JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A Ásia e o fantasma da inflação

“The free ride for American consumers is ending. For two generations, Americans have imported goods produced ever more cheaply from a succession of low-wage countries — first Japan and Korea, then China, and now increasingly places like Vietnam and India. Inflation is the major threat to Asian countries”.

The New York Times
April 8, 2008


A China é o único país da Ásia em que as suas carências pelo crude e os seus investimentos transcontinentais e principalmente as boas relações com o Irão podem lesar o que os americanos consideram ser os seus interesses globais de segurança. Acrescem novos motivos de preocupação como o acesso da China aos hidrocarbonetos da Rússia, controlados pela maior empresa estatal, a Gazprom, que por sua vez é controlada pessoalmente pelo ex-czar presidente Vladimir Putin, que colocou no seu lugar um títere e passou a primeiro-ministro.

A Gazprom tem sido autora e actriz de famosos folhetins teatrais que fariam a delícia de interpretação de qualquer Pierce Brosnan. Nessa conjuntura, o governo russo nem se dá ao trabalho de ter em conta as fantasias, quer do Pentágono, quer da NATO e muito menos as considerações do governo americano acerca dos fantásticos contratos assinados com a China e Japão.

No Ocidente, a China tem acordos firmados com o Brasil, Equador, Peru e Argentina, cujos governos não são próximos ou apoiantes da Administração de George W. Bush. As negociações com a Colômbia são difíceis, por ser o maior aliado unilateral dos Estados Unidos no continente. O interesse fundamental da China é pela Venezuela, por ser o quarto exportador de petróleo para os Estados Unidos e que constitui actualmente a maior obcecação do Pentágono que em tresloucada fantasia, a 24 de Abril afirmou que a partir de próximo mês será recriada a IV Esquadra com base na Florida e que terá como missão patrulhar a costa do continente sul-americano e das Caraíbas, ainda que o Brasil tenha declarado que não entraria nas suas águas territoriais sem autorização. A IV Esquadra foi constituída em 1943 para detectar e destruir submarinos alemães e em 1950 no pico da Guerra Fria, foi incorporada na II Esquadra tendo como missão a vigilância do Atlântico Sul. Reorganizar a IV Esquadra, significa ameaçar de forma clara e inequívoca o ditador crioulo Hugo Chavez e os seus aliados.

Nesta psiquiátrica estratégia dos Estados Unidos em que os seus gastos militarem atingiram no ano passado o valor mais alto desde a II Guerra Mundial, ou seja, o equivalente a cerca de 46,5% das despesas militares a nível mundial, o que não significa uma melhoria em termos da sua segurança nacional, nem a melhoria da guerra contra o terrorismo e menos na solução da situação no Iraque, Afeganistão, Golfo Pérsico e na Palestina, sendo o país que mais exporta armas e cujos principais compradores nos últimos cinco anos foram a Coreia do Sul, China, Turquia, Índia, Israel, Arábia Saudita, África do Sul, Venezuela e Chile. Em igual período de tempo, os maiores compradores de armas à Rússia, foram a China, Índia e Venezuela. Assim, os Estados Unidos fazem conjuras para eliminar o ditador que governa um dos seus grandes vendedores de crude e comprador de armas e a Venezuela vai insultando sem rei nem roque o seu grande comprador de crude e vendedor de armas.

Os Estados Unidos protegem-se do seu comprador de armas e parceiro comercial que é a China, que por sua vez se protege do seu vendedor e parceiro comercial que é os Estados Unidos. Neste tipo de puzzle podemos encaixar as peças da forma que quisermos, pois todas se ajustam. Os Estados Unidos são possuidores de seis esquadras em permanente serviço e é desnecessária uma sétima esquadra para combater o narcotráfico virado a narco-terrorismo e brindar ajuda humanitária, como consta da declaração de motivos apresentada como justificação para a sua reconstituição.

