JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Agroflação e estanflação

“Em mandarim a palavra “crise” é representada por dois caracteres 危  機 - um representa perigo. O outro 機  , oportunidade.”

John Fitzgerald Kennedy

 

Na China os preços dos bens alimentares subiram cerca de 23% no espaço de um ano. A subida incontrolável dos preços dos alimentos conhecida por “agroflação” tem vindo a preocupar o mundo. Os países têm reagido com a aplicação de medidas que passam por maior controlo interno e restrição às exportações. A índia suspendeu a negociação de contratos futuros e opções de diversas matérias-primas que estavam a ser negociados com fins especulativos. Trata-se de medidas conjunturais. Os bancos centrais do Brasil, Rússia e Indonésia subiram as taxas básicas de juros que não acompanharam o ritmo da inflação pelo que os juros reais são negativos, ou seja, inferiores à taxa de inflação sendo negativos nos dois últimos países, à excepção da Coreia do Sul, Brasil e México.

A Rússia que no início de Abril apresentava uma situação de diferença de 8% entre a taxa básica de juros e a inflação, corrigiu a 14 de Abril com a subida da taxa de juros básica para 11,75% enquanto a inflação ficava pelos 15,1%. Nos países emergentes a maior parte da população defende a desnecessidade de “muletas” monetárias dado que a causa fundamental da existência de altas taxas de inflação deve-se ao aumento dos preços dos alimentos essenciais e do crude e associam-na à especulação e quedas transitórias da oferta. Numa visão demasiado optimista acredita-se que os preços dos alimentos desçam no último trimestre do ano. Todavia, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação (FAO) afirmou a 15 de Maio que o preço dos alimentos deve continuar num limiar alto nos próximos dois ou três anos, e que a descida só se daria quando as reservas estivessem totalmente repostas.

A simultaneidade do aumento dos bens alimentares pode ser considerado por outra via, como diferentes razões que não se prendem com a escassez da oferta. Por exemplo, políticas monetárias brandas, distorções cambiais e a procura dos países em desenvolvimento. Uma terceira visão, pode considerar tratar-se de um fenómeno visível nos Estados Unidos, traduzido no estagnação económica e inflação e denominado de “estanflação" que não impede o efeito de contágio, enfrentando a economia mundial situações sérias como a volatilidade dos preços do petróleo e de outras matérias-primas, ajustes da política monetária, um travão nos fundamentos económicos que fatalmente provocam quedas nas bolsas e desajustes comerciais. Os alimentos têm uma participação de cerca de 40% na composição do índice de vendas dos países emergentes, face a 14% nos países desenvolvidos. Alguns países parecem mais inclinados à inflação e um estudo comparativo de salários, expectativas, procura e capacidade produtiva revela que a Índia, Rússia, Brasil e os países exportadores de petróleo do Golfo são os que maiores riscos poderão sofrer nos próximos meses. As pressões são menores na China, Coreia do Sul ou Turquia.

Não existem receitas clássicas para uma economia global em permanente estado de incerteza e ebulição, mas retirando as lições dos choques petrolíferos da década de 1970 será de endurecer diversas políticas, começando pela monetária de elevar as taxas de juros para travar a expansão da massa monetária básica (M1 que é a moeda em circulação e os depósitos à ordem), que atingiu os 21,1% nos últimos doze meses nos países em desenvolvimento, representando o triplo das economias dos países desenvolvidos. A Rússia é emblemática em muitas áreas e o seu M-1 aumentou no mesmo período cerca de 45%. O congelamento das liberalizações comerciais que tem caracterizado o período da demorada agonia da Ronda de Doha está em vias de se agravar por razões geopolíticas e de mercado, particularmente visto nos surtos proteccionistas de combustíveis e energia.

Um relatório encomendado recentemente pela Comissão Europeia para seu uso interno aconselha na sequência do realizado em 2007, a limitação do acesso de empresas extrazonais aos sectores de energia e combustíveis e que seja posto em prática cláusulas de reciprocidade de forma a excluir países como a Arábia Saudita e a Rússia, onde as empresas europeias defrontam-se com sérias restrições ao investimento. As propostas contidas no relatório referiam-se inicialmente a planos para estimular a concorrência intrazonal e que foram adiados pelo aumento dos preços a nível internacional. Um outro documento interno da Comissão Europeia defende que a União Europeia ficaria numa situação muito frágil perante estratégias comerciais de terceiros países que tinham por objectivo controlar o seu mercado em termos de oferta que afectaria as redes de electricidade e gás natural. Sem grande trabalho imaginativo subentende-se ser a empresa estatal russa de energia Gazprom. Esta forma de investimentos extrazonais teriam certamente objectivos mais geopolíticos que os estritamente económicos.

A Comissão Europeia receia principalmente através da Polónia, que a Rússia fornecedora de hidrocarbonetos à Europa Ocidental use a Gazprom e outras empresas de fundos estatais de investimento para dominar o fluxo de combustíveis e de capitais para a União Europeia. A fim de contrariar tais tentações, ambos os documentos recomendavam a necessidade de declarar sectores estratégicos, muito sensíveis para que empresas estatais de países não membros da União não tivessem acesso ao sector da electricidade e combustíveis e os pudessem controlar. Por situações não tão delicadas os Estados Unidos demonizam a Venezuela e a Bolívia. A estratégia é muito usada em França para proteger as grandes empresas de distintos sectores da concorrência aberta estimulada pela Comissão Europeia. Os argumentos neonacionalistas esgrimidos não se circunscrevem à União Europeia, sendo usados igualmente pelos Estados Unidos.

Autointitulam-se líderes do liberalismo económico, vão ao jogo do mercado para fazer batota. Impediram em 2005, a compra da empresa petrolífera Union Oil Company of California (Unocal) possuidora de grandes reservas de petróleo e gás na Ásia pela empresa Chinese National Offshore Oil Corporation (CNOOC) a favor da Chevron pertencente à família Rockefeller por menos dois mil milhões e quinhentos milhões de dólares como sendo considerada matéria de segurança nacional. A ideia de impedir um contrato comercial com um dos maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos entra fatalmente em contradição e conflito com a teoria económica dominante de comércio livre e globalização. Sendo a globalização um resultado do comércio livre a Administração do ex-presidente Clinton foi mentora do Acordo de Comércio Livre da América do Norte (NAFTA) entre os Estados Unidos, Canadá e México. Na sua campanha eleitoral a senadora Hillary Clinton afirmou que o comércio livre era prejudicial para os Estados Unidos seguindo na esteira do Professor Paul Samuelson e contrariando a política americana dos últimos cinquenta anos e a do seu marido. Esperemos que Barack Obama emende esta infeliz visão e acrescente ao conceito de comércio livre a palavra “justo”.

Jorge Rodrigues Simão, in "HojeMacau", 20.06.2008
Share

Pesquisar

Traduzir

ar bg ca zh-chs zh-cht cs da nl en et fi fr de el ht he hi hu id it ja ko lv lt no pl pt ro ru sk sl es sv th

Azulejos de Coimbra

paineliii.jpg