JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Árdua Tarefa

“O homem é um mistério que é necessário esclarecer e se passamos toda a vida a tentar esclarecê-lo, não digamos que perdemos o tempo. Eu estudo este mistério porque quero ser homem”.

Fiódor Dostoievski

Quem escreve no mundo em que a informação se transmite a uma velocidade vertiginosa sofre da frustração de os factos presentes se terem transformado em passado quando são lidos. Trata-se de uma difícil e árdua tarefa intelectual, obrigando a ler, escrever e dizer que não se limita ao falar e escutar que não é apenas o ouvir. Essencialmente obriga a uma actividade mental que é pensar cada vez mais em desuso. Quem escreve tem compromissos de leitura que vão desde os clássicos, às novidades literárias numa imprescindível selecção. Não existe muito tempo para a leitura das revistas sobre crítica literária e suplementos culturais dos jornais.

Escrever é um acto de amor preocupado com o que se passa ao nosso redor. Escreve-se demasiado por gosto ou por conveniência, em diferentes formatos mas na maioria das vezes de improviso. Escrever sem transmitir é um acto morto. Escrever é algo que não tem horário, como deveria ser o mister dos professores, que deveriam transmitir pela fala a qualquer hora aos alunos e cada dia o fazem menos ao contrário dos meios de comunicação, nomeadamente, as cadeias televisivas que cada dia falam mais, onde os políticos são os campeões do tempo de transmissão de mensagens idealistas, ocas ou desalmadas que na maioria das vezes nunca se irão concretizar. Escrever é opinar, sobre o divino e o humano, muitas vezes a favor de uns na oposição aos demais para atingir uma glória efémera.

Quem escreve deve pensar. Deve ser um pensador. Perguntar-se-á em quê? Como? Quando? E para quê? Idealiza-se que o pensador é um intelectual sofredor, polivalente e fértil. Talvez um artífice das letras na procura de fama. Talvez um filho da presunção, seguidor de ricos e poderosos que se limita a conjugar palavras gastas e a repintar os quadros de acontecimentos felizes e tristes da sua vida, mas na maioria das vidas alheias.

Escrever é difícil porque exige originalidade e muito do se põe em papel foi feito há séculos e entre os pares aparece sempre alguém com maior engenho e arte. Admiramos uns por amizade e outros por hipocrisia. Não será espanto num mundo onde os amigos rareiam e os hipócritas dominam. Estes últimos têm como estratégia invocar a arma do plágio por muito que se leia, pesquise e pense. Ao escrever pretendemos ser livres e por vezes somos prisioneiros de indefinidas convenções.

Escrever é também um acto cultural num mundo desculturizado, onde a vulgaridade do falar banal e amaldiçoado prevalece. Escrever é um acto de fuga das frustrações e de proclamação de compromissos. Escrever é um acto de escolha de alguma causa como a luta pela justiça que sendo ideal não existe e precisa de ser inventada. Escrever é um acto de múltiplas inimizades que trás o desprezo dos pseudo-sábios, dos políticos que tentam usar em seu benefício e dos empresários que sempre ignoram mesmo que tenham pago.

Quem escreve desenha a estratégia na devolução da bengalada queirozianamente sofrida, encerrando-se no seu laboratório de trabalho agarrado às ciências empíricas, chamando a revolução e odiando sem dissimulação os que conseguiram escapar com algum capital à famigerada crise mundial de diversos tentáculos. Pesquisam exemplos do passado e veneram o tempo dos escribas e doutos, mandarins e clérigos de qualquer religião dominante e vanguardistas do operariado. Tudo serve desde que se toque no poder. Põe-se austero e imperativo não tendo agrado pela discussão e nunca sorrindo como o niilista Fiódor Dostoievski no seu livro “Endemoniados” em que silogisticamente dando um passo adiante e entrando na insanidade, conclui que se Deus não existe, eu sou Deus.

Quem escreve quer inteirar-se de tudo, confinar a vida na sua prisão de juízos. Ama a totalidade do mundo material como advertia Friedrich Hegel, tornando-se num advogado da universalidade. Vagueia pelo mundo factual da sociedade detendo algum poder. Mas como deve exercê-lo? Perdida a luta de classes que não era a sua, devia adquirir as ideias de esquerda socialista que garantia o êxito mediático e algumas benesses menores quando governam os seus. Situando-se entre a esquerda e a direita com alguma sorte, serve de enfeite independente de quem seja o vencedor, pois não existem adversários e com tempo de passar a factura aos reaccionários pela sua generosidade. Imprescindível é ser antiamericano, quer o vencedor das eleições fosse John McCain ou Barack Obama que tomou posse como 44.º Presidente dos Estados Unidos da América e que nos tempos próximos pouco pode fazer na trágica situação económico-financeira que vive o seu país e arrastou o mundo.

Quem escreve deve ter em conta que o multiculturalismo está na moda e é elegante. Mas deve acautelar-se que o tema do Islão brinda diariamente pelos contornos opostos, porque não convém deixar vestígio à dúvida sobre os ataques terroristas que se abateram sobre os Estados Unidos, Reino Unido, Espanha e Índia. Existem algumas notas que demonstram como ser um bom socialista com defende Manuel Alegre por meio da democracia cívica, discriminação positiva e do republicanismo convicto. Falar mal da Igreja pode ser um sinal para se ser notado. Não importa a denominação basta desancar numa qualquer. Quem seja mais inteligente pode tentar retirar da direita o legado da Iluminismo e o belo conceito liberal. Pode-se aconselhar pequenas modificações em caso de necessidade, como uma alfinetada às ideias concebidas para o ex-paraíso soviético e apelidado de anacrónico no regime de Fidel Castro sem “el comandante”.

Quem escreve não basta ser um intelectual, porque necessita ser líder no sentido de inflamar a opinião. O escritor pensador autêntico prefere o rigor porque aceita os limites da condição humana e admira a maravilha do dia-a-dia, de uma convivência pacífica no meio do conflito que o mundo não consegue viver e quando não o tem por perto, inventa por vezes à custa da mentira mais torpe, introduzindo laivos religiosos para dar uma tonalidade santa de alma demoníaca.

Quem escreve recusa as utopias cumprindo com esforço o seu trabalho diário. Aplica um conhecimento honesto e empenha-se na obra bem-feita, pondo cuidado no discurso. Atribui um valor instrumental aos bens materiais. Observa com cautela o ardil da fama fútil. Sobretudo, luta pelo temor face ao poder e desconfia da bondade desinteressada como os casamentos e divórcios sem conveniência. Quem escreve deve ter como fim único a verdade objectiva, mesmo que tenha a face de modesta, limitada, insegura e se apresente com arestas por vezes contraditórias.

Neste Ano Novo Chinês do boi no seu zodíaco que brevemente começa, desejamos as maiores prosperidades e que predomine a verdade de sentido autêntico, sem dissimulações totalitárias ou liberais nem visões angulosas, tornando possível vencer a crise económico-financeira que dá os primeiros passos nesta região do mundo. Somos seres que não sabemos quase nada da totalidade do mundo físico e espiritual pelo que a maior parte das perguntas irão ficar sem resposta acrescido do facto de não haver justiça perfeita.

Jorge Rodrigues Simão,  in  "HojeMacau", 23.01.2009
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