A verdadeira razão é que o governo americano encontra-se extremamente preocupado com os acordos celebrados entre a China e a Venezuela para explorar, extrair e refinar os hidrocarbonetos que compra. Os Estados Unidos aproximam-se da prevista recessão económica, enquanto outras economias ainda continuam a crescer debaixo do risco do aumento da inflação. O Presidente do Banco Central Europeu, advertiu acerca dos erros cometidos na década de 1970, em que o mundo se deparou com dois choques petrolíferos.

Nesse tempo não foi travada a inflação, com a diminuição do poder de compra da moeda. No primeiro choque petrolífero os principais bancos centrais praticaram uma política de baixas taxas de juros na perspectiva de equilibrar a diminuição da actividade económica provocada pelo aumento do preço do crude e que teve como resultado a diminuição do crescimento. Na década de 1990, os governos das economias emergentes asiáticas negligenciaram a reforma de políticas monetárias de austeridade e os desequilíbrios fiscais e monetários criaram crises cambiais e inflacionárias patentes na crise asiática de 1997 e 1998. As estatísticas oficiais de grandes países asiáticos como a China, Índia e Indonésia apresentam uma subida de preços ao consumidor que se situam entre 7,5% e 10% num ano. Se forem avaliados de forma correcta tais cifras, chega-se à triste realidade que cerca de 65% da população mundial sofrerá uma inflação generalizada em média superior a 10% anuais no segundo semestre do corrente ano.

Quando em meados do ano transacto pelos indicadores de organizações internacionais e comparativamente às previsões para a economia mundial e da Ásia em especial e tendo em conta o forte ataque especulativo que Macau continua ser alvo e os indicadores da sua débil economia apontavam para uma inflação no final do corrente ano de dois dígitos. Não entrando em detalhes por não ser esse o propósito, não se fugia muito à actual realidade com tendência a piorar. Infelizmente essa realidade cumpriu-se. Todavia, ainda existe a excepção de algumas economias em desenvolvimento apresentarem no primeiro trimestre taxas anuais superiores às dos tês trimestres anteriores. Porém, ocorrem semelhanças alarmantes entre os países emergentes e os países desenvolvidos quando na década de 1970 se desencadeou a enorme inflação, e que o Sistema da Reserva Federal (FED) teve de fazer face no final da década. Estarão as economias em desenvolvimento perante idênticos dilemas? Os preços ao consumidor chinês segundo os indicadores oficiais são de 8,5% e face a idêntico período do ano transacto representam uma subida de 2,9%. A taxa de inflação na China irá ser superior à revelada oficialmente uma vez que o Índice de Preços ao Consumidor não extrapola claramente os serviços. A Rússia teve um acréscimo superior a 7,1%, passando de 8% para uma taxa de 15,1% em Maio.

A maioria dos países exportadores de petróleo do Golfo Pérsico apresenta taxas de inflação entre os 11% e os 15%. Na Índia os atrasos na compilação dos dados obrigam a severas revisões depois da publicação e a inflação prevista para este ano é de 8,02%, quando o Ministério do Comércio previa no início do ano 6,7%. A taxa de inflação apresentada em 2007 foi de 5,3% subindo em Maio para 7,83%, devendo terminar o ano com valores superiores a dois dígitos. Na América do Sul, o Brasil com uma inflação de cerca de 4,46% em 2007, subiu 2% em Maio. O Chile que em 2006 apresentou uma inflação de 2,6%, terminou 2007 com 7,8% e apresentava em Maio 8,5%. A Venezuela que teve no ano de 2007 uma taxa de inflação de 22,5% apresentava em Maio 30%. Os generalizados aumentos da inflação e sem mencionar todas as causas, como as bruscas alterações climáticas, cataclismos naturais e outras crises, devem-se essencialmente ao aumento internacional dos preços dos hidrocarbonetos e dos produtos básicos de origem agrícola, mormente nos países importadores.

Jorge Rodrigues Simão, in "HojeMacau", 13.06.2008
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