmente americanos, se espatifem entre as suas montanhas.

O Baluchistão é presentemente uma área dividida entre o Afeganistão, Irão e Paquistão Os acontecimentos ocorridos no Paquistão são história, ainda que, menos recente. Há cerca de cinco anos, uma violenta ofensiva do Paquistão em áreas dominadas por talibãs na fronteira com o Afeganistão provocou a guerra. O Paquistão, um país com sessenta anos de existência entrou no complexo xadrez histórico e político do Afeganistão, que tem séculos de existência. Guerrilhas de cuja língua é o pashtun, falado pelos pathanes, que representam mais de 50% da população do Afeganistão e se localizam a Leste, ameaçam o percurso que passa por Rawalpindi, onde foi assassinada Benadzir Bhutto, e que é um local simbólico, fazendo parte de uma história longínqua, que se perde na bruma dos tempos e que segundo reza, Alexandre III ou Magno, da Macedónia, no século IV a.C não pode ir mais além, na conquista do seu Império.

Os ingleses cerca de 2400 anos depois deste acontecimento, em 1938, tiveram a humildade de chegar à conclusão de que cem anos de enormes e denodados esforços tinham sido inglórios para manter Cabul e Kandahar, face às fortes vagas de combatentes afegãos. Numa tentativa de conservar a fronteira Noroeste da Índia, que actualmente separa o Paquistão do Afeganistão e serve de refúgio à Al-Quaeda, os ingleses em 1838 iniciaram os conflitos. Nos séculos XIX e XX, os ingleses perderam três guerras contra os afegãos.

Os russos fracassaram igualmente, três vezes, no final do século XIX e primeiros anos do século XX.. A explicação devia-se ao facto, de os montanheses de língua iraniana na sua maioria turcos e mongóis viverem em plena anarquia, unindo-se apenas, para combater, quando algum país, não muçulmano tem intenções de os dominar. Os seus refúgios situam-se entre as montanhas acima dos 4000 metros de altitude.

A evacuação americana do Vietname, dá-se no mesmo ano da invasão soviética do Afeganistão, que se transformou num autêntico desastre. O ano de 1975 foi um “Anno Horribilis” para as duas super potências da Guerra Fria. No meio do conflito, nascem dois grupos, os talibãs e a Al-Quaeda, armados e apoiados pelos Estados Unidos e Arábia Saudita.

A actual intervenção dos Estados Unidos segue a mesma rota com uma agravante, o facto de os guerrilheiros afegãos se terem instalado no Noroeste do Paquistão e os aliados daqueles não terem capacidade para resistir por muito tempo, não contando com as incursões de guerrilheiros pela zona indiana de Caxemira. Existe uma outra situação, o facto de ao contrário do Irão, o Paquistão ser possuidor de armas nucleares, e quem tiver a confiança das forças armadas, independente de ser presidente ou não, pode provocar uma guerra civil e deixar os Estados Unidos sem uma única pedra, para mover neste complicado e difícil tabuleiro regional.

É o cenário real, que tem o general Petraeus pela frente, depois de deixar o Iraque submerso numa guerra impossível de resolução a curto prazo. Se tudo se conjura para ser uma tragédia, o quadro do abismo completar-se-ia com a tomada de Cabul.

Asif Ali Zardari, viúvo de Benadzir Bhutto e líder do Partido Popular de Paquistão (PPP), conseguiu a 6, a maioria de votos necessários para se tornar presidente do Paquistão e suceder ao general Pervez Musharraf com uma clara maioria numa votação parlamentar de 482 votos dos 702 totais. Padeceu onze anos de cadeia por corrupção, extorsão, homicídio, exílio e o desprezo de seus concidadãos, que o apelidaram de “senhor dos 10%” pelas comissões que cobrava a troco de favores, sendo o responsável pela corrupção no país, que originou queda dos dois governos intercalados da sua esposa.

O general Musharraf, reeleito em Outubro de 2007, foi forçado a demitir-se a 18 de Agosto, depois de nove anos no poder, a fim de evitar que a coligação governamental, iniciasse um processo parlamentar de destituição. O novo presidente do Paquistão herda uma presidência, com os mesmos poderes que detinha Musharraf, que é desde logo, motivo de preocupação. O governo tem a participação de pessoas do seu partido. Irá ter de fazer face à espinhosa reabilitação dos juízes, à preocupante situação económica do país e à luta contra os integracionistas islâmicos.

O general Petraeus pede a Zardari para lutar contra o terrorismo do seu Baluchistão e do Afeganistão. Sendo corrupto por natureza é mais permeável que Musharaf às instruções de Petraeus ou da Secretária de Estado americana, que desempenhará funções por mais quatro meses. O novo presidente paquistanês tem um problema grave e próximo, o de um exército infiltrado por talibãs, e que o Chefe do Estado - Maior do Exército, tenta a todo custo manter em ordem e equilíbrio.

Ao tomar posse a 9, como presidente do Paquistão, uma nova batata quente é oferecida ao presidente Bush e seu sucessor, o de ter como aliado um delinquente, a liderar um país de máximo interesse geoestratégico e de segurança nacional para os Estados Unidos.

Jorge Rodrigues Simão, in "HojeMacau", 19.09.2008

 

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